A Oportunidade De Introdução Do Kanban
Quando o governo lançou o
Plano de Inflação Zero, por um momento a euforia invadiu o povo brasileiro.
Como que num passe de mágica a inflação, que corroía os salários e
penalizava de forma mais drástica os trabalhadores havia sido abolida.
Eis que de repente acordamos de
um sonho numa noite de verão e sentimos o peso no estômago de um pacote que
ainda necessita de tempo para ser digerido. Na realidade, temos hoje um plano
muito bem estruturado que, corretamente implantado, trará grandes benefícios
no futuro. Mas o caminho árduo exigirá muitos sacrifícios para se alcançar
os objetivos estabelecidos.
Apanhadas de calça curta e
muitas da vezes acostumadas aos vícios do lucro fácil, através dos repasses
de sua ociosidade para os bolsos do consumidor final, as empresas ainda estão
um pouco atordoados, sem saber como se conduzir neste novos tempos. Mas não
resta dúvida de que a única saída é a busca incessante de melhoria da
qualidade e da produtividade.
Quando falamos em qualidade e
produtividade não podemos deixar de lembrar aquele que nos últimos 20 anos vem
se desenvolvendo utilizando este caminho como diretriz: o JAPÃO.
Sem levar o assunto para o
extremo de considerar o modelo japonês como cópia fiel de tudo que se fez de
bom nas últimas décadas, é inegável que eles conseguiram se impor em vários
segmentos que antes eram dominados por empresas tradicionais do Ocidente.
Um dos programas que
representou forte influência nas melhorias obtidas foi Kanban. Kanban, cujo
significado é SÍMBOLO, PAINEL ou CARTÃO, é um sistema de controle da produção
desenvolvido pela Toyota Motor Company por seu ex- presidente Mr. Taiichi Ohno,
nos últimos 25 anos.
Dois pontos enfatizam a
implantação do programa:
- A inexistência de recursos naturais,
gerando uma atitude voltada ao combate ao desperdício;
- O elevado grau de conscientização de operário
japonês com relação à importância da empresa onde trabalha e a retribuição,
por parte desta, repartindo lucros obtidos com seus empregados.
O sistema KANBAN desenvolvido
na Toyota, começou a ser amplamente difundido no Japão a partir dos anos 70,
após a segunda crise do petróleo. Foi quando as empresas japonesas verificaram
que as fábricas da Toyota haviam superado as dificuldades sem sofrer grandes
traumas.
Uma empresa que desenvolveu
programa semelhante foi a Mitsubishi Eletric Company, que na época vinha
sofrendo forte crise de entendimento. Após verificar que o tratamento
tradicional para reduzir os estoques não era mais suficiente para compensar as
violentas dificuldades, Shindo, presidente da empresa, fez as seguintes
perguntas aos seus subordinados:
- São os armazéns de materiais realmente
necessários para a produção ?
- Seria possível sincronizar os setores de
fabricação e montagem, de modo a eliminar os armazéns de peças
fabricadas?
Foi em busca da resposta a
essas perguntas que os executivos da Mitsubishi, baseando –se no modelo
desenvolvido na Toyota, criaram o Programa do Mínimo Inventário em Processo.
Antes de entrar em considerações
sobre este programa é interessante ressaltar que mais do que ser um programa de
redução de estoques, ele visa principalmente a melhoria da qualidade e o
aumento da produtividade. Cada etapa se interrelaciona com as demais e juntas,
constituem a base para o funcionamento da última fase – o modelo KANBAN.
MÍNIMO INVENTÁRIO EM PROCESSO

Para melhor entender como o
sistema funciona , vamos fazer uma analogia com a vida congestionada de uma
grande cidade.
Imaginemos o fluxo de veículos
que se dirige na parte da manhã para o centro da cidade. Suponhamos que
existisse um sistema de transporte contínuo por vias expressas, entre os
bairros e o centro, de tal modo que o retorno aos pontos de origem fosse também
por vias expressas. Não havendo obstrução das avenidas, nos dois sentidos,
haveria um fluxo contínuo de pessoas dos bairros ao centro e o retorno vazio
dos veículos ao ponto de partida, completando-se o ciclo.
Mas para que o sistema seja
eficiente é necessário que haja uma conjugação de vários fatores, a saber:
LIMPEZA E ARRUMAÇÃO – Remoção
de todo e qualquer objeto que possa obstruir o fluxo racional dos veículos.
Assim devem ser eliminados os veículos estacionados, os veículos velhos ou
abandonados e também aqueles com problemas de enguiço ou falha. As vias devem
estar permanentemente livres e desimpedidas.
MÁQUINAS EM DISPONIBILIDADE
– É a utilização de um programa de manutenção eficiente, evitando que os
veículos em operação não sofram panes durante o horário de operação. Além
disso, as vias de circulação deverão estar permanentemente conservadas.
QUALIDADE –Está relacionado
com o desempenho dos motoristas, que deverão estar permanentemente treinados
para evitar acidentes e erros que retardem de alguma forma o percurso.
