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O Que O Bom Humor Pode Fazer Por Uma Empresa?

“Viver… E não ter a vergonha… De ser feliz… Cantar e cantar e cantar… A beleza de ser… Um eterno aprendiz”. Escolhi iniciar a abertura dessa entrevista com um pequeno trecho da letra da música do saudoso e extremo talentoso Gonzaguinha por dois motivos. Primeiro, porque por mais que a nossa existência nos apresente caminhos difíceis, tudo apenas um processo passageiro e mutável. A segunda razão que me levou a escolher esta mensagem que já foi interpretada por vários talentos da MPB, é porque ela traz em sua essência que para ser feliz também é preciso que o ser humano traga consigo sempre a semente do bom humor. E isso, caro leitor, vale para todas as fases vividas, inclusive aquelas que estão diretamente relacionadas ao campo profissional.
E isso, pode ser facilmente comprovado no dia a dia, pois já faz certo tempo que ao selecionarem novos talentos, as corporações deixam explicitamente clara a importância de captar pessoas com bom humor, uma vez que elas são capazes de influenciar outros membros da equipe e, consequentemente, contribuírem para a melhoria do clima organizacional.
Para Armando Ribeiro, consultor organizacional, o talento bem humorado une a versatilidade às condições típicas de um trabalho. Para um talento bem humorado, não basta apenas varrer uma calçada, é preciso divertir-se, realizar aquela simples tarefa com criatividade e alegria. “Bom humor é uma forma de viver procurando satisfação pessoal e do grupo com quem convivemos. Pessoas que exercitam o bom humor, produzem mais, vivem melhor, adoecem menos, gostam ou procuram gostar do que fazem”, assinala. Em entrevista ao RH.com.br, Armando Ribeiro enfatiza vários aspectos que contribuem para o bom humor no ambiente organizacional, bem como as consequências negativas que um personagem mal humorado traz para a equipe. A entrevista segue logo abaixo. Desejo uma agradável leitura!

RH.com.br – O ambiente de trabalho nos remete a assuntos sérios. Contudo, as empresas têm valorizado o bom humor entre os talentos. Qual a razão que leva a esse investimento corporativo?
Armando Ribeiro – Em primeiro lugar é preciso esclarecer que é um engano pensarmos que um ambiente de trabalho é um local somente para assuntos sérios ou carrancudos. O bom humor existe naturalmente quando as pessoas sentem que o ambiente é favorável para o trabalho, o lazer, a troca de experiências e o compartilhamento de saberes e ideias. Muitas vezes as pessoas confundem bom humor com humorismo, com piadismo. Bom humor é uma forma de viver procurando satisfação pessoal e do grupo com quem convivemos. Pessoas que exercitam o bom humor, produzem mais, vivem melhor, adoecem menos, gostam ou procuram gostar do que fazem. As empresas não buscam apenas o bom humor, estimulam ambientes favoráveis ao trabalho e daí surge o bom humor, a alegria e, consequentemente, uma melhor produtividade. As organizações continuam sendo sérias, só que com as pitadas de bom humor e alegria. Os clientes reconhecem isso como positivo. Se as pessoas encaram os problemas profissionais com bom humor, se acreditam que é bom trabalhar nesta ou naquela empresa, posso comprar um produto deles.

RH – Para as organizações, qual o significado de um profissional bem humorado?
Armando Ribeiro – Um profissional bem humorado é aquele que procura olhar um problema por todos os ângulos, principalmente os pontos positivos. É uma escolha. A pessoa escolhe que o dia será bom, alegre, produtivo, diferente, criativo e de bons relacionamentos. Uma organização que tem em seu quadro pessoas assim ganha em produtividade e na imagem junto aos seus clientes. É sempre agradável relacionar-se com uma pessoa bem humorada.

RH – O que o talento bem humorado agrega às organizações?
Armando Ribeiro – Produtividade, criatividade, uma nova visão sobre os problemas e os desafios diários. O talento bem humorado une a versatilidade às condições típicas de um trabalho. Para um talento bem humorado, não basta apenas varrer uma calçada, é preciso divertir-se, realizar aquela simples tarefa com criatividade e alegria. É bom lembrar que um talento bem humorado não precisa fazer piada para ser alegre, basta um simples sorriso e ele está encantando e entusiasmando outras pessoas.

