Em tempos de apagão, crise
Argentina e seleção brasileira temendo times como Japão e Austrália, cabe
aos executivos se perguntar sobre o que fazer para manter sua equipe motivada
e permanentemente atenta às oportunidades que as crises insistem em criar em
meio as maiores turbulências.
O Prof. José Roberto
Whitaker Penteado, um dos meus gurus em marketing, me ensinou que é preciso
ter em mente que as pessoas se motivam, basicamente, em duas situações:
- em caso de vida ou morte;
- quando percebem motivos lógicos, claros,
racionais e de seu interesse para agir.
Ao conduzir o módulo de
vendas para uma das turmas do MBA em Marketing da FGV aqui no Rio de Janeiro,
lembrei-me da lição aprendida com José Roberto.
Pretendendo ilustrar a questão
a motivação, exibi para esta turma um vídeo preparado pelo Círculo dos
Profissionais de Venda – entidade baseada em Curitiba. Tratava-se do
depoimento de Gonçalo Borges, profissional formado em Propaganda e Marketing
e dono de uma pequena empresa de artes gráficas em São Paulo.
O vídeo começa com opiniões
de pessoas visivelmente incomodadas com a situação brasileira. Rapidamente
elas vão apontando questões que indubitavelmente afligem a todos nós: falta
salário no final do mês, governo inoperante em áreas-chave, o país não
inspira a confiança necessária, etc e tal. Após essa sequência, o
protagonista do filme é apresentado como uma pessoa comum, dono de um pequeno
empreendimento que emprega 5 pessoas e sujeito às mesmas chuvas e tempestades
que preocupam a qualquer empresário. Apenas um fato torna Gonçalo diferente
da maioria de nós: ele nasceu com os dois braços completamente atrofiados.
Tentando dar uma dimensão
mais real do que isso significa, a câmera corta do plano americano – no
qual não se vêem os braços – para uma imagem do cotidiano de Gonçalo,
que aparece preparando uma proposta de serviços usando não as mãos, mas os
pés para datilografá-la.
Durante 10 minutos o empresário
fala sobre o desafio que sua condição física lhe impôs e conta que, para
superar o preconceito que seu estado físico acaba por gerar, recorreu o tempo
todo a sua reserva interna de entusiasmo.
Falando sobre como enfrentar
desafios, Gonçalo diz que, há alguns anos, decidiu conhecer o Japão. Sem
falar uma só palavra do idioma local - e dependendo da ajuda de outras
pessoas até mesmo para pode se vestir – tomou sozinho um avião e "foi
à luta". Sobreviveu sem precisar implorar por ajuda e ainda obteve
inspiração para produzir uma série de pinturas que acabaram premiadas em
alguns certames internacionais (para pintar, Gonçalo segura o pincel com a
boca).
Em outro momento, decidiu
que, "para garantir plenamente o meu direito de ir e vir", estava na
hora de dirigir o próprio carro. Projetou uma série de adaptações que
seriam necessárias para poder usar os pés – e não as mãos – para
segurar e dominar o volante, prestou todos os exames escritos e partiu para a
prova de trânsito. O órgão oficial, responsável pela emissão da carteira
de motorista, tentou impedi-lo com argumentos como: e se você sentir coceira
nos pés? e se seus pés ficarem suados com o esforço dispendido e isto
dificultar a direção? Respondendo que coceira e suor davam tanto nas mãos
quanto nos pés, Gonçalo conseguiu ser submetido a todas as provas e foi
considerado apto.
Terminada a exibição,
perguntei a meus alunos se a motivação de Gonçalo para enfrentar suas
limitações físicas devia-se ao fato dele não ter outras opções ou era
fruto de uma crença inabalável na sua própria competência. Como houve
consenso quanto a segunda hipótese, continuei a discussão introduzindo a idéia
do José Roberto e perguntando como fazer para que as pessoas de uma organização
encontrem razões de seu próprio interesse para enfrentar essa enésima crise
pela qual passa o Brasil.
O consenso deixou de existir.
Alguns alunos disseram que era impossível não ser contaminado pelo
pessimismo, na medida em que, todos os dias, os jornais só fazem falar da
crise. Outros disseram que era necessário praticar uma espécie de autismo,
ficando a margem do que está acontecendo. Houve quem sugerisse o estoicismo
como solução. Disseram elas que, se esperarmos o mínimo da vida, tudo o que
nos for oferecido será considerado acima da expectativa e portanto melhor do
que poderíamos supor.
A discussão não permitiu
uma conclusão única – houve, inclusive, aqueles que disseram que o filme
era piegas e apelativo, incitando a uma postura do tipo auto-ajuda. Mas todos
concordaram que o tema era praticamente atemporal, em se tratando do Brasil.
Como você vêm lidando com
esta questão? Será que está fazendo pelo menos a sua parte? Ao trabalhar na
sua empresa as pessoas se sentem envolvidas em um projeto mais amplo do que
apenas sobreviver e ganhar algum dinheiro?
Minha angústia – que
imagino seja sua também – é que se não formos capazes de dar aos nossos
empregados e a nós mesmos uma razão e um sentido mais amplo para o trabalho,
em pouco tempo, estarei lembrando do José Roberto não pelo que ele me
ensinou sobre marketing, mas sim pelo fato de sua tese de doutorado ser sobre
Monteiro Lobato, o criador do Jeca Tatu.
João Baptista Vilhena
Diretor do MVC
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