Aja Como O Piloto Do Avião E Conduza O Leitor à Ação
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Tentar
encontrar bodes expiatórios e responsabilizá-los por ações desastrosas, ou
promover intermináveis reuniões – invariavelmente maçantes e improdutivas
– para apontar culpados até que não é tarefa das mais penosas.
Pensando
bem, é muito mais fácil responsabilizar alguém por não se empenhar o
bastante para decifrar nossos enigmas.
Tarefa
mais proveitosa – e certamente bem mais árdua – é tentar descobrir nossos gaps,
rever o que foi dito, preencher eventuais lacunas de pensamento, encontrar novas
pistas que conduzam o leitor – dessa vez – a um porto seguro e
revelar, de forma inequívoca, às ações que se deseja desencadear.
Lembre-se:
Ninguém
é obrigado a adivinhar intenções comunicativas. Caso alguém tenha que fazê-lo,
o resultado pode ser desastroso, seja porque o leitor fica passivo e confuso –
por não saber como agir corretamente diante do problema apresentado – seja
porque o leitor passa a trilhar caminhos desencontrados – e passa a se
comportar de maneira diversa à que pretendíamos.
Cuide
para que o leitor tenha a clara percepção das ações que você deseja ver
executadas.
E
não tema ser invasivo: para o leitor, é extremamente reconfortante saber o que
está acontecendo, o que se está fazendo para solucionar o problema e quais as
ações que cabe a ele, leitor, executar.
Tome
as rédeas de seu texto e aja como o comandante do avião.
Atenção,
senhores passageiros,
Quem
vos fala é o comandante.
Detectamos
um problema na parte elétrica da aeronave e, portanto, teremos que suspender a
decolagem.
Retornaremos
agora, a fim de que os técnicos da manutenção verifiquem a natureza do
problema e estimem quanto tempo levarão para os devidos reparos.
Permaneçam
sentados, com os cintos de segurança atados.
Se
nada de grave for constatado, os senhores serão imediatamente informados do
tempo de espera para iniciarmos nova decolagem; se houver necessidade de reparos
demorados, os senhores terão que desembarcar para troca de aeronave.
Desculpem-nos
pelo transtorno, mas entendam que não podemos, em momento algum, descuidar da
segurança.
Aguardem
novas instruções.
Pela
sua atenção, nosso muito obrigado.
O
script é absolutamente transparente, e as ações se desenvolvem em seqüência
cronológica:
Identificação
dos Protagonistas da história:
É
interessante notar que a identificação do autor como comandante confere à
personagem o necessário status e a imprescindível autoridade para falar
em nome de toda a tripulação. Observe o tom solene (Quem vos fala é o
comandante), formal (os senhores terão que desembarcar da aeronave),
impessoal (Pela sua atenção, nosso muito obrigado) e imperativo (Permaneçam
sentados / Aguardem novas instruções) que o comandante imprime ao seu
discurso. Esse tipo de postura é essencial para quem necessita passar firmeza,
transmitir segurança e demonstrar controle absoluto da situação.
Identificação
imediata do problema:
Explicitação
das decisões tomadas:
Especificação
das alternativas para solucionar a questão:
Recomendação
quanto às ações pertinentes a cada passageiro:
-
Atar
o cinto de segurança;
-
Permanecer
sentado;
-
Aguardar
novas instruções do comandante;
-
Trocar,
se for o caso, de avião.
Observe
ainda que o autor tem o cuidado de explicitar o porquê da comunicação, já
prevendo – e eliminando de antemão – qualquer possível reação negativa
de seus interlocutores. O parágrafo a seguir constitui argumentação decisiva
e incontestável:
"Desculpem-nos
pelo transtorno, mas entendam que não podemos, em momento algum, descuidar da
segurança".
Se
o esquema proposto é de eficácia comprovada, porque não nos dispomos afinal a
identificar as ações que desejamos ver executadas, quando sabemos que, no
mundo dos negócios, decisões equivocadas representam perda de tempo e
dinheiro?
A
resposta é simples. E há muito medo envolvido nessa história.
Se
alguns temem ferir suscetibilidades – o leitor pode sentir-se tolhido em sua
liberdade de decidir por si mesmo – outros nutrem verdadeiro pavor de
parecerem óbvios demais.
Para
um número nada desprezível de pessoas, o olhar crítico e a possível rejeição
do outro deixam o redator simplesmente travado – e algum comando interno passa
sistematicamente a bloquear toda e qualquer exposição de intenções
comunicativas.
Desculpas
esfarrapadas e justificativas inconscientes são inevitáveis para afagar egos e
sublimar culpas:
"Conheço
meu lugar. Quem sou eu para dizer ao chefe o que ele tem que fazer?";
"Se
eu disse para não faturar X, Y e Z é mais do que óbvio que era para faturar o
resto. Ou não?";
"E
se o leitor julgar que estou menosprezando sua inteligência, só porque fui
claro e específico demais?";
"Exijo
que sejam tomadas todas as providências necessárias. E os senhores devem
naturalmente saber quais são as providências necessárias".
Sabemos
que dizer a alguém como deve se conduzir diante de determinado problema é
questão problemática.
No
entanto, melindres e suscetibilidades são incompatíveis com a postura que se
deseja para o bom redator de Business Writing.
Deixe
de se preocupar tanto consigo mesmo e pense um pouco mais em atender às
expectativas de quem vai receber a informação.
Identifique
clara e inequivocamente as ações que você deseja ver desencadeadas.
Essa
atitude só vai resultar em benefícios.
Para
você e para o leitor.
José
Paulo Moreira de Oliveira
Consultor
Sênior do Instituto MVC
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