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Remuneração Estratégica

A remuneração estratégica tem sido cada vez mais e mais, vista e utilizada pelas organizações como uma forma mais justa e eficaz de se remunerar adequadamente aos seus colaboradores, pois na medida em que se desvia o foco do cargo e passa a concentra-lo nas pessoas, valoriza seus talentos e competências, e principalmente suas entregas e resultados, o que é gratificante e altamente estimulante para o empregados, que veem-se enfim reconhecidos pelo seu trabalho. Por esta razão não pretendo discutir aqui a eficácia do método, pois é fato inconteste que essas ações estimulam o interesse do empregado, aumentam o comprometimento, e com treinamento adequado melhoram o desempenho dos empregados, o que pretendo por em xeque nesta análise, é o resultado desta política a médio e longo prazo, se aplicada isoladamente, por quanto tempo ela será eficaz, e a que preço isso será alcançado?.
Tenho me detido muitas vezes nesta análise, e percebido com a observação pratica, que a grande problemática da remuneração estratégica, quando aplicada sistematicamente pelas organizações como único método de captação e retenção de talentos, reflete-se na dicotomia entre o aumento do ganho financeiro X o nível de stress dos empregados, pois se de um lado a empresa oferece ao empregado a possibilidade de por seus próprios méritos atingir um patamar de estabilidade financeira, que representa um salto quantitativo no seu status quo, por outro lado o leva a uma perda qualitativa no seu bem estar pessoal, na busca insana deste El dourado, potencializado por um ambiente de trabalho hostil e altamente competitivo, que gera no empregado uma ansiedade constante, refletindo-se a médio e longo prazo em perdas cada vez maiores na sua qualidade de vida, afastando-o do convívio familiar e de amigos, em jornadas de trabalho extenuantes, pois para estar sempre elegível a alcançar os mais elevados patamares de remuneração disponíveis, e para estar cada vez mais qualificado e apto a trazer resultados, desempenhando atividades em níveis cada dia mais complexos, o trabalho rotineiro, limitado a 08:00 horas diárias não parece ser suficiente, pois a quem muito é dado muito será cobrado, e o empregado acaba muitas vezes por entrar uma roda viva, de trabalho, desempenho, qualificação, resultado, que gera uma situação de stress laboral que fatalmente virá a comprometer o desempenho e a saúde do trabalhador, neste momento então ele será descartável? outro virá substituí-lo mantendo em larga escala a produtividade da empresa, até quando, e a que preço?. As organizações precisam urgentemente tirar do papel o discurso já vazio, mas largamente utilizado, de que o capital humano é o seu maior ativo, e não é incomum vermos Presidentes e Diretores de grandes corporações propalarem aos quatro ventos esta afirmativa, mas nos momentos de crise ao invés de cortarem lucros, cortam pessoas de seu quadro, portanto é preciso transformar palavras em ações, e para isso é preciso investir em um ambiente corporativo agradável, harmonioso, focado muito mais nas relações humanas, no desenvolvimento das pessoas, do que nas relações de trabalho, não é com isso abrir mão do lucro, do crescimento, da competição, não é tornar-se beneficente, ou filantrópico, longe disso, trata-se sim de crescer em qualidade e não apenas em quantidade.
Para isso, entendo que é urgente reconhecer que um sistema de remuneração estratégico, pode ser uma excelente ferramenta de gestão para atrair bons profissionais no mercado, mas que não pode ser aplicada isoladamente, afinal não basta apenas atrair, é preciso principalmente reter, e para reter bons profissionais na organização, é mister desenvolver ações que criem um ambiente corporativo agradável, que tenha por meta desenvolver as pessoas, e desenvolver não apenas como profissionais, mas principalmente como seres humanos que são, é preciso ver o profissional não apenas como força produtiva, como elemento capaz de aumentar os lucros da empresa, mas sim como elemento catapultador das mudanças sociais, é preciso também enxergar a organização como parte de um organismo social, é preciso entende-la num contexto de mudanças que tragam benefícios a toda sociedade, fazendo com que todos os empregados sintam-se engajados, comprometidos, participativos, importantes por serem parte fundamental deste processo de mudança, todas as pessoas desejam participar de algo grande, algo que ainda que indiretamente os eternize, e os orgulhe, elevando e mantendo o bem estar dentro da empresa, portanto é preciso que aliada a uma boa política de remuneração estratégica, aliem-se outras políticas igualmente importantes para a motivação e retenção de talentos, tais como pesquisas de clima, formalização dos valores e propósitos da empresa, alinhados aos valores e propósitos dos empregados, e da sociedade como um todo, códigos de ética e de conduta, todos devidamente aplicados no dia a dia da corporação, (pois se ficarem apenas no papel desengajam o colaborador) entre muitas outras ações como horário de trabalho flexível, podendo ser parte na empresa e parte em home Office, apoio ao trabalhador na solução de conflitos, educação financeira, etc., pois é fato, que num primeiro momento somos todos atraídos pela possibilidade de altos salários, contudo a médio e longo prazo, o salário se incorpora ao nosso dia a dia, as despesas crescem cada vez mais impulsionadas pelo convite frenético ao consumo, tão comum em nossa sociedade pseudo capitalista, e se outros fatores que visem o bem estar dos empregados não forem agregados a esta estratégia, como forma de criar um ambiente corporativo estimulante e ao mesmo tempo saudável, em pouco tempo, ou teremos uma grande rotatividade de empregados na organização, ou teremos um ambiente de trabalho, contaminado, enfim uma organização de pessoas doentes e improdutivas.

Antônio Henrique de Lima Neto
Gerente de Recursos Humanos
antoniohque@hotmail.com