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CASAMENTO CONTEMPORÂNEO: A ESCOLHA DE CASAIS EM NÃO TER FILHOS CASAMENTO CONTEMPORÂNEO: A ESCOLH

Psicóloga formada pela Universidade do Oeste de Santa Catarina Campus de São Miguel do Oeste;

1 INTRODUÇÃO

Este estudo teve por objetivo investigar os motivos de casais heterossexuais pela escolha em não ter filhos, como também caracterizar o casamento contemporâneo, além disso, constatar se a carreira profissional da mulher está envolvida com a escolha em não ter filhos e verificar se o casal sofre críticas pela sua opção.
Devido aos movimentos feministas, a mulher alcançou igualdade política e social em relação aos homens, e a criação da pílula anticoncepcional proporcionou à mulher a possibilidade de escolha de ter ou não ter filhos. Porém a mulher contemporânea acaba exercendo múltiplas tarefas, a de profissional, a de dona-de-casa dentre outros. Estas conquistas por um lado lhe trouxeram opções de escolhas, mas trouxeram uma exigência em obter perfeição em todos os seus papéis, havendo cobrança de alto desempenho, onde não é possível ser somente mulher, mas é preciso ser uma super mulher. Portanto, a mulher contemporânea, em suas conquistas sócio-políticas, acabou adquirindo uma nova maneira de pensar e agir. (BARBIERI, 2008).
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que diz respeito à Síntese de Indicadores Sociais de 2008, as mulheres mostram nos últimos anos muitas transformações no seu comportamento social. A diminuição da fecundidade, o aumento na participação no mercado de trabalho, o reforço no rendimento familiar e o avanço da escolaridade são aspectos essenciais para dimensionar seu papel na sociedade brasileira.
Por meio destas considerações, a Síntese de Indicadores Sociais, acrescenta que estudos a respeito dos tipos de organizações familiares destacam que as famílias compostas por casais sem filhos e ambos com rendimento é um tipo – modelo que está cada vez mais comum, principalmente nas sociedades contemporâneas. Esta tipologia intitulada Duplo Ingresso e Nenhuma Criança (DINC) consistem num arranjo familiar em que o casal tem mais recursos para se dedicar ao trabalho e ao lazer.
Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), encontrados na Síntese de Indicadores Sociais de 2008, esse tipo de arranjo familiar onde os casais em que ambos os cônjuges possuem rentabilidade e em que as mulheres não têm filhos representa 3,4% dos domicílios (1,9 milhões de casais). Em 58,7% deste tipo de casal que mais se aproximam do conceito DINC, a pessoa de referência tem até 34 anos de idade, o que possivelmente reflete em um adiamento da fecundidade ou, ainda, a tentativa de garantir melhores posições no mercado de trabalho. A renda desse tipo de casal é relativamente alta representando 3,5 salários mínimos per capita; e estão entre os 10% com os maiores rendimentos na população brasileira.
Segundo os dados da PNAD encontrados na Síntese de Indicadores Sociais de 2009, as mudanças socioeconômicas que estão ocorrendo nas sociedades modernas e industrializadas têm impactos diretos no cotidiano das famílias. O Terceiro Milênio começa no Brasil com grandes transformações na vida familiar ocasionadas pela queda da fecundidade que, nos últimos 40 anos, diminuiu significativamente o tamanho das famílias. A análise dos indicadores sobre família, a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, confirmam que a proporção do tipo composto por casal sem filhos cresceu, passando de 13,3% para 16,7%, em 2008.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 HISTÓRIA DO CASAMENTO

