Minha
experiência - inicialmente como executivo e, anos depois, como consultor
diretamente ligado à área comercial das organizações - tem me mostrado que
nem sempre os Gestores dessas unidades tem obtido a melhor contribuição da
área de RH ao esforço de levar produtos e serviços ao mercado.
Para não ficar
no lugar comum - ou cair na tentação das elucubrações vazias - vamos dar
alguns exemplos do que acreditamos ser uma efetiva contribuição de RH à área
comercial:
Recrutamento e Seleção
de Vendedores
Antes de iniciar o processo de recrutamento e seleção, a gerência de vendas
deveria identificar as principais competências e características pessoais
que o futuro vendedor precisa possuir. Essas características podem ser
analisadas a partir de três principais dimensões:
- A execução da tarefa em si;
- Interdependência com outras tarefas;
- Interdependência com outras pessoas.
Outra questão importante é o grau de experiência em vendas que o
candidato deve, ou não, possuir. A maioria das empresas, quando anuncia
uma oferta de emprego em vendas, exige que o vendedor tenha experiência na área.
A princípio, possuir experiência pode ser algo bom, mas é preciso analisar
se esta experiência mantém relação com o produto, mercado e tipo de
clientes da empresa que oferta a vaga. O candidato pode possuir uma vasta
experiência que não agregue valor ao novo empregador; pode também ter uma série
de "vícios" de vendas.
Outras empresas preferem candidatos sem ou com pouca experiência, optando por
moldá-lo em sua nova atividade, adequando-o à cultura, estrutura e estratégia
da empresa.
Como gerente, sempre senti falta de alguém com conhecimento específico
para discutir essas questões comigo. O problema é que o Gestor da área
comercial nunca tem tempo - e raramente tem competência - para fazer esse
trabalho. Como a área de RH nem sempre está disponível para contribuir,
vemos profissionais incompetentes sendo contratados e, em pouco tempo, sendo
despedidos por serem ineficientes.
Um conjunto de técnicas deve ser utilizado a fim de identificar o candidato
mais adequado ao cargo. Sabemos que existem inúmeras delas que reduzem em
muito o risco de contratar a pessoa errada para uma função. Mas o problema
é que o Gestor da Área Comercial raramente as domina e nem sempre conta com
a ajuda de seu colega de RH para superar essa carência. É frustrante ver
profissionais que não têm o menor preparo para conduzir esse trabalho
tentando fazê-lo por não contar com o apoio e/ou orientação daqueles que
dominam amplamente essas técnicas.
Remuneração
de Vendedores
Como sabemos, talvez seja na questão da remuneração que ocorram as
maiores divergências entre as expectativas dos colaboradores e as da empresa.
Isto pode ser observado ao analisarmos o que colaboradores e a empresa tem a
remuneração ideal.
Do ponto de vista do vendedor, a remuneração ideal é aquela que:
-
mantém uma certa regularidade, dando-lhe segurança;
- apresenta a possibilidade de recompensa por desempenho acima da média;
-
possibilita o reconhecimento do valor de sua experiência.
Do
ponto de vista de RH, temos a impressão de que a remuneração ideal seria
aquela com as seguintes características:
- de fácil controle;
- econômica;
- simples.
A
remuneração de vendedores é feita, basicamente, por meio três tipos de
planos: plano de salário, plano de comissão e plano combinado.
Existem regras gerais que determinam a adequação do uso de cada um dos
planos, conforme o quadro a seguir:
|
Tipo
de Plano
|
Descrição
|
Quando
usar
|
| Plano
de Salário |
Pagamento
fixo, qualquer que seja a quantidade das vendas. |
Quando
os vendedores fazem muito trabalho missionário.
Para empresas de bens duráveis, com vendas sazonais. |
| Plano
de comissão |
Pagamento
baseado apenas no que é vendido. |
Quando
é necessário encontrar um plano fácil de administrar e relacionado
diretamente com o desempenho. |
| Plano
combinado |
Pagamento
baseado em salário mais comissão. |
Quando
algum grau de segurança e um grande potencial de ganhos são
considerados desejáveis. |
Em grande medida, a definição de qual sistema utilizar deve basear-se também
em dois níveis de controle: o nível de controle da empresa sobre o trabalho
do vendedor e o nível de controle do vendedor sobre os resultados de seu
trabalho. A tabela a seguir analisa a relação entre esses níveis de
controle e o sistema de remuneração mais adequado:
|
Remuneração
|
Controle
Vendedor/ Trabalho
|
Controle
Empresa Vendedor
|
| Mista |
Alto |
Alto |
| Salário |
Baixo |
Alto |
| Comissões |
Alto |
Baixo |
| Mista |
Baixo |
Baixo |
Mas
como garantir, sem a ajuda da área competente para fazê-lo, que estamos
adotando a melhor política de remuneração para nossas equipes? Como fugir
da tentação de remunerar a equipe de vendas apenas pagando um percentual
sobre as vendas, se não dominamos outras técnicas?
Avaliação
de Desempenho e Treinamento de Vendedores
A avaliação dos vendedores deve ser feita por diversos motivos.
