"Compreensão
tolerante frente aos sentimentos - compreender não significa aprovar - surdez
total com relação às opiniões, abertura diante dos fatos, essas são três
das condições necessárias ao desempenho do negociador"
(Louis
Laurent)
Quando
abordamos o tema negociação, o que em geral nos vem à mente é a negociação
comercial, onde trocas, concessões e barganhas se sucedem, com o objetivo de
fechar um negócio, obter uma vantagem, enfim, alcançar um resultado se não
desejado, pelo menos esperado.
Pouco
se prioriza, no aspecto formal da negociação a negociação dita interna,
vivenciada no dia a dia dos indivíduos, onde a abertura de uma porta, seguida
de um agradecimento é uma forma discreta e velada de negociação, onde a
cessão de um espaço físico na rua, no elevador, no corredor, no transporte
coletivo, acompanhada de um singelo "obrigado" encerra uma negociação
sutil, quase imperceptível, mas, de qualquer forma importante no
relacionamento interpessoal.
Quanto
haveria de ganho na qualidade das relações se as pessoas, ao refletirem
sobre suas atitudes, seu comportamento, fossem capazes de analisar o impacto
de suas ações individuais sobre o resultado dos negócios, e do contexto
onde atuam? Qual seria o novo cenário das relações interpessoais, mormente
nas organizações se conseguíssemos transportar para a relação diuturna,
todos os ensinamentos que nos são dados a conhecer em nossa formação como
negociadores?
A
negociação é um instrumento eficaz na obtenção de resultados, é
considerada uma ferramenta fundamental no exercício da liderança, opera como
um complemento indispensável na consecução do comprometimento.
Ação
para negócio, negação do ócio, enfim, justificativas etimológicas existem
em quantidade suficiente para a identificação deste instrumento de ação
organizacional como essencial para o mundo contemporâneo.
Na
chegada do verão, todo o merchandising é voltado para o cuidado com o corpo,
os exercícios aeróbicos, o esforço físico compensador, o consumo de
alimentos leves e refrescantes, a boa forma como dogma.
Qual
a dificuldade, então, para que, na busca de resultados, não se enfoque a
necessidade indispensável de transformar cada cabeça pensante da organização,
em um negociador permanente, capaz de exercitar de forma cadenciada, como numa
caminhada saudável, os diversos passos e etapas de um processo negocial clássico?
Desenvolver
internamente, nas organizações o senso negocial, tal e qual desenvolvemos o
senso de urgência, o senso cliente, o senso de qualidade, para o traçado de
um perfil civilizado, onde os indivíduos, seguros de seus objetivos não
despenderão energia com atitudes desgastantes e improdutivas.
Deixar
bem claro que a necessidade de estabelecer um objetivo para cada ação
individual ou coletiva, definir uma prioridade a ser alcançada e, a partir de
então, criar formas de ação onde a troca de informações, as concessões
de posições e espaços se faça de forma saudável, gerando crescimento de
indivíduos e consolidando o perfil de eficácia da organização.
A
organização não subsiste hoje somente com seu enfoque econômico, de
controles numéricos bem estruturados. A organização hoje, neste universo
contemporâneo e globalizado, é uma instituição de caráter social, onde além
dos resultados que o mercado indica, leva ao crescimento dos indivíduos, num
processo de aprendizado constante e permanente.
Indivíduos
desenvolvidos, conscientes de seu papel (não somente cientes, mas
conscientes) estão aptos a gerar resultados efetivos, mais sólidos,
coerentes, já que o resultado foi alcançado de maneira planejada,
estruturada, não contaminada pela improvisação irresponsável, ou pela
impulsividade não planejada.
Na
medida em que a partir de cada atitude a ser tomada, comportamento a ser
assumido, identifiquem-se as necessidades, expectativas e objetivos próprios
e daqueles parceiros na ação, percebam-se as linhas de trocas e concessões,
onde avançar e onde recuar, identificando os porquês dessas posições, o
resultado tenderá a uma solidez indiscutível.
Desenhar
os mecanismos de poder a serem acionados, como trabalhar esse poder, de forma
torná-lo um mecanismo de corresponsabilidade e não uma demonstração de força
ou "status", reconhecer sua própria capacidade pessoal decisória,
trabalhando lógica, emoção, senso de oportunidade ou sua sensibilidade com
competência levará ao crescimento, não só de quem provocou essa mudança,
mas de todos aqueles impactados por essa forma de agir.
Ao
invés de transformar o convívio entre líderes e liderados em momentos de
unanimidade doce e complacente, ou mesmo de imposições homogeneizadoras
(remember Likert), e até dependendo do caso, de cenas de terror explícito,
porque não transformar esses momentos de busca de resultados compartilhados,
mesmo que efêmeros, diáfanos, em momentos de crescimento e aprendizado?
A
negociação uma prerrogativa do homem, o que lhe passa um atestado de
superioridade em relação às demais espécies da humanidade, tem o dom de se
o resultado a ser obtido não puder ser alcançado, ao menos melhore de
qualidade a relação entre as pessoas (afirmativa de Roger Fisher). Ou seja,
nada se perde na negociação, se não se ganha o resultado esperado, se ganha
na qualidade do relacionamento e do envolvimento entre as partes.
Rever
os processos decisórios internos; identificar onde está havendo o uso
exacerbado do autoritarismo das lideranças e transformá-lo em processos
negociais múltiplos; perceber onde há omissão pelo descaso, incrementar o
envolvimento negocial corresponsabilizado.
Nos
processos de administração participativa percebe-se que sua sobrevivência
somente se concretiza se as unidades de negócio subsistem em um sistema de
interdependência, onde o mecanismo lubrificador das ações é a negociação,
os indivíduos somente se comprometem se há mecanismos de busca de resultados
individuais, associados a outros estratégicos, se previamente negociou-se
esses objetivos, e onde o desempenho e o nível quali-quantitativo de alcance
desses objetivos, delineou-se previamente em um momento onde líderes e
liderados sentaram-se frente a frente para compartilhar uma escolha de critérios
de acompanhamento, avaliação e revisão de posturas.
Dessa
forma os sistemas não só funcionam de forma eficaz, mas oferecem um ambiente
real, não necessariamente perfumado de forma doce e geradora de mal estar,
mas um ambiente onde o odor da ação eficaz, provoca sensações agradáveis
e desafiadoras naqueles que estão participando do contexto, contribuindo, e
pesando suas ações e medindo o impacto que provocam. Isto é negociar
internamente, e como conseqüência, a geração de uma contaminação da
qualidade negocial em qualquer estágio externo a organização. Crescem os
indivíduos, cresce a organização.
Vale
lançar um desafio. Qual será a nossa capacidade real de negociar
internamente, na organização, na família, na roda de amigos, na rua, no
esporte?
FRANCISCO BITTENCOURT
Consultor
Sênior do Instituto MVC
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