Com o passar do tempo ocorreram mudanças em relação ao casamento. De acordo com Costa (2007) na Idade Antiga a mulher passava da família de origem, para a família do marido; possivelmente seja essa a origem do acréscimo do nome do marido ao nome da esposa. O casamento era concebido por um acordo formal entre o noivo e o pai da noiva, onde era incluído o pagamento de um dote. Este modelo de união conjugal não dependia da aceitação da noiva, pois seu desejo não tinha importância.
O casamento traz suas origens nos princípios cristãos, tornando-se uma prática social (CERVENY, 1997). Nesse modelo de união conjugal, já era possível a igualdade no consentimento, mas não o desejo, onde as relações sexuais eram permitidas somente para a procriação e não pelo prazer. (COSTA, 2007).
Segundo os historiadores foi no século XVIII que iniciou o casamento igualitário, reunindo a liberdade de escolha, ternura, amizade e prazer sexual, ou seja, o casamento por amor. A mulher passou a ser aceita no mercado de trabalho e deixou de ser somente reprodutora e tornando-se, além disso, produtora. (COSTA, 2007).
Inicia-se um período de revolução, a figura da mãe, sua função e importância, modificam-se, ainda que na prática os comportamentos vão se modificando aos poucos. (MANSUR, 2003).
De acordo com Costa (2007), no século XX a mulher já podia ter uma profissão, existiam métodos anticoncepcionais e o casamento não tinha influências familiares, nem da religião ou do estado, mas sim era fruto de um relacionamento amoroso. A vida conjugal era decorrente de entendimentos em meio a individualidades na composição da família contemporânea. (CERVENY, 1997).
Com o reconhecimento dos direitos e deveres das mulheres, elas começaram a estudar e adquirirem conhecimentos, foram se tornando cada vez mais economicamente independentes dos homens, aproximando-se de um modelo de igualdade com o masculino no qual se referem aos seus anseios, necessidades, modos de pensar, sentir e agir. Respectivamente, ambos passaram a relacionar-se de maneira diferente. (ALMEIDA; OLIVEIRA, 2007).
2.2 CASAMENTO CONTEMPORÂNEO

O alicerce no qual se constitui uma nova família, muitas vezes é construída por desejos inconscientes. O casamento é uma das maneiras que as pessoas têm de constituir vínculos duradouros, é o nascimento emocional da família que permite a construção gradual de um vínculo de apego e cumplicidade. (CERVENY, 1997).
A sociedade contemporânea passou por diversas transformações na família, no casamento, do mesmo modo como nos conceitos de maternidade e paternidade. Sexualidade e procriação não se complementam mais, de tal modo como maternidade e feminilidade não são basicamente observadas como sinônimos. Esse panorama de mudanças trouxe complexidades às relações familiares, reunido aos progressos da medicina, possibilitou além de uma sexualidade sem procriação, uma procriação sem sexualidade. (RIOS; GOMES, 2009).
“A família tornou-se uma instituição multifacetada, […] havendo além da família convencional, outros grupos familiares com peso significativo na sociedade brasileira, como os casados sem filhos e as famílias unipessoais.” (MANSUR, 2003, p. 39).
O casamento contemporâneo não tem a finalidade exclusiva de procriação. Tal fato foi possível em decorrência das transformações que foram acontecendo na trajetória do padrão tradicional de família para as novas configurações, onde é possível observar variados desejos, que incluem a escolha espontânea por não ter filhos. (RIOS; GOMES, 2009).

2.3 SER PAI OU MÃE? NÃO, OBRIGADO

Segundo Thornton (1989 apud PAPALIA; OLDS, 2000, p. 424), “quando vocês terão um filho? Essa pergunta é ouvida com menos freqüência nos dias de hoje, à medida que as atitudes da sociedade se afastam da crença de que todos os casais que podem ter filhos devem tê-los.”
Alguns casais decidem que nunca terão filhos e fazem essa decisão antes mesmo do casamento, já outros casais adiam a concepção até chegar a hora certa de ter filhos, até decidirem que a ocasião certa não chegará nunca. Outros casais investem seu tempo na carreira profissional, ou preferem ter convivência com adultos e sentem que não seriam bons pais. Alguns casais desejam manter a intimidade da lua – de –mel. E outros preferem ter a liberdade para viajar ou tomar decisões sem precisar refletir. (PAPALIA; OLDS, 2000).
Beach, Campbell e Townes (1982 apud PAPALIA; OLDS, 2000, p. 424) ressaltam que: “Algumas pessoas não querem ter o considerável ônus financeiro de ter filhos.”
Outra autora que avaliou os gastos que uma criança ocasiona foi a psicanalista e economista Corine Maier, autora do livro intitulado Sem filhos: 40 razões para você não ter. Para Maier (2008, p. 65):
Um filho custa uma fortuna. Está entre as compras mais caras que o consumidor médio pode fazer em sua vida. Em matéria de dinheiro, custa mais caro que um carro de luxo do último tipo, um cruzeiro ao redor do mundo, um apartamento de quarto e sala em Paris.
Bauman (2004, p. 60) por meio dessas considerações complementa:
O custo total tende a crescer com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza. Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco atipicamente elevado e a uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos.

