A Humana Arquitetura
Arranjar trabalho depois dos 40
anos de idade tornou-se algo angustiante para quase todos os níveis de
profissionalização.
Aos 56 anos de idade, um colega meu da Universidade, está sentindo na própria
pele - e no bolso - a dimensão desse preconceito que afeta o cotidiano das
pessoas. Doutor em Administração, com efetiva e bem construída carreira em
empresas de porte, foi avisado que o seu contrato não será renovado para o próximo
ano letivo. O comentário "à boca pequena" na sala dos professores é
que a coordenação resolveu fazer uma "depuração inovadora por faixa de
idade". - E pensar que Peter Drucker e Oscar Niemeyer continuam com tanto
serviço aos 97 anos de idade! Ambos caminham lentamente como que
perdoando o tempo que se perde com tolices como essa, entre tantas outras que
grassam neste país surrealista.
Mais do que qualquer outro pensador, Peter Drucker criou o conceito de
administração como sendo uma disciplina essencialmente intelectual e prática.
Ele percorreu, pelo menos, quatro universos: ensino acadêmico, jornalismo,
consultoria e história sócio-econômica. A riqueza de sua experiência
produziu uma mistura única de rigor intelectual.
A maioria das idéias de economia e administração que atualmente influenciam
teóricos e executivos remete ao trabalho de Peter Drucker. Entre tais idéias
estão os principais métodos que permitem que as empresas e os executivos
tornem-se mais eficazes, especialmente o conceito de Administração por
Objetivos. Sua dedicação em sempre buscar a inovação é em si um exemplo de
pensador inovador. Há pouco tempo ele escreveu um artigo na Harvard Business
Review em que diz: "O conhecimento é o único recurso econômico que faz
sentido". - Nada mais simples e, ao mesmo tempo, completo!
Um professor, com a formação desse meu colega, não pode ser tratado como um
material obsoleto. E uma escola assim, não tem futuro nesse competitivo mercado
de estabelecimentos de ensino superior!
O ponto mais forte de Peter Drucker é a habilidade de interpretar o presente;
de perceber, antes de qualquer outro, o que realmente está acontecendo na
sociedade, na economia, nas escolas e nas empresas. Ele vai direto ao ponto!
Oscar Niemeyer, desde o início de sua extensa carreira, quando se desvinculou
da tutela de seu mestre, o francês Le Corbusier, elegeu a curva como ponto
central de seu trabalho, incluindo-a em todos os projetos. Comunista por devoção,
assim como Portinari, nunca se tornou um ativista político, situando sua crença
no terreno da mais pura retórica. Não há administrador público que não
queira ter seu nome associado ao dele. Jânio Quadros, quando prefeito de São
Paulo, encomendou um projeto que desviava a marginal do rio Tietê e
desapropriava metade de um bairro para construir um parque ecológico. O projeto
saiu, mas a falta de determinação não deixou que se transformasse em
realidade.
Na catedral de Brasília, Niemeyer evitou as soluções usuais das catedrais
escuras que lembram a culpa, o pecado. Mas, ao contrário, ele fez escura a
galeria de acesso à nave, toda colorida, iluminada, voltada com seus belos
vitrais transparentes para os espaços infinitos. São dezesseis colunas curvas,
idênticas e organizadas em círculo. Elas se elevam para se encontrar como que
num gesto de súplica. Eis aí o saber, a criatividade, o conhecimento aplicado
em sua essência. - E Niemeyer, quando projetou a catedral, em 1972, já tinha
65 anos, isto é: em rota perigosa de "depuração por faixa de
idade"; principalmente se levarmos em conta que o presidente não era o
Juscelino Kubitschek, mas um boçal chamado Garrastazu Médici!
Niemeyer e Drucker nos ensinam a sonhar, mesmo quando lidamos com matéria dura:
o preconceito, a incompetência, o desemprego, a injustiça, o ferro, o cimento
e a fome, da humana arquitetura!
* Paulo Augusto de Podestá Botelho é
Professor e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade,
Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental. Membro da SBPC - Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br
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