A Polivalência E A Síndrome De Ler
Estava fazendo uma visita técnica a uma fábrica,
quando sob o comando de um alto-falante, todos os operadores se levantaram
iniciando a execução de exercícios de ginástica cadenciada.
Esta situação que para o leigo pode parecer
ficção, ou levar alguém a imaginar que tivesse acontecido no Japão, ocorreu
numa fábrica de montagem de televisores em Manaus. Duas vezes ao dia, durante
15 minutos, os montadores fazem exercícios programados, para combater a
"LER" - Lesão por Esforço Repetitivo.
Atualmente a doença de "LER" vem
sendo constatada em setores onde funcionários executaram durante anos a mesma
atividade, submetidos a esforço repetitivo e continuado, causando afastamento
do trabalho e necessidade de tratamento médico especializado. Para recuperar o
funcionário cujos músculos foram exigidos durante anos ao limite, e torná-lo
novamente apto a exercer atividades produtivas, é necessário um programa de
reabilitação, ou em casos extremos, readaptá-lo para novas funções,
distintas da anterior.
Como diz o ditado: "O cachimbo faz a boca
torta!" Mas antes que a doença ataque provocando lesões por esforço
repetitivo, é preciso prevenir, cortando o mal pela raiz. A ginástica
localizada desenvolvida com a assessoria de médicos do trabalho, com experiência
específica, é o primeiro passo no sentido de interromper o processo de lesão,
antes que o problema se torne crônico e de difícil reversão.
A implantação do conceito de polivalência,
alternando periodicamente os movimentos cíclicos dos funcionários, é a
formula definitiva para eliminar riscos futuros de ocorrência de lesões do
trabalho repetitivo. entretanto da mesma forma como o médico do trabalho deve
orientar os exercícios físicos, a polivalência tem que ser desenvolvida
associando experiência no assunto, com conceitos de ergonomia, balanceamento e
ritmo de produção.
Quando se fala em polivalência muitos entendem
que se trate de criar um operador que saiba fazer de tudo no setor de trabalho.
Ao contrário! "O FAZ TUDO É GERALMENTE UM POLIVALENTE DEGENERADO".
Pensa que sabe fazer tudo, porém o faz de forma imprecisa e pouco produtiva.
Por outro lado a polivalência não é uma
simples rotação de cargos sem planejamento, com freqüência intensiva,
conforme muitos imaginam e até aplicam na prática. Polivalência é fruto de
um estudo técnico de tempos e movimentos, capacitando o operador a desempenhar
múltiplas funções, complementares as atividades do seu posto de trabalho.
Polivalência aumenta a produtividade e desenvolve uma equipe de trabalho flexível,
ao mesmo tempo em que agrega valor ao processo produtivo, tornando os funcionários
mais qualificados e pouco sujeitos ao males do esforço repetitivo.
É preciso encarar o problema do esforço
repetitivo de imediato, para que não venha a se transformar na "Síndrome
de LER", onde funcionários de áreas em que não existe a menor
possibilidade de ocorrência de esforço repetitivo, solicitem afastamento do
trabalho sob tal argumento. Há casos onde Ferramenteiros e até Bibliotecárias
estão conseguindo licenças sob tal justificativa. Existem outros em que
funcionários de setores de montagem de produtos não muito seriados,
interrompem suas atividades por 10 minutos a cada 50 minutos trabalhados, para
cumprir acordo com a delegacia Regional do Trabalho e com o Sindicato, visando
combater a incidência de novos casos de "LER". O mais impressionante
é constatar que durante as paralisações nenhum exercício físico é
desenvolvido. Ou seja a "Síndrome de Ler" gerou uma improdutividade
de 20% no processo de produção, sem benefícios aparentes.
A doença do "LER" é séria mas não
vai ser resolvida com soluções fruto da ignorância de quem não sabe ou não
que LER. Com técnica e inteligência, sem síndrome, se equaciona um problema
especializado, antes que extremismos direcionem os destinos de empresas para o
buraco da baixa produtividade.
- Consultor - Paulo Décio
Ribeiro - Consultor do Instituto MVC - Estratégia e Humanismo
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