Nos dias atuais ter filhos é uma questão de escolha fato que gera ansiedade. Ter filhos ou não é comprovadamente uma decisão com grandes conseqüências e de maior alcance que existe. Ter filhos é cuidar de outro ser mais fraco e dependente, diminuir os desejos pessoais, investir menos tempo na carreira, aceitar o compromisso de lealdade por tempo indeterminado.
São compromissos que se chocam com a política de vida do líquido mundo contemporâneo, que muitas pessoas evitam quase sempre com fervor. O período da modernidade líquida em que se vive é um mundo cheio de sinais confusos, que tende a mudar com rapidez e de forma inesperada tornando frágeis os vínculos humanos. (BAUMAN, 2004).

3 METODOLOGIA

A presente pesquisa buscou estudar quais são as motivações de casais heterossexuais pela escolha em não ter filhos, como também caracterizar o casamento na contemporaneidade; além disso, foi investigado se a carreira profissional da mulher está envolvida na opção pela não-maternidade, como também foi verificado se os casais sofrem críticas por optarem não ter filhos. Portanto a pesquisa qualitativa mostrou-se mais apropriada para atender os objetivos deste estudo. “A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares, “[…] trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes […].” (MINAYO, 2008 p.21).
Esse conjunto de fatos humanos é compreendido como elemento da realidade social, pois o indivíduo se distingue não exclusivamente por agir, mas por pensar a respeito do que faz e por interpretar seus atos dentro e a partir do fato vivido e compartilhado com seus semelhantes. (MINAYO, 2008).
Participaram da pesquisa seis casais que foram selecionados pelos seguintes critérios: casais heterossexuais escolhidos por conveniência que optaram não ter filhos até o momento da pesquisa, casados, ou em união estável. Os casais selecionados para colaborar com a pesquisa foram contatados por telefone e convidados a participar. As entrevistas foram realizadas mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, com as devidas orientações. O sigilo da identidade dos participantes foi garantido, prevenindo quaisquer riscos para os mesmos. As entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas, sem qualquer alteração do conteúdo original. A análise dos dados seguiu todos os procedimentos éticos, onde foi utilizada a técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2000). Esta se define como um conjunto de técnicas de análise das comunicações pretendendo obter, por processos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens.

4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Por meio da análise de conteúdo das entrevistas foram elaboradas oito categorias. No tema que investigou porque os casais decidiram não ter filhos e quais foram suas principais motivações, foram formadas as seguintes categorias: opção, formação de um ser humano e falta de confiança na maternidade.
Os casais entrevistados relataram ser uma opção a escolha pela não-maternidade/ paternidade sendo esta a primeira categoria. Um dado relevante foi que a escolha em não ter filhos sempre foi uma decisão tomada pela mulher, tais fatores podem ser percebidos na fala das entrevistadas:

– “Foi uma opção minha né e o tempo foi passando, talvez por comodismo, egoísmo mesmo né, assim é tão bom, só a gente (risos).” (Casal A)

– “Até hoje eu não quero ter filhos e não pretendo ter o desejo futuramente né, porque, além disso, não é que eu acho que atrapalha, mas hã você tem que querer se dedicar pra outra pessoa né, um filho.” (Casal B)

– “Eu, quando nós se conhecemos, uma das conversas que nós tivemos foi que eu não queria ter filhos até nós conversamos antes de começar o relacionamento, antes de fazer o casamento e tudo né eu falei pra ele [para o marido] que eu não tinha intenções de ter filhos, mas pra mim isso já vem de longa data.” (Casal F)

