Ainda Está Em Tempo
Uma de minhas netas surpreendeu-me mais uma vez
há alguns dias. Aliás, os netos espantam-nos todos os dias neste mundo
informatizado que eles dominam muito melhor do que qualquer um que já tenha
passado dos 50 anos.
E a surpresa veio sob a forma de mais uma
daquelas perguntinhas embaraçosas tão bem catalogadas por Pedro Bloch em seu
delicioso livro Criança diz cada uma ... .
- Vô, o que é corrupção? Perguntou-me a
Marcella na inocência de seus 8 anos.
Enquanto eu tentava exemplificar com uma
historinha infantil, ela logo acrescentou outras perguntas sobre "banda
podre" , tráfico, impunidade e outras palavras tão em uso nos noticiários
de nossos meios de comunicação.
Ora, se até nossas crianças estão sendo
afetadas por estas palavras e seus significados, alguma coisa muito séria –
imagino – está acontecendo em nossa sociedade já tão assustada e impotente
diante da violência banalizada, ainda mais crescente que campeia pelas ruas de
nossas cidades e invade nossas casas.
As perguntas de minha neta que me levaram a
estas reflexões fizeram-me pensar também na hipocrisia social, nas mentiras,
na desfaçatez e na cara-de-pau com que tantos tentam justificar crimes,
assaltos, seqüestros, roubos, desvios de dinheiro público, agressões e
bandidagem de todo tipo, como se quem os pratica fosse vítima da sociedade e não
autor de delito merecedor das penas mais severas.
Em nossos programas de negociação e de
vendas, um dos assuntos sempre recorrente e enfatizado é a ética que deve
nortear o comportamento, as atitudes e as ações dos negociadores, compradores
e vendedores. E, inevitavelmente, surge a questão: como proceder diante de
negociadores, compradores ou vendedores que fazem propostas fora de padrões éticos,
que oferecem ou solicitam propinas, subornos ou "algum por fora"? .
Em algumas situações estas propostas chegam
ao nível de uma aparente naturalidade, como se a desonestidade, o mau caráter,
a indignidade pudessem ser considerados como algo normal nas relações entre as
pessoas, como alguma coisa institucionalizada ou que fizesse parte da cultura,
dos valores ou dos padrões de comportamento de um povo.
É certo que a quebra de alguns valores morais
em significativas camadas sociais, que se constituem em formadoras de opinião,
por sua importância política e econômica, tem contribuído para esta situação.
Não são raros os exemplos de corruptos bem-sucedidos, sempre protegidos por
poderosos ou amparados por uma legislação benevolente e confusa que sempre
permite que chicanas jurídicas protelem decisões, impeçam o cumprimento de
outras e acabem por fazer com que tudo caia no esquecimento ou até que um novo
escândalo ocupe as atenções da mídia e da população.
Por outro lado, não pode ser esquecido o pai
que tenta subornar o guarda de trânsito ou que permite que seus filhos fiquem
com brinquedos que não lhes pertencem, ou ainda os "espertos" que
burlam as leis, trafegam pelos acostamentos, excedem os limites de velocidade,
"furam" as filas, usam de postos, cargos, mandatos e patentes para
levar vantagem, desrespeitar as leis, fazê-las ou usá-las em benefício próprio.
Ora, todas estas coisas têm contribuído para
a deterioração daqueles valores a que nos referimos e, com certeza, estão
criando uma ética moderna (como se isto fosse possível !!!) e fazendo com que
nossas crianças, se não forem bem encaminhadas, acabem por optar por elas também.
Será que ainda dá tempo ou já não há mais jeito?
conseqüência natural do trabalho bem
feito, porque é feito por pessoas felizes !
Eraldo
Meireles
Consultor
do INSTITUTO MVC
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