Cenas De Um Cotidiano Autoritário
O objetivo deste artigo, é o de estimular a
sensibilidade e a atenção dos leitores para fatos que acontecem no nosso
dia-a-dia, os quais na maioria das vezes nos passam desapercebidos.
Testemunhamos, recentemente, dois episódios que contrastam a enorme distância
entre comportamentos proclamados e comportamentos praticados.
PRIMEIRA CENA
Aconteceu na sala de um Diretor Administrativo,
também responsável pela área de Recursos Humanos, de uma organização de médio
porte.
Conversamos a respeito sobre da importância
que ambientes de trabalho descontraído e alegres, exercem sobre a produtividade
das pessoas. O Diretor me dizia, orgulhosamente, que o clima organizacional de
sua Empresa já se encontrava em um nível de desenvolvimento bastante satisfatório,
pois a abertura e a fraqueza eram a base que presidia as relações
interpessoais em todos os níveis.
Neste momento, sua assistente interrompeu a
conversa informando que o Presidente estava lhe aguardando ao telefone. Sua
fisionomia se alterou abruptamente. De um semblante calmo e sereno, para um
olhar preocupado e tenso. Imediatamente ficou em pé – literalmente em posição
de sentido – para falar pelo telefone com O presidente. Seu timbre de voz, até
então forte e seguro, baixou de tonalidade, chegando até a gaguejar. Após
alguns segundos, ainda em pé ao lado do telefone, saiu rapidamente da sala e
dirigindo-se à sua assistente já com a voz alterada, disse
enfaticamente."Telefone, agora para o Sr. Fulano de Tal, e diga que ele está
proibido de viajar. Quero falar com ele ainda hoje, logo após o almoço".
Antes de retomar à nossa conversa, ficou mudo
por alguns instantes murmurando baixinho entre os dentes: "Este pessoal não
tem mesmo jeito. Não entendem as minhas ordens e eu ainda levo uma
bronca".
Este fato, reforça a assertiva de que "O
homem não é senão uma metade, a outra é sua expressão".
Será que somos autoritários?
Episódios semelhantes ilustram que ainda
encontramos nas organizações um forte e perverso ranço ditatorial. É sempre
bom lembrarmos que todos nós somos filhos ou netos do regime autoritário,
extinto formalmente do cenário político brasileiro há menos de 10 anos.
Acredito que ainda não nos acostumamos a conviver com estilos democráticos e
abertos, estimuladores do diálogo e da resolução aberta e franca de divergências.
Muitos dirigentes conseguiram mudar apenas o
seu vocabulário, mas não o
comportamento.
Tal como acontece com os alcoólatras, somente
iremos conseguir transformar nosso vício autoritário quando, conscientemente,
admitirmos que temos comportamentos programadamente rígidos e inflexíveis.
Caso contrário, será apenas mudança de discurso.
Sugiro que o leitor faça o seguinte exame de
consciência:
Você admite que tem comportamentos autoritários?
Se respondeu que sim, é um excelente sinal
de que acredita que é preciso mudar.
SEGUNDA CENA
No Hotel em que estávamos coordenando um Seminário
Gerencial acontecia outro evento, cujo tema estava relacionado à questões
sobre "O Lado Humano da Qualidade".
Quando os participantes do nosso seminário
estavam reunidos em trabalhos de subgrupos, presenciamos o consultor responsável
pelo Programa de Qualidade discutir, em voz alta e de maneira bastante irritada
e descortês, com a moça responsável pelos serviços de buffet do
Hotel. Percebemos a que a moça se sentia humilhada pela forma de tratamento
utilizada pelo consultor. Assustada, e sem dizer uma única palavra, a moça
chegou a chorar. O consultor encerrou sua furiosa zanga com a seguinte frase: "Esta
gentalha do Hotel é toda incompetente"
Não procuramos saber os motivos de tal raiva,
a té mesmo porque não é do nosso feitio nos intrometer em assuntos que não
nos dizem respeito. No entanto, devemos confessar que também nos sentimos
bastante desconfortáveis com aquela cena.
Ficamos por alguns longos minutos nos
perguntando: Como pode um profissional,
que se intitula especialista em Qualidade Humana, praticar um comportamento
semelhante ao que presenciamos? Porque será que é muito mais fácil entrar
numa briga, do que numa relação de afetividade?
Por mais que a situação possa ter causado
irritação ao consultor, ele jamais teria o direito de tratar alguém daquela
forma.
Será que realmente praticamos um
relacionamento de qualidade?
Este segundo episódio, nos conduz a pensar na
coerência que devemos buscar entre aquilo que dizemos e praticamos.
"Faça o que eu digo e não o que eu faço",
não pode jamais ser lema de profissionais que trabalham com pessoa.
Atitudes que possam deixar "pegadas de
qualidade" no relacionamento precisam ser praticadas em todas as nossas
relações interpessoais nas quais estamos envolvidos diariamente, nos mais
diferentes ambientes ou situações. Nas relações com nossos conjugues,
filhos, amigos, colegas, colaboradores, garçons, motoristas de táxis,
recepcionistas de hotéis, aeromoças, engraxates etc, é necessário que haja
um respeito genuíno e autêntico.
Somente adquirimos comportamentos de qualidade
quando incorporamos em nossos hábitos diários o tratamento cortes e respeitoso
para com outros.
Isto não se ensina apenas através de
palavras, se pratica, com exemplos, fora das salas dos Cursos/Palestras ou Seminários.
Aliás será que resta alguma dúvida na cabeça
do leitor, de que a melhor forma de treinamento é través do exemplo?
OBS. Material retirado dos Seminários Gerência
Empreendedora e Diferencias Competitivos para a Gerência.
- Consultor - JOÃO
ALFREDO BISCAIA - CONSULTOR DO INSTITUTO MVC – M. VIANNA COSTACURTA
ESTRATÉGIA E HUMANISMO
- Consultor - JOÃO
ALFREDO BISCAIA - CONSULTOR DO INSTITUTO MVC – M. VIANNA COSTACURTA
ESTRATÉGIA E HUMANISMO
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