Avaliação de Desempenho - Uma abordagem atual
Avaliação de Desempenho - Uma
abordagem atual
I - INTRODUÇÃO
Somos todos protagonistas e
testemunhas de uma fantástica rapidez na evolução dos mais variados ramos do
conhecimento humano, velocidade essa especialmente representada pelos contínuos
aperfeiçoamentos e inovações nos campos científico e tecnológico.
Estão aí, num extremo, a
microeletrônica, a fotônica, as missões espaciais e, noutro as conquistas da
biotecnologia e as expectativas da engenharia genética, a mostrarem o paradoxo
de um descompasso cada vez maior do "progresso da técnica" com aquele
que podemos chamar de "o progresso do homem".
Inseridas nesse entremeado de
realidades técnicas, econômicas e sociais em constante mudança encontram-se
as pessoas, através de quem as coisas acontecem, e as organizações, que elas
formam e de quem dependem. Nesse encontro, cuja sinergia sustenta a realização
profissional das primeiras e é fator essencial de sobrevivência para as
segundas, ressurge com grande força o papel do trabalho de equipe, da liderança
e gestão participativas, exigindo dos modernos gerentes perfis nunca antes
imaginados.
Nesse contexto, evidencia-se a
importância da descoberta de novos sistemas e caminhos, visando a identificação
e a seleção daqueles que conduzirão com sucesso os destinos futuros das
organizações.
A chave desse sucesso, segundo
diagnostica Lopes de Abreu (1), reside na existência de uma força
de trabalho íntegra, motivada, capacitada e comprometida com a organização.
Dentre os vários mecanismos
existentes, a Avaliação de Desempenho certamente é aquele que apresenta maior
eficiência e eficácia, desde que adequadamente adaptado às particularidades e
cultura das pessoas e das organizações.
Quando isso não acontece, esse
mesmo sistema, concebido para permitir avaliar, promover e orientar o
crescimento pessoal e profissional das pessoas, passa a ser o principal ponto de
insegurança, insatisfação e sentimento de injustiça das pessoas, gerando
profundas e inapagáveis frustrações naqueles que são as vítimas do
processo e alimentando as estatísticas de desperdícios com dados relativos
ao maior de todos eles, que é o desperdício do recurso humano.
O presente trabalho tem por
objetivo analisar uma sistemática de avaliação, empregada atualmente na
grande maioria das organizações, propondo uma revisão de seus mecanismos de
atuação, de forma a que possa melhor atender de maneira inovadora às
necessidades conjunturais e culturais ditadas pelos desafios da sobrevivência,
da qualidade e da competitividade.
II- OS SISTEMAS EXISTENTES
A sistemática de avaliação
de mérito empregada atualmente, na maioria das organizações, sejam públicas
ou privadas, centra sua atuação numa série de observações, registradas com
periodicidade anual em fichas de conceito preenchidas pelos superiores imediatos
e, normalmente, revisadas e avalisadas por um "revisor".
Essas fichas, de modo geral,
contém uma lista de parâmetros de desempenho e atributos pessoais e
profissionais, seguidos de uma gradação em escalas das mais variadas, onde se
procura fotografar a performance de um indivíduo de forma quantitativa e
qualitativa.
Os dados são processados, via
de regra de forma mecanizada, estabelecendo níveis de comparação entre as
pessoas avaliadas, através de uma distribuição normal, onde, em função de
uma série de fatores e "por definição", as pessoas são separadas
em categorias(ver fig.1):
- os "ótimos",
minoria da extrema direita do gráfico, ou pontos acima do limite superior;
- os "normais, maioria
subdividida em "bons", "normais" e "regulares"; e
- os "péssimos",
minoria da extrema esquerda do gráfico, ou pontos abaixo do limite inferior.
Linf média LSup
"péssimos"
"Normais" "ótimos"
"Regulares"
"Bons"
FIG.1
Segundo os principais
"gurus" da Qualidade Total, exatamente por causa da distribuição
acima, e da grande subjetividade dos seus critérios de observação e valoração,
os sistemas de avaliação de desempenho, ou mérito, baseados na sistemática
acima descrita, apresentam-se extremamente imprecisos e injustos, não
atingindo, por conseqüência, os objetivos para os quais foram concebidos. Ou
seja:
- geram profunda insatisfação
nos avaliados, comprometendo a credibilidade das organizações.