Fica evidente que com o passar dos anos, a tradição de casar e ter filhos foi se alterando e como foi ilustrado pelas entrevistadas, atualmente a mulher tem o direito de decidir o que é melhor para si, podendo escolher ser ou não ser mãe. De acordo com Mansur (2003) a mulher é um ser histórico dotado da aptidão de simbolizar, e a vontade de ser mãe ou não é um fenômeno bastante complexo. Assim torna-se perfeitamente aceitável que a mulher seja normal sem ser mãe e que o amor materno como todo sentimento humano seja incerto, frágil e imperfeito.
Os relacionamentos conjugais se tornaram mais transparentes e, portanto mais expostos a mudanças. Deixaram de ser representados por um ritual da antiga religião familiar para se transformar em um símbolo de união estável; sendo assim o casamento passou a representar um ato de vontade, e a ser conduzido por necessidades e anseios de prazer e realização, escolhidos pelo casal, havendo também, a liberdade do casal decidir em ter filhos ou não. (COSTA, 2007).
A categoria formação de um ser humano expressa a preocupação dos casais entrevistados em relação à educação, à criação, ou seja, à formação de um ser humano, que além do desejo da maternidade e da paternidade deve levar em consideração outros fatores:

– “Na verdade assim ó … é que eu acho que ter filhos não é uma questão só de desejo de maternidade de paternidade … eu acho que tem muito mais coisa envolvida. A criação é muito difícil, eu acho difícil mesmo, não é fácil criar um filho, porque tudo a gente, hoje a gente sabe de muita coisa de que tudo pode influenciar, uma criança né, pode influenciar, pode determinar a personalidade, pode determinar futuros traumas então é complicado eu acho assim.” (Casal B)

– “É uma preocupação a menos, porque é muito difícil educar uma criança hoje em dia.” (Casal A)

– “Eu não me sinto assim preparado, acho que pra mim filhos é … eu tenho uma preocupação eu tenho uma é … eu penso assim que você ta formando uma pessoa (silêncio) desde o ambiente tudo né … eu acho que tudo tem que ta muito bem preparado, não sei se nada ver … mas uma vez tinham mais coragem né.” (Casal F)

– “Sabe não fico pensando só na criança, no nenê pequenininho lá no berço fazendo o que tu … que eu fico pensando além, lá na frente, como é que vai ser e daí quando tu começa a pensar nisso aí começa te da preocupação né, daí tu tem um filho e explica ensina ele o que pode o que não pode o que é bom o que não é, mas sempre quando ele chega naquela adolescência esquece tudo então eu fico me perguntando meu deus quanta preocupação, será que precisa passar por tudo isso né? Será que a gente tem que passa né?.” (Casal F)

Para Maldonado (2004) formar e educar os filhos são tarefas muito complexas, pois cada etapa do desenvolvimento infantil é um novo desafio à aptidão e a flexibilidade dos pais, pelas exigências em termos de mudanças de comportamentos e de disposição para atender às necessidades e as solicitações dos filhos. Para os pais a educação está na possibilidade de crescerem juntos com as crianças, acompanhando a trajetória que vai da dependência do bebê até a independência dos filhos quando adultos.
Cia, Pamplin e Prette (2006) desenvolveram um estudo com 110 crianças com o objetivo de comparar o envolvimento dos pais com os filhos com o repertório de habilidades sociais e de problemas de comportamento das crianças, segundo essa pesquisa fica evidente a importância da comunicação entre pais e filhos, bem como a participação dos pais para um desenvolvimento infantil saudável.
Os casais pesquisados demonstraram preocupação em estar presentes, acompanhando a criação dos filhos, para eles a presença dos pais é fundamental para o crescimento saudável de um filho, sendo este um dos principais motivos que levou os casais optarem permanecer sem filhos, tais fatores podem ser percebidos na verbalização dos entrevistados:

– “Assim a gente os dois trabalhamos fora então daí porque a gente vai ter um filho, se depois uma outra mulher vai criar no caso,[…] essa falta dos pais assim, é bem importante né pro crescimento e tal e sendo que a gente tem um monte de exemplos.” (Casal B)

– “As pessoas dizem “há mais depois que tu for mãe, daí tu vai ter um instinto materno”, não tudo bem eu não tenho nada contra criança eu adoro criança, de verdade eu gosto de ensina, mostra as coisas que são certas, brincar, conversar, sabe eu gosto de faze isso com todo mundo assim, e gosto com criança também, mas há não é o suficiente, não é só isso que importa[…].” (Casal B)

Na categoria falta de confiança na maternidade podem ser percebidas muitas duvidas sobre a maternidade motivo este que levou os casais entrevistados optarem por permanecerem sem filhos. De acordo com Maldonado (2004) é preciso levar em consideração as dificuldades da vida moderna. Há alguns anos a arte de educar e criar os filhos era simplificada pela existência de normas e tradições inquestionáveis. Hoje as maneiras de criar os filhos são intensamente discutidas, onde os pais estão expostos a uma massa de informações em revistas, jornais, livros, sendo que estas informações são com freqüências obscuras ou até contraditórias, inúmeras são as duvidas e questionamentos que passam pela cabeça dos pais, que se sentem inseguros e indefinidos.