Entre outros, podemos destacar:
- para recompensar aqueles que
apresentam desempenho superior;
- para reorientar aqueles que apresentam desempenho insatisfatório;
- para identificar outras necessidades, como treinamento, por exemplo.
A avaliação do desempenho não deve, contudo, voltar-se apenas para o
desempenho atual; é preciso levar em consideração também o potencial do
vendedor. Será que os gestores da área comercial são verdadeiramente
competentes para, sozinhos, definir o potencial de sua equipe? De que
ferramentas dispõem para fazê-lo? Como operacionalizar essas ferramentas,
fugindo da subjetividade dos gostos e preferências individuais?
Uma
técnica de avaliação de desempenho que vem sendo utilizada pelas empresas e
que apresenta alto grau de eficácia é o Feedback
360º. Ao
contrário das tradicionais avaliações de desempenho, que se concentram
apenas no feedback de cima para
baixo, o feedback 360o
graus utiliza informações provenientes de diferentes perspectivas do
ambiente interno e externo da organização.
A pergunta que faço é: os gestores das áreas comerciais estão
preparados para dar e receber feedback? Quem os orienta sobre como
proceder, quem verifica o uso apropriado ou não destes instrumentos?
Treinamento
Um
dos motivos que levam as empresas a avaliar seus vendedores é identificar
aqueles que necessitam de treinamento. Assim, voltaremos nossa atenção para
este tópico.
Basicamente, o treinamento pode envolver quatro tipos fundamentais de mudanças
de comportamento:
Transmissão de informações;
Desenvolvimento de habilidades;
Desenvolvimento ou modificação de atitudes;
Desenvolvimento
de conceitos.
O
gerente de vendas deve ver o processo de treinamento como um processo cíclico,
que envolve quatro etapas:
1.
Levantamento das necessidades de treinamento;
2.
Programação do treinamento para atender às necessidades (definição dos
objetivos, conteúdos, instrutores, etc.);
3.
Implementação e execução dos programas de treinamento;
4.
Avaliação dos resultados do treinamento.
Algum
tempo após a quarta etapa,
torna-se necessária uma nova avaliação dos vendedores, a fim de
identificar se ainda existe aquela necessidade que motivou o programa de
treinamento ou se surgiram novas necessidades.
É
preciso salientar que o processo de treinamento dos colaboradores deve
seguir certa diretriz. Quem orienta os Gestores das Áreas Comerciais
quanto a essas diretrizes? Quem discute com eles a melhor forma de desenvolver
novos comportamentos? Quem avalia a eficácia dos trabalhos feitos?
Motivação
A discussão sobre motivação mostra-se inacabada
e inconclusa. Entretanto, podemos afirmar com certeza que os vendedores
devem possuir alta motivação para o trabalho.
O Gestor da Área Comercial deve atentar para os fatores externos e
internos que criam motivação.
A
motivação externa advém, não exaustivamente, de:
Remuneração monetária;
Bonificações;
“Tapinhas nas costas” (fatores externos não financeiros que podem
motivar o vendedor, tais como: reconhecimento, confiança, participação, etc).
A motivação interna, por sua vez, advém, também não
exaustivamente, de:
Sensação pessoal de realização;
Obtenção de prestígio;
Obtenção de status.
Tendo em vista que as pessoas reagem de forma diferente aos vários
estímulos, o Gestor da Área Comercial deve conhecer bem seus colaboradores a
fim de adequar os “pacotes motivacionais”.
Finalmente,
deve ser observado que há uma certa discrepância entre a visão da empresa e
a visão dos colaboradores com relação ao processo motivacional.
Torna-se necessário, então, que a área de RH oriente o Gestor da Área
Comercial sobre como trabalhar os pontos convergentes dessas visões.
Liderança
A pergunta que se levanta neste momento é: o vendedor precisa de um
chefe ou de um líder? Embora possa parecer uma simples questão de sintaxe,
este é um fator de grande importância para o sucesso de uma área comercial.
A
tarefa dos administradores de relacionamento – comumente chamados de
vendedores - é árdua. Eles devem gerar relacionamento de longo prazo com os
clientes, cumprindo suas promessas de vendas e garantindo sua plena satisfação.
Para isso, eles precisam de apoio, motivação, treinamento, informação,
senso de direção. Eles precisam de um líder. E não de um chefe.
O
líder é capaz de aumentar a confiança que os colaboradores têm entre si
mesmos e na empresas. É aberto a mudanças, sabe atuar sobre a cultura quando
ela é obstáculo para mudanças inovadoras. Os líderes acreditam que mudança
é evolução, trabalham positivamente as “confusões criativas”.
Quem
se responsabiliza por transformar gerentes comerciais em líderes. Quem
discute com eles seus erros e acertos e os reorientam?
Poderia
preencher páginas e páginas falando dessas questões que afligem não apenas
a mim, mas a todos os meus colegas que tem sobre si a responsabilidade de
trazer para a organização os resultados dos quais todos dependem. Mas não
quero ser por demais cansativo.
João Baptista Vilhena
Diretor do MVC
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