- pecam pela falta de
objetividade, sendo excessivamente burocratizados, onde é dada maior importância
ao processo que à própria finalidade;
- ignoram os conceitos de
necessidades dos clientes e cadeia cliente-fornecedor;
- incorporam distorções e
fatores que geram interpretações tendenciosas e injustas;
Deixando para detalhar os três
primeiros itens mais adiante, passemos a examinar o aspecto relativo aos fatores
que influenciam a distribuição, dita "normal", bem como as distorções
deles decorrentes.
A figura 2, a seguir,
representa a distribuição normal de um universo de avaliados, onde podemos
verificar que estão presentes as categorias acima referenciadas, sendo que os
ótimos são aqueles 5% "iluminados", que caminham sobre as águas;
os péssimos são os 5% "apagados", que se afogam na margem; e,
no meio, divididos em normais com mérito e normais sem mérito, estão
dos bons aos regulares.
Se pudéssemos qüestionar a
todos os funcionários ou empregados de uma organização, onde cada um se
posicionaria, provavelmente a maior parte deles se autoavaliaria na parte
direita da curva, entre os 10 % primeiros.
Mas, quais são os fatores que
contribuem para a colocação de um indivíduo numa ou noutra posição?
autoavaliação
10%
"péssimos"
"Normais" "ótimos"
FIG.2
Vários são os aspectos que
podem ser identificados, mas gostaríamos de chamar especial atenção para os
seguintes:
- HABILIDADE:
Se uma pessoa é habilidosa,
tenderá a adaptar-se com maior facilidade às exigências das diversas tarefas
que lhe forem atribuídas, tendo uma grande probabilidade de ser posicionada à
direita da curva. Do mesmo modo, aqueles com menor grau de habilidade tenderão
a serem posicionados à esquerda da curva, em função de uma maior dificuldade
em desempenhar uma determinada tarefa. A habilidade aqui é para ser entendida
como um sinônimo de inteligência, aceita por muitos como sinônimo de
capacidade de adaptação. O desempenho discrepante ou deficiente, como ensina
Mager(2) , por falta de habilidade, só é perfeitamente identificado
quando são esgotadas todas as tentativas de treinamento, "feedback" e
prática. A falta de habilidade está intimamente associada a uma comprovada ausência
de potencial, o que pode ser prevenido por adequados instrumentos de seleção.
- TREINAMENTO:
Em função de
terem sido treinadas, ou não, na execução das tarefas cometidas, as pessoas
sem problemas de falta de potencial poderão ter desempenhos ótimos, bons,
regulares ou sofríveis, sendo posicionadas nos pontos respectivos.
- HALO:
O grau de simpatia
ou antipatia nas relações entre superior e subordinado pode influenciar o
posicionamento dos avaliados, alocando os simpáticos mais à direita e os antipáticos
à esquerda.
- O GRAU DE DIFICULDADE DA PRÓPRIA
TAREFA E/OU O ACÚMULO DE TAREFAS:
As tarefas mais
simples são naturalmente mais fáceis de realizar, ensejando um alto
desempenho, enquanto que aquelas mais complexas, ou o acúmulo de várias
atribuições, dificultam desempenhos excepcionais.
- ESFORÇO PESSOAL:
A dedicação e o
esforço por melhorar, a busca constante do aperfeiçoamento, do aprimoramento
cultural e profissional, da qualidade individual e da equipe, o zelo na
apresentação, o culto à disciplina e aos valores maiores da organização
influenciam positivamente na colocação relativa dos indivíduos.
Se quiséssemos quantificar
esses fatores fazendo-os
HABILIDADE + TREINAMENTO + HALO + TAREFA + ESF.PESS. = 100
Quanto valeria o esforço
pessoal, que é o ÚNICO fator dependente do indivíduo ? Não é possível
determinar.
Como então qualificar as
pessoas com base em aspectos que não dependem de seu controle, uma vez
que todos os outros estão relacionados com o sistema ou são
parte dele próprio.