TROCA RÁPIDA DE FERRAMENTAS
(TRF) – Deve permitir a troca de peças, viaturas ou qualquer outro item,
quando houver necessidade. Além disso, se furar o pneu este programa deverá
permitir a troca rápida, talvez não tão rápida como na FÓRMULA 1, mas com
certeza em menos de 10 minutos.
OPERADOR POLIVALENTE (OPP) –
Deve treinar motoristas que sirvam de regra 3, na ausência dos titulares. Além
disso, deve possibilitar que o percurso realizado por cada viatura seja
racional, eliminando cruzamentos, retornos ou voltas desnecessárias.
AUTOMATIZAÇÃO DE BAIXO CUSTO
(ABC) –Deve permitir que o fluxo de veículos seja acelerado com pequeno
investimento. Assim, a automatização dos sinais pode ser um dos pontos a ser
implantado, eliminando congestionamentos entre dois cruzamentos sucessivos.
PRODUTIVIDADE EM LOTES PEQUENOS
(PLP) – Desenvolvidas as fases anteriores e estando o fluxo bem balanceado,
esta etapa nos permite modificar o sistema de circulação. Suponhamos que para
o transporte estejamos usando veículos com capacidade de transportar 100
passageiros que chegam ao destino a cada 10 minutos. Vamos substituir por veículos
com capacidade para 5 passageiros chegando a cada ½ minuto. Cada veículo
antigo é substituído por 20 veículos novos, transportando um lote menor de
passageiros, que chegam em intervalos mais freqüentes.
Finalmente chegamos ao KANBAN.
Este módulo consiste no aumento da velocidade dos veículos, à medida que o
sistema ganha em sincronização, fruto das etapas anteriores. Assim sendo, ao
invés de ter veículos circulando a 40 km/hora, por exemplo, podemos Ter sua
velocidade aumentada para 80 km/hora e seu número reduzido à metade. À medida
que aumentamos a confiabilidade no sistema, fruto do avanço no desenvolvimento
das etapas anteriores, podemos ir gradativamente aumentando a velocidade e
retirando proporcionalmente veículos de circulação.
Voltando a realidade, podemos
dizer que o KANBAN nos setores industriais é muito semelhante ao sistema acima
descrito. As peças são os passageiros. Os veículos são os recipientes
padronizados. O fluxo de veículos entre os bairros e o centro da cidade
representa o ciclo de produção entre fabricação e montagem. O tempo de
transporte é o tempo de processo (lead time). Só não existe o cartão
KANBAN, que é o elemento que autoriza a produção de um novo lote de peças na
linha quantidade correta quando, após o consumo das peças na linha de
montagem, o recipiente padronizado vazio, juntamente com seu cartão
correspondente, são remetidos para o início do processo de fabricação. Se
por algum motivo se interrompe o consumo na linha de montagem, os recipientes
padronizados, juntamente com seu cartão correspondente, não são remetidos
para a origem e o sistema automaticamente se interrompe. O máximo de estoque de
material em processo é limitado pelo número de cartões do item, multiplicado
pela quantidade representada por cada cartão.
De modo similar, as etapas
anteriores devem prover as condições para a implantação correta do KANBAN,
mediante o uso de cartões. Elas têm como objetivos básicos eliminar excessos,
reduzir tempos ociosos, diminuir o tempo de processo, reduzir os estoques de
material em processo, aprimorar a qualidade e, principalmente, desenvolver a
produtividade de forma continuada e consistente.
Aí surge a pergunta é este o
momento oportuno para a implantação do KANBAN no Brasil?
Não resta dúvida que a esta
nova era exigirá das empresas completa reformulação das diretrizes até então
aplicadas. Mas o caminho é um só:
- MELHORIA DOS PADRÕES DE QUALIDADE
- ELIMINAÇÃO DOS DESPERDÍCIOS
- REDUÇÃO DOS NÍVEIS DE ESTOQUE
- AUMENTO CONTÍNUO DA PRODUTIVIDADE
Entretanto, é preciso alertar
as empresas para que não se lancem numa implantação sem antes conhecer
profundamente os conceitos e as peculiaridades que envolvem o programa. Ele
exige mudanças dentro das organizações. A implantação não é padronizada.
Alguns conceitos são contrários aos hábitos e sistemas tradicionais. Por trás
da simplicidade é preciso haver forte disciplina.
E para aqueles que consideram
que já aplicam os conceitos do Mínimo Inventário em Processo dentro das suas
empresas, aqui vão alguns lembretes adicionais:
- Cuidado com a tendência a simplificação e
à auto- suficiência.
- O programa deve envolver todos os setores da
organização.
- O programa, uma vez, começado. não termina
nunca.
- Evitem o modismo
O momento exige reflexão para
tomada de medida eficazes, que conduzam no sentido da consolidação do mundo
novo que surge neste país. Mas não será através do "jeitinho", do
"oba oba", do lucro fácil ou da exploração do trabalho que
conquistaremos o título de nação desenvolvida. As potencialidades destes país
são imensas. Cabe a cada um de nós cidadãos construir a parte que nos cabe.
- Consultor - Paulo Décio
Ribeiro - Consultor do Instituto MVC - Estratégia e Humanismo
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