Administração Corpo A Corpo
Empresa multinacional precisa de executivo com
aptidão para gerência por e-mail. Exige conhecimentos de informática e alta
capacidade para gerenciar um mínimo de 100 e-mails por dia.
Para muitos este anúncio pode parecer
surrealista. Entretanto esta síndrome já atinge a maioria dos executivos das
grandes empresas e faz parte dos pré-requisitos no processo de admissão.
Pior do que isso é o Prefeito César
"Bambam" que numa entrevista afirmou que poderia coordenar a campanha
da ex-governadora do Maranhão à Presidência, e paralelamente administrar a
cidade do Rio de Janeiro por e-mail. Apesar da renúncia para concorrer à
presidência eliminar esta possibilidade, não há dúvidas da total
impossibilidade de administração de um departamento, muito menos de uma cidade
através de E-mail.
Gerenciamento por e-mail passou a ser uma
realidade do dia-a-dia dos executivos. Não ler e responder diariamente seus
e-mails pode significar sério risco de perder até a posição. Por outro lado
se envia e-mail para qualquer assunto, distribuindo cópias para toda a mala
direta. Enviar e-mail dá status e tira a responsabilidade de decidir. Nesta
condição 95% do que chega a sua caixa postal é lixo. Outros 4% são assuntos
que você simplesmente foi copiado, mas não tem ingerência na solução.
Somente 1% são assuntos pertinentes que requerem ação efetiva.
Inundado num mar de bobagens eletrônicas, o
administrador moderno vê seu tempo produtivo se esgotar rapidamente, perdendo a
capacidade de conhecer qual o problema real para a busca de soluções
adequadas. Nesta situação perde a visão correta do que ocorre na empresa e
passa a gerenciar como um espectador do "Big Brother Brasil", só que
através da lente de terceiros. Em vez de tomar decisões com fatos e dados,
passa a maior parte do tempo reunindo informações para respaldar seu processo
decisório.
Durante muitos anos gerenciei setores
administrativos e produtivos. Por menor que fosse o tempo disponível, sempre
dediquei algumas horas de trabalho diárias para percorrer os setores da
empresa, identificando problemas e acompanhando no local as soluções propostas
para melhorias dos processos. A troca de informações diretamente na fonte,
inibe os filtros que distorcem os fatos transmitidos aos escalões superiores
das organizações. Por outro lado, permite opinar sobre pontos de vista da
administração, os quais nem sempre chegam de forma clara na base da pirâmide.
Porém, mais importante de tudo é a presença
do líder e o impacto positivo desta presença junto aos comandados, motivando o
desempenho do grupo no sentido de obtenção das metas estabelecidas.
Mas porque será que coisas simples não fazem
parte da cultura de gerenciamento da maioria das funções de chefia?
Uma delas é a falta de tempo. Hoje a grande
massa de informações que permanentemente bombardeia o executivo moderno esgota
rapidamente a disponibilidade de tempo. Por outro lado gasta-se muito tempo em
reuniões intermináveis discutindo o sexo dos anjos, para concluir que anjo não
tem sexo.
Executivos têm medo de se expor diretamente
perante os subalternos. Existe o medo de que este contato diminua sua autoridade
e o coloque em situações embaraçosas.
Há também dificuldades na comunicação
verbal: enquanto o executivo fala em "inputs", "backlog",
"days-on-hand", "feedback", "benchmark", a
linguagem coloquial dos mortais comuns usa "peão", "mano",
"gravatinha", "chefete", "aspone",
"colega". Ou seja, existe um mar separando a comunicação entre gerência
e operação e neste oceano submergem os objetivos da organização.
Enquanto subsistem estes paradigmas gerenciais
as empresas trilham caminhos tortuosos para atingir as metas mais elementares.
Com isso os desperdícios se acumulam e os resultados alcançados frustram as
expectativas mais modestas.
É preciso fazer algo urgente para reverter
esta situação. À volta ao passado tornando mais humana a administração e
pessoal a comunicação no dia-a-dia das organizações é essencial. Por outro
lado o e-mail veio para acelerar a transmissão de dados, jamais para
estrangular o processo decisório. Criar regras urgentes para disciplinar o trânsito
das informações é fundamental para reduzir o volume de lixo eletrônico que
circula nas organizações.
Executivo não pode ser prisioneiro da rede de
comunicação. Gerente tem que gerenciar gente. Encarregado não é carregado.
Prefeito eletrônico jamais será a solução para qualquer cidade. Todos estão
delegando a mais importante ferramenta de gerenciamento: a administração corpo
a corpo.
- Consultor - Paulo Décio
Ribeiro - Consultor do Instituto MVC - Estratégia e Humanismo
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