Cabe aqui abordar os outros
pontos, anteriormente citados como causas da ineficiência e inadequação da
sistemática em análise, os quais de certa forma são conseqüências das
distorções apenas discutidas:
- "insatisfação nos
avaliados", causada principalmente pela consciência de que a sistemática
adotada está gerando injustiça, na medida em que serve de instrumento de
concessão de prêmios e castigos baseada na "normalização das distorções"
e não numa real avaliação de performance e potencial;
- "falta de
objetividade/excesso de burocracia", causada por uma valorização
superestimada de um processo, que não é melhor somente porque supriu uma ausência
anterior de qualquer processo. Não existe objetividade se o processo de avaliação
não tiver uma base estatística sólida e se não forem consideradas as variações
próprias do sistema. Nenhum processo pode ser maior que sua própria
finalidade;
- "ignoram os clientes
e cadeia cliente-fornecedor", causada pela noção errônea de que o
cliente é somente a "alta-direção", a quem cabe escolher e
selecionar os futuros líderes. Um sistema de avaliação adequado cumpre muito
mais do que somente isso e, na medida em que se constitua num instrumento de
promoção do crescimento pessoal e profissional das pessoas, deve considerar
suas necessidades, pois elas também serão clientes. Cabe aqui associar a noção
de cliente interno, ou seja, as pessoas que fazem a organização, reforçada
por vários "gurus" da Qualidade Total, notadamente Ishikawa e
Feigenbaun;
É um teorema conhecido aquele,
demonstrado pelo "experimento de Deming" (3), que dita:
"Cerca de 85% dos problemas das organizações, que são imputados aos
empregados, são de processo, ou sistêmicos, não sendo portanto
sua responsabilidade, mas, sim, da gerência."
Ao mesmo tempo permanece a
necessidade inqüestionável das organizações de poderem selecionar seus líderes,
garantindo que apenas os melhores e mais capacitados possam ascender aos postos
mais elevados da carreira. Permanece também a necessidade de que essa seleção
ocorra dentro dos mais estritos critérios de justiça.
Como conciliar essas duas
necessidades?
A resposta a essa pergunta
reside na concepção e implementação de uma sistemática de avaliação de
desempenho que permita separar e medir precisamente as variáveis que definem
esses dois universos: o das pessoas e o dos processos.
III- UMA NOVA PROPOSTA
Com relação ao primeiro
universo acima referenciado, o das pessoas, o sistema deve atender a três
objetivos principais:
- prover e prever um
mecanismo de realimentação("feedback") que forneça aos
avaliados uma clara e precisa idéia do que se espera deles,
informando-os de como estão se desempenhando nas suas funções, ou
de como podem melhorar aqueles aspectos em que ainda não atingiram a
performance esperada;
- permitir o registro
permanente, confiável e acumulativo dos dados de desempenho; e
- prover os altos
escalões da organização de meios de avaliação que permitam
selecionar, com base em fatos, os que apresentam melhor potencial para
o desempenho de outras funções de maior responsabilidade no futuro.
Os parâmetros fundamentais de
todo o processo de avaliação são os desempenhos profissional e pessoal,
definidos por quão bem o funcionário realiza seu trabalho e pelas qualidades
pessoais que ele demonstra ser possuidor, fatores essenciais para o sucesso no
cumprimento da missão da organização.
Os critérios de seleção, por
sua vez, devem-se basear principalmente no potencial do indivíduo, tendo
por base os registros de desempenho ao longo de sua vida profissional, mas não
apenas esse desempenho, uma vez que performances passadas numa determinada
função, vistas isoladamente, não são garantia de sucesso em outra missão no
futuro.
Em função dos objetivos,
acima referenciados, delineia-se a necessidade da estruturação de três
subsistemas geradores das informações necessárias ao processamento da
avaliação.
SUBSISTEMA DE REALIMENTAÇÃO
É o primeiro deles, sendo
aquele que permite dar um adequado "feedback" ao indivíduo avaliado,
por meio de mecanismos vários à escolha e juízo de cada organização.
Dentre os mais diversos
adotados, aquele mais usual é o que se baseia no preenchimento de uma ficha
temporária de realimentação, que pode ser preenchida em base
quadrimestral ou semestral, na presença do avaliado.
Nessa ficha devem constar os
principais fatores de avaliação relacionados com os requisitos do trabalho e
com o comportamento esperado, de maneira a prover as informações necessárias
e úteis ao aperfeiçoamento dos pontos considerados passíveis de melhoria.
A experiência tem demonstrado
que, ao mesmo tempo que servem como referência de aperfeiçoamento,
constituem-se numa eficaz fonte de motivação para os indivíduos.
É importante se ressaltar que
a estrutura do mecanismo de realimentação deve buscar sempre a relação entre
o comportamento adotado numa determinada situação e seu impacto no cumprimento
da missão.
As sessões de realimentação
devem ser feitas de maneira sistemática, toda a vez que a situação exigir,
sendo recomendável que aconteçam de maneira formal, atentando-se para a prevenção
dos conhecidos erros de avaliação: tendência central, padrão, halo, etc.
