A Volatilidade do Novo Paradigma Humano
A
Volatilidade do Novo Paradigma Humano
Não há dúvida de que se encontra em momento de sólida formação o paradigma
da ascensão da importância do "lado humano da gestão" (human
side of management).
Evidências por
todas as partes demonstram que pessoas deixam de ser consideradas recursos
ou, em conotação mais crítica, custos variáveis, e passam a ser
elevadas ao patamar mais nobre de prioridades estratégicas. Algumas
afirmações advindas de presidentes e CEO's dão aval a esta tendência:
"homens e mulheres não são recursos humanos das organizações; ao contrário,
as organizações são recursos dos Seres Humanos."
Dave Ulrich, um dos
mais renomados consultores no campo de Recursos Humanos afirma que RH agora está
na mesa da direção estratégica das empresas. Parece que começa a se dissipar
a dúvida de que gente motivada aumenta a rentabilidade das organizações.
Em estudos que realizamos no Instituto MVC, concluímos que há uma clara evidência
de que as empresas mais admiradas selecionadas pela revista Exame em suas
edições Melhores Empresas Para se Trabalhar, têm efetivamente uma
rentabilidade melhor do que a média do setor em que atuam. Huselia / Becker, em
importante estudo que realizaram na Sears em 1998, demonstraram que o
engajamento em boas práticas de RH acarreta conseqüências positivas nos
resultados de vendas, com evidente impacto na sua rentabilidade. A empresa
Franklin R&D Inc. também obteve a conclusão de que as cem melhores
empresas para se trabalhar da Revista Fortune foram duas vezes mais rentáveis
do que a média das quinhentas empresas do índice S&P. A própria Bolsa de
Nova York fez um completo estudo demonstrando que 75% das empresas pesquisadas
melhoraram seus resultados com programas de RH. Enfim, saímos da discussão
dialética e podemos concluir que pelo menos há uma boa probabilidade de
aumentar o lucro com a ação da melhoria humana. Um argumento que
certamente homens e mulheres de RH ainda necessitam para convencer seus
presidentes, diretores e conselheiros a abrir seus bolsos e seus orçamentos
para área humana.
Segurando
talentos
Neste sentido, os
humanistas têm motivos de sobra para comemorar com rejúbilo multiplicador a
transformação do capitalismo selvagem e até predatório em uma filosofia
empresarial com mais responsabilidade social. Entretanto, esta alegria não
pode, de modo algum, gerar um comportamento de acomodação. "O preço da
liberdade é a eterna vigilância" deverá ser lema de uma guerra que
continua.
A ascensão do humano e seu coordenador maior nas empresas não significa que
necessariamente estaremos assistindo a uma humanização das organizações.
Há necessidade absoluta de se acompanhar pari-passu a essência de formação
deste novo paradigma. Muita gente importante, de pensadores a consultores, de
professores a executivos, está defendendo uma numerização exagerada
das novas práticas do novo RH ou, se quiserem, da prática de um novo RH. Em
alguns extremos, já se afirma que a empresa não deve se preocupar com a
felicidade de seu empregado, mas sim com seu sucesso, com seu desempenho, com
sua performance, com suas competências. Em meu ponto de vista, sinto o enorme
risco de se aplicar a este novo RH um modelo contábil-financeiro-econômico,
bem no estilo mecanicista/reducionista , em que simplesmente seres humanos
continuarão a ser recursos, agora administrados e controlados com práticas e
processos muito melhores e mais efetivos.
Não há dúvidas de que RH deve ser um centro de lucros, não há dúvida de
que uma Universidade Corporativa deve ter seus resultados mensurados de uma
forma extremamente eficaz. No entanto, isto não significa que se repitam erros
do passado e só o lucro seja importante. Se prevalecerem princípios tão
somente matemáticos, haverá sérias conseqüências negativas para ambos os
lados: para o capital e para o trabalho, para o empregador e para o empregado.
Eu não tenho medo de afirmar que uma empresa com excelentes práticas e
processos de RH não será o único leitmotif nem mesmo a principal razão
de atração e retenção de talentos. Talentos serão atraídos em termos mais
permanentes pelo ambiente humano de uma organização, em um sentido mais
global: clima, respeito, valorização, integração, liberdade, autonomia,
perspectiva de desenvolvimento, desafio. Coisas humanas e não simplesmente
matemáticas.
Sempre é bom lembrar que nos próximos anos o pêndulo histórico vai mudar e
de maneira radical. De tanto se alardear o "fim do emprego", os jovens
acabarão aprendendo. Como natural reação, as novas gerações X e Y vão
buscar a construção de suas competências como empreendedores. E então, ao
contrário do que se imagina hoje, as empresas terão uma absoluta escassez de
pessoal qualificado. Aliás, eu não sei se, na cabeça do jovem do futuro, será
pouco nobre pertencer a uma organização na condição de empregado. O
"quente", o "legal" ou a gíria que seja criada na época
será tocar seu próprio negócio. A Era do Conhecimento e o mundo eletrônico são
combustíveis de alta potência para impulsionar esta tendência. Por tudo isto,
vale a pena gastar algum tempo em reflexões sobre o futuro de RH.
Conclusões
da Conferência de RH em Buenos Aires
Marco Aurélio Ferreira Vianna
Presidente do INSTITUTO MVC
17/07/2001
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