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Seleção de jovens: interpretações, expectativas e responsabilidades

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“A história do Projeto Pescar iniciou em 1976, quando o empresário Geraldo Linck (1927-1998) presenciou um menino assaltando um idoso e, chocado ao ver a agilidade e o vigor do jovem contra a fragilidade da vitima, resolveu fazer algo para mudar aquela situação de violência.” (site do citado projeto).

Um jornal no norte catarinense em 29/06/2017 indica em reportagem algumas práticas e posicionamentos que merecem reflexão quanto à aplicação e perspectivas, notadamente na formação de jovens e sua inserção no mercado de trabalho.

No texto consta que uma grande rede de supermercados busca “esses jovens para atuar, pois saem do projeto disciplinados e aptos para o mercado de trabalho”.

Mais adianta, trata do parecer do coordenador do projeto e que atua na área de Recursos Humanos há muitos anos. Contou que, logo após outra empresa iniciar o programa, ofertou o mesmo para a direção de uma empresa, que prontamente aceitou. “Vimos que os jovens saiam do ensino médio e nem sabiam se portar em uma entrevista de emprego, por isso aderimos ao programa, para preparar estes jovens ao mercado de trabalho” contou.

É indiscutível a eficácia , precisão e objetivos do programa, podendo em casos específicos haver a tendência detectada a partir dos pareceres acima, de que os jovens quase que necessariamente tem que conhecerem e estarem aptos para o mercado de trabalho, em uma perspectiva implícita que grande parte dessa responsabilidade caberia a terceiros, notadamente familiares e estabelecimentos de ensino.

O texto publicado no jornal trata sobre a família e que no programa “eles – os alunos – trabalham a cidadania, o autoconhecimento, o empreendedorismo e diversos conteúdos”.

“O entendimento do empresário do setor supermercadista , no entanto, busca quadros disciplinados e aptos para o mercado de trabalho”. Em outras palavras, que se enquadrem rapidamente na cultura organizacional da rede . Entretanto o equilíbrio gerencial é obtido valorizando a diversidade cultural e social, algo de relevo na estrutura do Projeto.

Outro comentário no jornal sugere que uma empresa, instalada há muitos anos na cidade, conhecendo a situação de despreparo dos jovens, tomou a iniciativa apenas com o surgimento no projeto na cidade. E o entrevistado deixa claro que as dificuldades de jovens em entrevistas de empregos eram visíveis.

Em um momento com seleção por competências, uso de redes sociais e recursos tecnológicos, o grau desenvolvimento de Responsabilidade Social, deveria ter ensejado em seu planejamento há tempo, as providencias para minimizar os efeitos dessa situação duradoura e prejudicial também aos objetivos da empresa.

A possível imprecisão na percepção dos entrevistados entre objetivos do programa e expectativas das empresas as quais procuram relacionar objetivos sociais e de lucro e sobrevivência em um mercado competitivo são analisados no tópico em “Grau de ambiguidade do conceito de responsabilidade social e dificuldade na sua operacionalização” no texto Responsabilidade social de empresas: análise qualitativa da opinião do empresariado nacional de Patrícia A. Tomei

Em um posicionamento algo mais engajado, Vitor Henrique Paro em “Parem de preparar para o trabalho”! – Reflexões acerca dos efeitos do neoliberalismo sobre a gestão e o papel da escola básica. Já no resumo apresenta leitura sugestiva sobre ensino, educação e formação profissional:

“A partir de um conceito de educação enquanto constituição cultural de sujeitos livres, e entendendo a centralidade do trabalho enquanto mediação para a realização do homem histórico, o ensaio critica o paradigma do mercado aplicado à educação e à escola, analisa os efeitos da lógica neoliberal aplicada à gestão da escola básica e propõe que esta escola, para além de sua função tradicional de preparar para o trabalho alienado e para o ingresso na universidade, se disponha a preparar para o “viver bem” e para o efetivo exercício da cidadania”.

A missão do Projeto Pescar é “Promover oportunidades de desenvolvimento pessoal, cidadania e iniciação profissional para jovens em situação de vulnerabilidade social, por meio de parcerias com empresas e organizações”.

O estudo “Jovens em situação de pobreza, vulnerabilidades sociais e violências” de Mary Garcia CastroI e Miriam Abramovay indica a precisão das empresas manterem um enfoque participativo e integrado:

Alguns pais entrevistados reclamaram que os filhos fazem cursos profissionalizantes, mas depois, quando saem, não aplicam o conhecimento adquirido devido às dificuldades para conseguir emprego. Destacam a falta de perspectiva, em relação ao futuro, para o jovem.

Ganhos para empresa e candidato e consequentemente para a comunidade, serão obtidos com a compreensão e atitudes que privilegiem objetivos da empresa conjuntamente com as individualidades, aspirações e competências ( inatas ou desenvolvidas) dos jovens.

Facilitarão a obtenção de ganhos expressivos às partes como o relatado na edição do jornal, de jovem que participou do projeto, cursou SENAI e hoje está no segundo ano da faculdade de Engenharia Elétrica.

Em “Práticas de Recrutamento e Seleção”, Adm. Alex Viegas de Freitas comenta que a formação de profissionais melhores não está nas mãos somente do governo.

As empresas têm, ou pelo menos deveriam ter responsabilidades. Cita o “empresário inovador” que pode alavancar seus negócios, dentre outros, qualificando e desenvolvendo o capital intelectual de sua empresa,… junto à comunidade, na qual está inserido, fomentando políticas de melhorias. É um dos exemplos de contribuições que as empresas podem oferecer à sociedade na qual elas pertencem.”.

Em outra e necessária angulação, o “Framework dos cenários de risco no contexto da implantação de uma refinaria de petróleo em Pernambuco” Aline do Monte Gurge et al, permite também estabelecer a hipótese, exemplificativamente, do risco desses jovens- não vinculados necessariamente ao Projeto Pescar ou outros – atuarem em indústrias que operam provocando poluição sonora e com possibilidade desses jovens permanecerem com a saúde prejudicada” e consequentemente aumentar a sobrecarga dos serviços de saúde, por vezes já insuficientes para atender a demanda atual.

A divulgação e preparação de jovens para toda a comunidade empresarial pode contar com a colaboração de núcleos de recursos humanos, de Associações Empresariais entre outras providencias de baixo custo e altos retornos necessários à sobrevivência das empresas principalmente em períodos turbulentos com ganhos para a comunidade.