É fundamental que seja
enfatizada a necessidade da criação de um ambiente propício de
relacionamento, de uma adequada capacidade de comunicação bilateral e de uma
criteriosa preparação.
Algumas organizações adotam o
que chamamos de "feedback parcial", na medida em que ele ocorre após
o preenchimento da ficha de avaliação. Esse sistema não é o mais adequado,
uma vez que serve apenas para dar conhecimento ao avaliado, já no final do período
de observação, do seu desempenho.
SUBSISTEMA DE AVALIAÇÃO
Com base nos registros das sessões
de realimentação, ao final de cada período, normalmente um ano, devem ser
preparadas as fichas de avaliação de desempenho.
Tais fichas são o fruto de um
processo que contempla três atividades encadeadas, que são:
- a observação;
- a avaliação,
propriamente dita;
- o registro dos
resultados.
O ponto de partida não poderia
ser outro senão as várias fichas de observação, preenchidas por ocasião do
processo de "feedback", aliadas às observações adicionais do
avaliador.
Para isso é fundamental que a
observação seja feita de modo sistemático e assim, forneça o subsídio
completo para que seja viabilizada a confecção dos documentos pertinentes. Seu
uso continuado permitirá ao longo do tempo, à organização de um arquivo
consistente e muito úti para a identificação dos melhores potenciais, com
vistas à eventual promoção.
Um dos pontos mais importantes,
relacionados profundamente com o sistema, é o que diz respeito à descrição
das funções que são desempenhadas pelos diversos avaliados. Essa descrição
deve levar em conta alguns pontos básicos:
- deve definir claramente as
características e requisitos de cada função;
- deve especificar o número de
pessoas afetadas pelo resultado dos trabalhos, número de pessoas sob supervisão
direta, complexidade do material utilizado, comissões adicionais assumidas,
etc...;
- deve ser sempre ligada aos
impactos em relação à missão.
O ponto central desse processo
é o desempenho profissional do avaliado naquela função ou tarefa que lhe foi
atribuída, no período considerado, e como esse desempenho afetou o cumprimento
da missão da organização.
Não cabem aqui referências a
performances passadas, prêmios obtidos, atividades sócio-culturais ou
religiosas, etc.
No que tange ao desempenho
pessoal, do ponto de vista das qualidades particulares do indivíduo, devem ser
selecionados aqueles parâmetros, ou atributos, mais em linha com os valores da
organização e, cuja presença ou ausência tenha um grau de significância
acentuado em relação à missão.
Os mais comuns são: Liderança,
Iniciativa, Dedicação, Capacidade de Planejamento, Julgamento, Disciplina,
Capacidade de Trabalho em Equipe, Resistência à Fadiga, Cultura Geral e
Profissional, entre outros.
Alguns sistemas baseiam-se na
atribuição de graus a cada um desses atributos, buscando quantificá-los.
Outros, apresentam apenas as opções de atingimento, ou não, dos padrões mínimos
da organização. Esses últimos são menos sujeitos às distorções
referenciadas anteriormente, uma vez que não permitem uma distribuição
normal.
SUBSISTEMA DE SELEÇÃO PARA
PROMOÇÃO
Esse subsistema, diferentemente
dos demais, desloca-se do cliente avaliado para o cliente selecionador e visa
principalmente prover dados de diferenciação, baseados não somente nos
desempenhos passados, mas também nos requisitos das novas responsabilidades e,
fundamentalmente, no potencial demonstrado pelo indivíduo em poder assumí-las.
Não devem ser considerados
"potencial demonstrado": currículos escolares, titulações, funções
de confiança, etc..
O que deve valer é a
capacidade avaliada de um indivíduo em relação a um grau maior de
responsabilidade, tendo por base os desempenhos demonstrados e uma efetiva
comprovação da existência de um número variado de qualidades e atributos
afins com os perfis de desempenho esperados no futuro.
O objetivo dos instrumentos a
serem utilizados não é outro senão aquele de esclarecer à alta-direção, ou
comitê de promoções, quais as realizações do profissional
considerado, qual o desempenho apresentado até o momento presente e que potencial
apresenta. Devem ser identificadas que características fazem dele uma pessoa
particular e por que motivo deve ser promovido.
Quando se fala em diferenciação,
e esse é o caso, é importante se considerar a necessidade da criação de uma
série de mecanismos eliminadores das distorções que contribuem para o
posicionamento na distribuição.
Esses mecanismos, que visam
eliminar ou minimizar as distorções, são o objeto da análise a seguir.
