Como Lidar Com Os Estrangeirismos
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A
questão dos estrangeirismos é delicada. Tem a ver com o conceito de utilizar a
Língua como fator de diferenciação social, obsessão de uma elite perversa
que tem verdadeiro horror a ser comparada com o povão . O problema é que
globalizou geral e quase todo mundo já tem um celular ou viajou pra Cancun.
Você sabia que até
meados do século dezenove era elegante falar Português com sotaque lusitano?
Pois é...
Enquanto isso, angolanos e moçambicanos morrem de inveja do nosso jeitão de
falar Português. O sonho deles é um dia conquistar que nem a gente um sotaque
próprio. Aí sim é que eles vão se sentir independentes.
Enquanto isso, nós
por aqui vamos tocando o barco. Oswald de Andrade já dizia - em 1929, pasmem -
que ¨eruditamos tudo. Só esquecemos o gavião de penacho¨.
Já vivemos a fase das citações em latim para ¨enobrecer¨ os textos,
passamos pelos galicismos do início do século e agora vivemos a plenitude do
americanês. Por favor, não pensem em xenofobias iguais aos delírios daqueles
deputados que querem - porque querem - obrigar todo mundo a só falar português.
Nem uma reles palavrinha em inglês!
Mal sabem os nobres - e decerto bem intencionados parlamentares - que a
globalização veio para ficar , que Policarpo Quaresma teve um triste fim e que
não se governa Língua por decreto .
Povão é meio do
contra. Aí é que todo mundo ia querer comer hot dog ou fazer delivery.
Você não acha que seria um horror chamar futebol de ludopédio ou chofer de
cinesífaro? Duvideodó que alguém falasse essas besteiras. A gente é
pobre, mas é limpinho!
A tal reserva de mercado para uma Língua é outro blefe. E dos grandes! Nem na
França colou. Pergunta se lá os franceses falam os nomezinhos franceses
bonitos que alguns doutos lingüistas inventaram para conter o avanço do inglês?
Não tem jeito!
Quem domina a
tecnologia acaba exportando por tabela a Língua matriz criadora.
Assim foi com os romanos, que praticamente dominaram o mundo e obrigaram quase
metade do planeta a falar Latim. Assim vai acontecendo agora com a aldeia global
que acaba comprando os novos termos que vêm do Inglês. Se o Bill Gates tivesse
nascido no Maranhão, comesse arroz de cuxá ou tomasse guaraná Jesus,
certamente estaríamos exportando a língua portuguesa para o mundo. Portugal
chama mouse de rato, arquivo de ficheiro e se isola, porque não fala o
informatiquês universal.
Brigar contra isso é sandice. Todo bom pescador sabe que não dá pra remar
contra a maré.
O problema não está
em conviver com o estrangeirismo que não é nenhuma novidade.
Todo mundo sabe o que é um freezer (menos meu corretor ortográfico),
vai ao toilette (será toaleti ou tualete ? ), já viu um contêiner,
toma um sundae e se amarra em fazer um cooper . Abajur, ringue,
boxe, pulôver, rosbife e sanduíche podem conviver na boa com xerocar,
deletar, mouse e outros primos menos votados.
O que se deve
combater é o exagero das recorrências ao inglês só pra mostrar sintonia com
a tchurma do êmibiêis ou as idéias administrativas dos gurus
norte-americanos .
Nada mais do que preservar o perverso acordo tácito de falar e escrever para só
ser entendido pelos ¨homens bons¨.
Isso sim é que
vai de encontro aos anseios de uma sociedade que precisa de menos pavões e mais
comunicadores. Não tem a menor graça parar para um coffee break ou
realizar um evento in company. Assim como é ridículo dizer que Summary
é a mesma coisa que Sumário, que é correto startar o início do processo ou
inicializar o completamento das chamadas para atingir patamares ou melhorar o
empowerment .
As meninas dos 0800
saem por aí dizendo impunemente que vão estar verificando o problema ou
que o cliente pode estar pagando a fatura no Banco X. Mal sabem elas que
estão reduplicando scripts ruins do inglês, pessimamente traduzidos para o
nosso belo Português .
O lingüista Ferdinand
de Saussure estava inspirado quando afirmou que a sobrevivência de
qualquer idioma depende intimamente do equilíbrio entre duas forças
aparentemente opostas e antagônicas: a força do intercurso - ligada
a nossa capacidade de aceitar o novo e perceber que a Língua é um mecanismo
vivo, em constante evolução - e o espírito de campanário - ligado à
faculdade humana de rejeitar modismos e preservar e respeitar a tradição do
que é legítimo e do que já está devidamente consagrado .
É dentro dessa
dimensão que temos que considerar os estrangeirismos.
José
Paulo Moreira de Oliveira
Consultor
Sênior do Instituto MVC
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