RH – O bom humor no ambiente de trabalho pode ser considerado um atrativo para a captação de talentos?
Armando Ribeiro – Ambientes onde há condições de se exercitar o bom humor significa que a participação é maior, mais ampla. Nesses ambientes existem condições reais para opinar, dar sugestões e principalmente para ouvir. É contagiante. Pessoas que têm tendências para o bom humor acabem contagiando-se e querendo participar de tudo aquilo e não querem sair da empresa em que atuam.

RH – O bom humor precisa estar presente em todas as esferas hierárquicas da empresa?
Armando Ribeiro – Deveria estar presente em todos os níveis hierárquicos. Não é uma tarefa fácil de conseguir. Em uma equipe, uma ou duas pessoas bem humoradas são capazes de contagiar todos os demais. Isso facilita a propicia uma melhoria da comunicação interna e solidifica os relacionamentos. Se um determinado líder é na maioria das vezes bem humorado, ele influencia a prática para toda a equipe.

RH – Por que um profissional de péssimo humor pode prejudicar o clima de uma equipe?
Armando Ribeiro – Tudo que é ruim sempre prejudica. O mau humor persistente pode ser considerado em alguns casos até como uma doença. De maneira geral, tanto o bom humor quanto o péssimo humor são contagiantes. Entretanto, uma pessoa que está sempre de péssimo humor pode estar com problemas que não consegue solucionar sem ajuda. Mal humorados são intragáveis. Depois de certo tempo, a equipe passa a colocá-los em isolamento e muitas vezes isso leva à perda de bons profissionais.

RH – De que forma a empresa pode mensurar o bom humor de uma equipe?
Armando Ribeiro – É possível medir a capacidade de uma equipe ser bem humorada sem o rigor técnico-cientifico. Observar como os problemas são resolvidos. Verificar quanta energia está sendo consumida pelas pessoas ao encarar os desafios e buscarem as ações. No final do dia é muito simples observar como as pessoas estão. Podem estar cansadas e esgotadas fisicamente, porém parece que possuem certo brilho no olhar que indica que hoje, ou melhor, naquele dia, as missões foram cumpridas.

RH – Quando o bom humor é “exagerado” passa a ser abusivo e, consequentemente, pode gerar situações de assédio moral. O senhor concorda?
Armando Ribeiro – Aí, nesses casos, não existe mais o bom humor e se abre espaço para o humorismo. Tudo aquilo que é exagerado perde o seu sentido real. Se passarmos a rir de situações desagradáveis, ofensivas, podemos caminhar para o assédio moral e até sexual. É importante verificar se o rir ou o se alegrar está ocorrendo no sentido de fazer o seu melhor e bem feito. Não devemos rir das situações erradas apenas para diversão e euforia. Aqui todo o cuidado é pouco. Façamos uma comparação: sabe aquela velha história de que beber um copo de vinho diariamente pode ser muito bom para saúde? Pois bem, imagine que esse copo tem a capacidade de se tornar em um litro e não ser mais aqueles 150 mililitros consumidos anteriormente. Quais serão as consequências para o organismo que o consome dia a dia?

RH – Que recursos as empresas devem utilizar, para que seus colaboradores compreendam o verdadeiro sentido do bom humor?
Armando Ribeiro – Conversar é fundamental. Explicar as diferenças entre bom humor e humorismo. Explicitar os limites de cada um dos integrantes da equipe e direcionar o bom humor para as ações e os comportamentos que efetivamente agreguem valor para a empresa e para as pessoas.

RH – Em sua opinião, os Códigos de Conduta são bons instrumentos para dar um norte aos colaboradores e levá-los a compreender como o bom humor deve circular pela empresa?
Armando Ribeiro – Podem ajudar. Entretanto não são instrumentos muito eficazes, pois os códigos de conduta são normas e regras que podem tolher a criatividade dos bem humorados. Como colocar em um manual de conduta que o bom humor é você acordar de manhã cedo olhar para o espelho e dizer: hoje será um dia muito especial e eu vou curtir cada minuto dele. Eu escolho ser bem humorado hoje?

RH – De que maneira o líder pode estimular o bom humor em seu time?
Armando Ribeiro – O exemplo é base de tudo. Líderes bem humorados são verdadeiros espelhos para os seus colaboradores. Favorecendo a criatividade, ouvindo as opiniões, participando das reuniões informais, cuidando para que não haja excessos. O líder tem um papel fundamental nesse processo. Ele não precisa ser necessariamente o mais engraçado nem o mais bem humorado, mas é preciso aprender a entrar no ritmo da equipe.

Por Patrícia Bispo

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