MECANISMOS DE ELIMINAÇÃO/MINIMIZAÇÃO
DAS DISTORÇÕES
O princípio básico desses
mecanismos é o entendimento daquilo que o saudoso Edward Demming chamava de
variabilidade dos processos e sistemas. Em todos os seminários proferidos por
ele, ou por seus discípulos, fazia questão de repetir incansavelmente:"Understand
variation...understand variation"!
Na prática isso significa que
devemos procurar eliminar das fichas de avaliação tudo aquilo que, colocado
sob análise estatística, esteja contido dentro dos limites normais de variação
do sistema.
Assim, no que toca ao aspecto
Habilidade, a existência de um processo de seleção bastante completo e
rigoroso, por ocasião dos concursos de admissão e durante os cursos de formação,
serviria e bastaria para garantir que os indivíduos atenderiam às condições
mínimas requeridas e aos padrões desejados. Nesse caso, restariam muito poucas
exceções a serem analisadas caso a caso, e reportadas segundo a significância,
por ocasião da aplicação dos subsistemas de realimentação e avaliação.
No que diz respeito ao fator
Treinamento, é fundamental haver um sistema de treinamento adequado, que
abranja a preparação das pessoas para o desempenho das diversas funções e
tarefas. Se todos tiverem acesso à qualificação necessária, não fará mais
sentido procurar-se diferenciar os funcionários como melhores ou piores, uma
vez que, não será por causa desse atributo que ocorrerá a distribuição ao
longo da curva.
Segundo Alvin Toffler(4),
a preparação de um funcionário exige essencialmente três tipos de educação,
variando desde o treinamento para a tarefa, passando pela educação
formal, até o que chama de educação cultural. Nesse último estágio,
centra fortemente na organização a responsabilidade em ensinar "as coisas
que o indivíduo deve saber para funcionar bem na cultura".
Já no que concerne aos
problemas de Halo, faz-se necessária a implementação de um sistema de detecção
das distorções "pró" e "contra" o avaliado. Uma das
possibilidades seria a criação de um processo paralelo de validação, que
conte com a participação daqueles que realmente conhecem o indivíduo sob
avaliação: seus companheiros de trabalho, seus superiores imediatos e mesmo
seus subordinados.
Não se trata de fazer avaliação
de superior por subordinado, uma vez que a valoração emitida servirá apenas
para validar os conceitos extremos emitidos pelos avaliadores, quando esses
estiverem destoando fora da normalidade estatística. O uso desse artifício
ajudará a evitar as injustiças e perseguições por motivos pessoais, assim
como os favorecimentos, transmitindo uma maior confiança aos funcionários no
sistema de avaliação de desempenho e nas lideranças da organização.
O aspecto mais difícil de ser
adequadamente avaliado é aquele relativo ao grau de Dificuldade, ou
Complexidade, da Tarefa a ser desempenhada, ou o acúmulo de várias delas. Para
haver justiça, é necessário que sejam adequadamente diferenciadas as diversas
funções, identificando claramente aquelas mais complexas. Uma vez
identificadas, elas seriam classificadas em grupos de dificuldade, aos quais
seriam atribuídos pesos. Sem isso, qualquer diferenciação perde sentido,
posto que, não se estará comparando coisas iguais ou similares. Em linguagem
popular, estaríamos comparando bananas e laranjas, ao darmos o mesmo valor de
desempenho a dois profissionais de mesmo nível que estejam, no entanto,
desempenhando funções completamente dissimilares. Tal dispositivo ensejaria a
rotatividade nas funções mais fáceis, uma vez que, mesmo com desempenho máximo,
a avaliação final permaneceria baixa em função da ponderação dos pesos. Da
mesma forma, estimularia a procura por tarefas mais desafiadoras, cujo bom
desempenho redundaria em uma maior pontuação em termos de avaliação de
potencial.
Ao final de alguns anos de
aplicação, o resultado de tal sistema seria a disponibilidade de dados de
performance realísticos, indispensáveis para permitir a seleção e escolha
dos futuros líderes e chefes.
Vistos os quatro fatores de
distribuição acima, resta apenas a analisar aquele relativo ao Esforço
Pessoal, que depende única e exclusivamente do indivíduo.
Nesse caso, o instrumento mais
adequado é a ficha de conceito, adaptada para atender às duas fases propostas
anteriormente: fase de realimentação ("feedback") e fase de avaliação.