– “Até a confiança na maternidade, ela não tem confiança, que vai ser uma excelente mãe.” (Casal E)

– “Se eu não consigo defini pra mim o que eu quero pra mim como que eu vou dar atenção pra outra pessoa entendeu, eu acho que a gente tem que faze o melhor pro filho e eu não me sinto em condições de da o melhor.” (Casal E)

Ao pesquisar se os casais: sofrem críticas pela opção em não ter filhos, pode-se perceber a seguinte categoria: Pressão familiar, esta categoria representa as cobranças e curiosidades familiares que as mulheres sofrem, sendo que estas cobranças não são vivenciadas pelos homens, mas para as mulheres é bastante intenso:

– “A família né meu deus porque não vou ter neto porque não vou ter, não sei o que […]as pessoas elas te acham muito diferente daí se tu não quiser ter filhos, porque o normal é querer ter né e por enquanto eu não quero e quero não querer entende, eu quero não querer nunca, mas as pessoas dizem ai não vai querer e todo mundo vê como uma coisa ruim, porque diz que tem que ter filhos se né, porque tu tem que faze um filho né pelo menos na vida né.” (Casal B)

– “Um pouco de pressão pela família.” (Casal C)

– “Não seria criticas assim mais cobrança né, crítica, crítica em si não mais seria cobrança mesmo.” (Casal D)

– “Só cobrança familiar dos meus pais, os pais do meu marido não, mas os meus querem e eles pedem bastante, eles queriam que nós fosse morar peto deles e ter um filhinho perto deles, mas não da.” (Casal E)

As mulheres que escolhem permanecer sem filhos podem passar por vários tipos de pressão, pois ainda para a maioria das pessoas é estranho que uma mulher não deseje ser mãe (MANSUR, 2003). Os casais relataram que não sofrem críticas por sua opção, mas que apenas são questionados, já que são diferentes nesse aspecto em comparação com a maioria dos outros casais:

– “Criticas, não, não tipo crítica ou discriminação, alguém assim já comento assim vocês podem ter, vocês tem condições de ter e podem ter né, mas não chega a ser um problema né, então é natural né, acho que é normal assim como eu também quando um casal não tem filhos, também a gente fica curioso pra saber mas é curiosidade.” (Casal A)

Para Mansur (2003), mesmo que seja uma escolha permanecer sem filhos, essa decisão expressa trocar um potencial por viver uma diferença em relação ao grupo das mulheres-mães. Essa experiência abrange questões relevantes e pode mobilizar emocionalmente qualquer mulher, mas isso não pode ser considerado como anormalidade ou ilegalidade. É necessário que a não-maternidade seja vista como um fenômeno multidimensional, para assim desprover-se de julgamentos carregados de preconceitos, compreender e aceitar que as mulheres podem ter projetos variados e satisfatórios, já que a sociedade apresenta outras opções que vai além da maternidade.
A mulher pós-moderna é um ser em constante construção, seguindo novas maneiras frente ao mundo social, desde as suas conquistas da entrada ao mercado de trabalho, do acesso aos estudos, como também da escolha em procriar ou não. (OLIVEIRA, 2007).
Com as mudanças ocorridas o casamento contemporâneo não é unicamente com o objetivo de ter filhos, os casais entrevistados demonstraram segurança nas suas escolhas, eles optaram em dedicar-se um ao outro como também na profissão.
Na categoria carreira profissional manifesta as outras possibilidades oferecidas ao casal além da maternidade, paternidade principalmente as apresentadas a mulher, todas as mulheres que participaram desta pesquisa tem como prioridade principal a profissão, hoje elas podem exercer o direito da escolha sobre o que elas querem para si mesmas, esse traço foi bastante marcante em todas as mulheres entrevistadas nesta pesquisa, elas se impõe a metas profissionais, as quais desejam alcançar:

