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A Cidadania E O Profissionalismo Precisam De "marronzinhos"?

Dias atrás o caos voltou a reinar no trânsito de São Paulo, desta vez porque muitos motoristas aproveitaram-se do protesto dos "marronzinhos" que decidiram não multar os infratores Será que as empresas também precisam de "marronzinhos" para manter a ordem e atingir resultados ?

Longe de mim pretender questionar a forma de protesto dos chamados marronzinhos paulistas que, para chamar a atenção da sociedade para suas reivindicações, decidiram passar um dia sem aplicar multas de trânsito. O foco deste artigo são os efeitos dessa ação. O que se viu naquele dia foi mais uma sessão de caos, já que muitos motoristas aproveitaram a falta de vigilância para cometer as mais irresponsáveis e abusadas infrações. Um triste retorno à lei do "levar vantagem" ou do "tirar proveito".

Considero-me sobretudo um aprendiz da vida e um atento observador dos seus pequenos e grandes acontecimentos - dos quais procuro tirar lições que sejam aplicáveis na minha atividade profissional, que é a de dar palestras e consultoria às empresas sobre o comportamento humano. Acredito que a comunidade profissional que constitui uma empresa, reflete ou sofre as conseqüências dos atos da comunidade social onde ela vive.

O episódio dos marronzinhos remeteu-me a algumas indagações pertinentes ao clima, aos valores e aos modelos de gestão de pessoal nas empresas. Por exemplo: atualmente fala-se muito de ética. Através de políticas e normas internas, são definidos os procedimentos que devem ser seguidos pelos funcionários para não incorrerem nas penalidades previstas pelo Código de Ética implantado. Até aqui, tudo bem. Mas é tentador perguntar: ética não se aprende em casa? Não deveria fazer parte da educação básica e primária dos indivíduos o discernimento entre o certo e o errado, a boa moral e os bons costumes? Cada vez que sou convidado por uma empresa para redigir e implantar um Código de Ética, fico pensando se algum dia não serei chamado para redigir e implantar um Código de Honestidade. Por que será que precisamos dizer para as pessoas, depois de adultas, o que NÃO PODE ser feito nas situações mais elementares do mundo? Por que precisamos colocar placas do tipo "É proibido pisar na grama", "É proibido fumar no elevador", "Hospital: faça silêncio", "É proibido entrar no restaurante em trajes de banho", "Não feche o cruzamento", "É proibido ultrapassar o limite de velocidade", "É proibido estacionar: saída de ambulância", "Mantenha limpo este banheiro", "Obedeça a fila" , etc?

Sabe-se que uma criança, nos seus primeiros anos de vida, ouve muito mais "nãos" do que "sims", mas estamos falando de crianças e de infância! Se isso continua até a idade adulta, é válido pensar que os adultos andam sofrendo da "Síndrome de Peter Pan", personagem dos contos de fadas que não queria crescer nunca. Que exemplos estamos dando para os pequenos seres aos quais nos compete educar e transformar em bons cidadãos e profissionais?

Eis uma obviedade: o País precisa investir muito mais em educação. Claro, precisa investir também em saúde, alimentação e segurança, fatores dos quais a população é enormemente carente. Mas será que um povo educado não cuidaria melhor da sua saúde, da sua alimentação e não se tornaria mais amante da Paz? Certamente, nessas condições, estaríamos a um passo da justiça social e de outras medidas que dão dignidade e sentido à vida. 

Mas voltemos às empresas, fazendo uma analogia com o que aconteceu no trânsito de São Paulo. Fico curioso em saber: se o chefe ou gerente sair de férias, o setor vai virar uma bagunça? Se a supervisão não der uma "marcação cerrada" na equipe, o trabalho vai virar anarquia? A produção vai cair? As vendas não vão acontecer? A qualidade dos produtos e serviços vai diminuir? A ordem e a disciplina hierárquica vão sumir? Ou seja: será que as empresas também precisam de marronzinhos para não ter o caos instalado? 

Tudo isso nos leva a novas questões: será que um maciço investimento das empresas em programas de Educação, Formação e Desenvolvimento de Competências e Habilidades dos seus Recursos Humanos, incluindo Esportes, Artes e Cultura Geral - e não só Idiomas e Informática - não contribuiria bastante para o desenvolvimento da cidadania e do profissionalismo dos seus colaboradores? Isso não teria reflexos positivos na comunidade maior? Afinal, não é verdade que a melhoria das partes também melhora o todo? 

Cidadania e profissionalismo são coisas muito sérias. Sua aprendizagem - bem como a de todos os seus demais ingredientes - começa em casa. Mas as empresas podem ajudar muito na sua reciclagem ou na sua consolidação - não por mero paternalismo, mas porque, além de caracterizar o papel social que cabe a todas as organizações, essa iniciativa certamente traria retorno na forma de melhores resultados. Isso é possível, desde que as empresas percebam que fatores como produtividade, qualidade, disciplina e esforço não merecem esses nomes se só acontecem sob o controle de uma severa supervisão. E desde que, percebendo isso, tenham irreversível vontade política de promover efetivas mudanças, acreditando e investindo em pessoas.

Acredito firmemente na capacidade do ser humano de refletir, avaliar, evoluir e mudar para melhor - senão, não teria escolhido a Psicologia como profissão. É uma crença que me conforta e me impulsiona para a ação participativa e contributiva. Queira Deus a maioria das pessoas tenha ou passe a ter a mesma crença. Porque, a quem não acreditar na capacidade do Homem de transcender, só resta sentar-se à beira da estrada e ficar lamentando a triste sina de uma Sociedade na qual a cidadania e o profissionalismo, para serem exercidos, precisam ser vigiados! 


Floriano Serra
Psicólogo, com Pós-graduação em Propaganda e Marketing (ESPM), e Especialização em Análise Transacional (ALAT).

 

 



 

 

 

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