Essa ficha seria dimensionada de forma a permitir descrever objetivamente a função
ou tarefa principal do funcionário, registrando clara e precisamente seu
desempenho no período.
Além disso, a ficha pode
conter alguns atributos, julgados essenciais ao bom desempenho da profissão.
Incluem-se aí, como exemplos: dedicação à profissão, capacidade de decisão,
iniciativa, julgamento, lealdade, comunicação, liderança, qualidade e
produtividade, entre outros.
Tais atributos devem ser
cuidadosamente dimensionados, de maneira a guardarem coerência com as características
da carreira escolhida, com os níveis de experiência e responsabilidades dos
avaliados.
Foge ao escopo do presente
trabalho a especificação e elaboração de uma proposta detalhada das fichas
de conceito, adequadas às diversas fases de "feedback", avaliação e
recomendação para promoção, uma vez que elas são profundamente dependentes
da cultura e dos valores peculiares de cada organização.
CONCLUSÃO
Como se pode depreender, um
Sistema de Avaliação de Desempenho eficiente e eficaz pode ser, além de um
mecanismo de seleção, um poderoso instrumento de motivação e aperfeiçoamento
das pessoas, a maior riqueza de qualquer organização.
Faz-se mister, portanto, que as
organizações lhe dediquem o máximo de atenção, de forma a eliminarem, ou
reduzirem a um mínimo, os efeitos danosos que resultam das distorções
originadas pela ausência ou presença de fatores como Habilidade, Treinamento,
Halo, Tipologia da Função e Dedicação Pessoal.
Os desafios, na busca
incessante da qualidade, da produtividade e competitividade, numa verdadeira
luta pela sobrevivência, impõem um repensamento das estruturas de avaliação
hoje existentes, ensejando o exercício do pensamento criador orientado para a
inovação dos métodos e processos relacionados com o desempenho do ser humano.
Subestimar essa realidade é sinônimo de desperdício, de ineficiência e
incapacidade de sobreviver.
Na reengenharia desse processo,
há que se respeitar sempre os fatores culturais e peculiaridades de cada
organização, não se perdendo jamais de vista a abrangência que deve
contemplar os dois tipos de clientes diretos nas suas necessidades básicas:
- o HOMEM, na busca da realização
profissional e no seu justo anseio pelo merecido reconhecimento;
- a própria ORGANIZAÇÃO, no
seu direito de poder selecionar e escolher seus melhores líderes.
Mais do que nunca valem as
palavras de Naisbitt e Aburdene, no seu excelente "Megatrends 2000":
"Será pela
identificação das forças que impulsionam o futuro, mais do que por aquelas
que criaram o passado, que possuiremos o poder de engajarmos nossa própria
realidade."
O que é isso, senão
inovação?
BIBLIOGRAFIA:
- ABREU, Romeu Carlos Lopes. Recursos Humanos - Foco na Modernidade. Qualitymark
Editora - Rio de Janeiro,1992.
- AFR 36-10. Força Aérea dos Estados Unidos."Officer Evaluation
System". Washington, DC, 1990.
- MAGER, Robert F. Análise de Problemas de Desempenho. Editora Globo -
PortoAlegre,1979.
- NAISBITT,J. Megatrends. Avon Books - New York, 1983.
- NAISBITT,J. e ABURDENE, P. Megatrends 2000. Avon Books - New York, 1990.
- RIBEIRO, C.R.M. A Empresa Holística. Editare/Vozes - São Paulo, 1990.
- SCHOLTES, Peter R. Times da Qualidade. Qualitymark Editora - Rio de Janeiro,
1992.
- TOFFLER, A. A Empresa Flexivel. Record - Rio de Janeiro, 1985.
Hugo J T Moura
Dados sobre o autor:
Hugo J T Moura é Coronel Aviador da Reserva da Aeronáutica e empresário no
segmento de consultoria e serviços.
Com mais de 3000 horas de vôo, foi piloto de caça da FAB, tendo-se graduado
Oficial Aviador na Academia da Força Aérea em 1973. Pós-graduou-se em Informática
na PUC Brasília e nos EUA e especializou-se em Qualidade, pela ENAP e IQA da
Inglaterra.
Foi gerente do Programa Binacional Brasil-Itália para desenvolvimento e produção
da aeronave AM-X e, atualmente, desenvolve trabalhos na área da qualidade
(certificação ISO 9000) no Grupo TECSAT em São José dos Campos- SP. É autor
de diversos trabalhos publicados, tendo proferido conferências e palestras em várias
empresas e organizações governamentais.
|