– “A profissão e a faculdade, na verdade porque eu trabalho de manhã num escritório de contabilidade e de tarde faço estágio no fórum e de noite vou pra faculdade e sábado às vezes tem aula, às vezes não mas daí sabe olha ali a quantidade de livros as vezes tem prova, trabalhos, então e ele trabalha também direto as vezes no sábado também né 1.000%.” (Casal B)

– “Quando nós casamos eu queria estudar depois terminei a faculdade e comecei a pós e sempre um motivo levou o outro assim já tivemos vontade de ter filhos e já desistimos também (risos) sempre que pensávamos em ter a gente achava um motivo pra não ter, mas mais por causa dos meus estudos por causa da faculdade da pós e se eu tivesse um filho já seria totalmente diferente, tipo eu não poderia trabalhar.” (Casal D)

– “Um filho iria atrapalhar as opções da minha esposa de trabalhar de estudar, de se dedicar a alguma coisa né, a gente não que porque senão a minha esposa ia ter um filho pra cuidar e a profissão né com duas coisas, talvez seja por isso que a gente não queira [pela profissão], uma vez que tu decides ter um filho tu tens que abrir mão um pouquinho né.” (Casal E)

A profissão significa uma conquista e uma independência financeira. A sociedade moderna tem uma exigência em inserir os indivíduos no mercado de trabalho, valorizando ao máximo aquele que tem como projeto de vida a profissão e o progresso financeiro. Deste modo a maternidade está sendo posta para um momento futuro, mas isso não que dizer que a maternidade perdeu a importância na sociedade, mas o que se nota é que a mulher pós-moderna busca primeiramente uma autonomia econômica. (OLIVEIRA, 2007).
Maneiras e desejos individuais são o que se manifestam atualmente, hoje as mulheres tem acesso à formação profissional e a outras atividades que anteriormente eram unicamente masculinas, afastando o que antes era aceito como o ideal da mulher no lar, atualmente as mulheres podem desempenhar das diversas oportunidades: casamento, profissão, estudos, onde se torna aceitável que a mulher exerça da sua capacidade criadora para inventar a si própria. (MANSUR, 2003).
Os casais ao mencionarem as vantagens do casamento sem a presença de filhos pode ser notadas as seguintes categorias: qualidade do vínculo afetivo a dois; diálogo e tempo um para o outro.
Foi notado que os casais entrevistados percebem o relacionamento conjugal melhor com a ausência de filhos, pois preserva a qualidade do vínculo afetivo a dois:

– “Às vezes a gente fala ai e se nós tivesse um filho agora ele ia ta chorando e a gente não ia fazer certas coisas que a gente faz né sozinhos, até falar, as coisas que a gente fala, a gente ia ter que cuidar mais, e não tem privacidade, não tem, tem que cuidar, muita coisa (risos).” (Casal D)

– “É melhor sem [filhos], e eu acho que a gente ia brigar bastante.” (Casal B)

– “Eu acredito que seja, quando a gente tem um filho à tendência é a gente dar mais atenção pros filhos né.” (Casal C)

– “Meu marido é bem carente ele gosta de atenção o tempo inteiro e vai ter que dividir a atenção com outra pessoa, dorme menos tudo fica mais pesado.” (Casal E)

O amor é fruto de experiências prazerosas diferentes na vida das pessoas; ou seja, vai se construindo por meio de sínteses estáveis e dinâmicas de acordos satisfatórios e positivos, tais como alegria, admiração, atração, paixão, desejo, solidariedade, cumplicidade, que vão se compondo em práticas tais como: cuidado com o outro, carinho, preocupação e companheirismo, as quais são constituídas pelo conjunto sociocultural dos parceiros, pela vida privada de ambos e pelo anseio futuro dos dois. (PRETTO; MAHEIRIE; TONELI, 2009).
Não é surpresa a queda da fecundidade, é até um dado esperado, dados estes que indicam transformações no comportamento do casal, que refletem na melhora da renda da população, a qualidade do vínculo a dois. Fica evidente que hoje em dia não é a disciplina, ou o controle externo, que está na base do comportamento amoroso. Além disso, as pessoas optam pela vida a dois, e isso não se dá hoje por nenhuma influência de costumes civis ou religiosos. (FORBES, 2008).
A busca da satisfação conjugal em casais que têm que conciliar o trabalho e o casamento é uma realidade que está sendo desejada e buscada pelos casais contemporâneos. Quem sabe pode haver a possibilidade de descartar a idéia de falência da relação conjugal, muito discutida atualmente, e substituí-la por um processo de transformação da função e do significado do casamento. (PERLIN; DINIZ, 2005).
Outra categoria que mostra as vantagens do casamento sem a presença de filhos se chama diálogo fica evidente nesta categoria que os casais entrevistados demonstram entender e compreender o que se passa consigo mesmo e com o parceiro, compreendendo as necessidades e os desejos de ambos, são habilidades utilizadas pelos casais para lidar de forma assertiva com as situações do dia-a-dia, conseqüentemente tais atitudes minimizam as probabilidades de problemas:

