Se você é daqueles que acreditam que todo
cliente deve ser tratado da mesma forma, não continue a leitura deste artigo.
Por mais tentadora que seja a idéia de tratar os clientes com isonomia, este
nos parece ser um dos erros mais frequentemente cometidos pelas empresas. Por
quê?
Imaginemos um cliente de uma companhia aérea
que faz mais de 100 viagens anuais – como muitos professores da FGV que
trabalham nos nossos cursos de educação continuada, oferecidos nas
principais cidades brasileiras. Este executivo está submetido ao stress
originado pelas muitas horas de espera nos aeroportos, vôos com diversas
escalas, malha aérea insuficiente, etc. Pensemos, agora, em alguém que
raramente utiliza os serviços das empresas aéreas, viajando duas ou três
vezes por ano, basicamente para atividades de lazer. Nosso segundo personagem
estará visivelmente preocupado em não deixar que qualquer tipo de
eventualidade "contamine" sua viagem e tenderá a ser muito mais
paciente com problemas ou transtornos que possam ocorrer.
As companhias aéreas já aprenderam a
diferenciar esses dois segmentos. Ë por isso que a maioria opera programas de
fidelidade que oferecem aos frequent flyers vantagens que vão se
ampliando em função da elevação da taxa de utilização de seus serviços.
Os bancos também já investem na diferenciação de clientes, criando scores
que ajudam a classificá-los de acordo com uma série de indicadores. Quanto
maior a pontuação obtida, maiores são as vantagens/facilidades que passam a
desfrutar.
Empresas aéreas e bancos são, normalmente,
mega empresas, que fazem grandes investimentos em tecnologia de informação e
dispõem de amplos recursos financeiros para adotar sofisticados sistemas de
Gerenciamento do Relacionamento com o Cliente - CRM, em inglês. Mas como
empresas de menor porte – e menores recursos, consequentemente – podem
começar a diferenciar seus clientes?
Acredito que a primeira resposta a esta
pergunta encerra uma questão filosófica: o tamanho e os recursos de uma
empresa não podem ser medidos, apenas, em função de seu faturamento ou do
tamanho de sua base de clientes. Ë importante entender que, na chamada Nova
Economia, o tamanho das empresas será expresso, preponderantemente, pelo
potencial criativo de seus executivos – aqui entendido como sua capacidade
de inovar na concepção de soluções criativas para problemas como a falta
de recursos financeiros. Assim, é preciso, em primeiro lugar, que as empresas
procurem encarar o desafio de diferenciar seus clientes como algo que
independe de quanto recursos dispõem.
Avaliando o lado operacional da questão,
imaginamos que, primeiro, é preciso desenvolver um sistema de classificação
da base de clientes da empresa. Para facilitar o entendimento do que isto
significa, veja a matriz abaixo:
FIDELIDADE
|
alta
|
baixa
|
| VOLUME |
alto |
Tratamento
VIP |
Tratamento
Premium |
| Baixo |
Tratamento
Premium |
Tratamento
Standard |
Por Tratamento VIP entendemos um conjunto de
vantagens que são exclusivas para aqueles 20% de clientes que garantem 80% de
nossa receita. No caso das companhias aéreas significa milhas voadas
bonificadas, check-in preferencial; maior franquia de bagagens, salas
de espera exclusivas e outros serviços.
O Tratamento Premium significa o
reconhecimento ou da fidelidade do cliente – que embora compre pouco, sempre
compra de nós - ou dos altos valores que este cliente despende conosco, ainda
que eventualmente. Quando um banco passa a concentrar toda a folha de
pagamento de uma empresa, oferece aos novos correntistas um conjunto de
vantagens – cartão de crédito, limites pré-fixados para empréstimos e
outros – mesmo sabendo que uma parcela destes clientes transferirá seus salários
para outros bancos com os quais já operavam antes.
O Tratamento Standard é o patamar mínimo de
serviços oferecidos pela empresa para todo e qualquer cliente. É o
estacionamento do shopping center, a franquia mínima de bagagem das
companhias aéreas ou os caixas eletrônicos dos bancos. É preciso atentar
para o fato que este pacote mínimo deve contemplar os mesmos cuidados com a
excelência que são dedicados a outros serviços exclusivamente voltados para
uma parcela diferenciada de clientes.
A classificação a partir da matriz sugerida
acima é o primeiro passo para a diferenciação de clientes. Os próximos
estarão condicionados a disponibilidade de recursos e a criatividade das
empresas. Mas como dica final, lembremo-nos sempre do seguinte: os clientes não
precisam – nem devem -ser tratados da mesma forma, mas tem que ser, sempre,
bem tratados.
João Baptista Vilhena
Diretor do MVC
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