– “Diálogo, porque o que a gente tem é o diálogo, quando a gente não conversar mais a gente não vai mais se entender.” (Casal E)

Na medida em que o parceiro se expressa, seu cônjuge pode entender suas necessidades de maneira mais acolhedora assim os cônjuges podem sentir-se mais satisfeitos quando recebem uma opinião sobre suas ações e podem moldá-las de forma a agradar seu parceiro. Expressar adequadamente seus sentimentos causa felicidade e bem estar. Nesse sentido, é possível dizer que tanto a empatia quanto o diálogo entre os cônjuges atuam diretamente na satisfação conjugal. (SARDINHA, 2009).
A união amorosa é o vínculo mais intenso entre as pessoas. É o que torna as experiências diárias significativas. O vínculo amoroso leva à proteção da vida e à construção do casal, da família e dos grupos. (CALEGARI, 2004).
Na categoria tempo um para o outro apresenta também as vantagens com a ausência de filhos:

– “A gente se dedica um ao outro né acho que é isso assim, ta bom assim.” (Casal A)

– “Ó por exemplo uma criança tem que ta o tempo inteiro encima, tem que ta cuidando tem que ta ensinando, não é que eu quero dizer que é o fim do mundo porque todo mundo pode criar mas assim pra ti te os cuidados e tudo eu acho que precisa de tempo, olha, eu, eu saio as vezes de tarde vou visitar alguém tenho um monte de coisa pra faze eu não preciso me preocupar, por exemplo meu marido vai joga bola filho e já pensou eu ter um filho e dormi menos horas por noite, sabe eu não quero deixar do meu descanso em prol de outro digamos assim e depois também pelo tempo que toma pela paz de espírito (risos) a gente ta bem assim.”(Casal B)

– “Tempo, agora tem o cinema então vai da pra ir no cinema e com filhos a gente não vai pode ir pro cinema, o custo é menor, a gente tem mais tempo pra nós.” (Casal C)

– “Da pra sair, da pra faze o que quiser, da pra ficar sem fazer nada, tem mais tempo pra nós né.” (Casal C)

– “A gente tem sei lá mais tempo pra fazer as coisas não precisa se prender a nada assim né e se tivesse um filho seria diferente muita coisa que a gente faz não faria, mais tempo um pro outro, assim a gente já tem bastante coisa pra fazer só nós dois se tivesse um filho já seria totalmente diferente eu teria que dividir a minha atenção em dois porque geralmente a mulher que tem que corre atrás do filho atrás do marido (risos…).” (Casal D)

Dedicar-se um ao outro foi trazido pelos entrevistados como o desejo constante da presença do cônjuge, do querer estar junto, observa-se que está relacionado como sendo à base do desenvolvimento conjugal, um sentido de família. Os momentos juntos e os períodos de lazer são trazidos como sendo o alicerce para uma boa relação. Pode- se perceber que o companheirismo é um fator construtivo na vida a dois dos casais com a disponibilidade que ambos têm para conviverem em uma companhia mútua.
Os casais pesquisados têm um estilo de vida com muitas tarefas diárias: profissão, casamento, estudos, isso geralmente pode implicar em uma diminuição nos momentos de intimidade do casal, redução para momentos de lazer e menor disponibilidade para si próprio, os resultados desta pesquisa mostra que os casais utilizam estratégias para lidar com esses fatores buscando preservar o vínculo afetivo a dois, dedicando-se um ao outro. Pode-se dizer que eles buscam conciliar a profissão e a satisfação conjugal, isso impulsionou os casais optarem viver sem a presença de filhos.

5 CONCLUSÃO

Foi possível compreender que os casais pesquisados optaram voluntariamente em não ter filhos, por terem outros projetos. No entanto, estava presente o desejo pela paternidade, mas a negação da maternidade foi decisão da mulher, onde elas tiveram a liberdade para decidir em ter ou não filhos, se dedicaram a outros projetos de vida além da maternidade.
Os casais que participaram deste estudo demonstraram grandes preocupações e dúvidas a respeito da educação dos filhos, demonstrando não se sentirem seguros, e, além disso, não tendo disponibilidade e tempo que uma criança necessita para aconchegá-lo, alimentá-lo, para apoiar seus primeiros passos, ajudá-los nos desafios, para compreender seus medos e suas revoltas, compartilhar seus risos, enxugar suas lágrimas. Demonstraram que a decisão em não ter filhos vai além de apenas realizar desejos pessoais, é uma decisão difícil que envolve muitos fatores; inclusive ter que abandonar o sonho da paternidade, como foi o caso dos homens entrevistados pela dificuldade em educar um filho e principalmente por não estar presente no crescimento dos filhos.
Devido a estes fatores, a principal motivação dos casais em não ter filhos foi a difícil tarefa de educar as crianças, referindo que com a chegada dos filhos tudo muda. Hoje em dia são os pais que tem que se adaptar com a chegada do filho, onde está cada vez mais difícil repassar valores às crianças e aos adolescentes. Para Rogers (1991) a juventude está intimamente insegura quanto aos seus valores, quem sabe seja pelo fato de que os sujeitos contemporâneos são acometidos por todos os lados por uma massa de informações divergentes e contraditórias.
Concordando com a idéia de Volpi e Volpi (2008), as fases do desenvolvimento emocional de uma criança, que ocorrem desde a sua concepção até a adolescência, é extremamente fascinante e importante; visto que é durante essas fases que irão se estabelecer o temperamento, a personalidade e o caráter.
Além das dificuldades em educar as crianças, outros motivos estavam presentes na escolha pela não-maternidade/paternidade; tais como, a carreira profissional da mulher, a opção em não ter filhos, tempo um para o outro e qualidade do vínculo afetivo do casal. Todos estes fatores são características do casamento contemporâneo, onde os casais podem decidir o que é melhor para ambos. Seus desejos são respeitados sem influências familiares ou religiosas, diferente de como era antigamente.
As oportunidades apresentadas às mulheres pós-modernas são muitas, sendo que não há como ser uma super mulher e realizar todas, como também não há como rotular ou atribuir algum tipo de patologia às mulheres sem filhos por opção, pois seria o mesmo que considerar saudáveis todas as mulheres que são mães. (MANSUR, 2003).
É evidente que os casais que permanecem sem filhos são mais questionados do que os casais com filhos, mesmo quando os casais relatam não sofrerem críticas ou discriminação eles têm que se justificarem o tempo todo para a família e os amigos o motivo da sua decisão.
O casamento passou por inúmeras mudanças ao longo do tempo, e conseqüentemente na contemporaneidade há variações de desejos e de escolhas entre os indivíduos. Atualmente as mulheres podem ter mais controle sobre si mesmas, fazendo suas próprias escolhas de acordo com as suas vontades.
Os casais entrevistados desenvolveram formas para manter a harmonia entre o casamento, a profissão e os estudos; mesmo que para isso tiveram que abrir mão da maternidade/paternidade em prol de seus projetos de vida. A escolha em não ter filhos gerou, aos casais entrevistados, prazeres e desprazeres; sentimentos estes que fazem parte do cotidiano de todos os seres humanos. Prazer, pois existem muitas vantagens com a ausência de filhos: tempo livre, tomar decisões sem precisar refletir muito, qualidade do vínculo afetivo, carreira profissional, esses são os prazeres de um casamento sem filhos. E desprazeres, pois os casais fizeram esta escolha principalmente pela dificuldade em educar as crianças atualmente, além de terem que conviver com as pressões familiares, pois serão sempre diferentes nesse aspecto em relação aos outros casais.

REFERÊNCIAS

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