Conversando Com O Pessoal Da área Técnica I E Ii
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Derrubando Velhos Mitos
Muitos Profissionais da área técnica
ainda acreditam que a competência de seus escritos seja diretamente
proporcional à obediência rigorosa a regras gramaticais e ao rebuscamento de
linguagem, condições únicas para que um texto técnico seja apreciado pelo
leitor.
Partindo desse raciocínio,
textos técnicos nada mais seriam do que a reduplicação de surrados modelos, a
serem rigorosamente seguidos, sem quaisquer alterações.
Tal pensamento é,no mínimo,
equivocado – e o resultado dessa postura é quase sempre desastroso.
Desculpas não faltam para
justificar tentativas mal-sucedidas e resultados frustrantes:
-
"Sei que meu texto
não ficou bom. O problema é que hoje eu não estou inspirado".
-
"Escrever é dom.
Além do mais, não existe nada mais antiquado que linguagem escrita".
-
"Modéstia à
parte, eu até que escrevo bem. O leitor é que não soube interpretar o que
eu queria dizer".
-
"Já sei até o que
você vai dizer... Meu texto foi feito às pressas e saiu de qualquer
maneira. O problema é que eu nem tive tempo de reler".
-
"Sou um
Profissional de área técnica. A mim, não compete, portanto, nenhum tipo
de concessão ao leitor".
Comentários como esses soam
como coisa velha e antiquada. Tão velho quanto acreditar que engenheiro não
precisa saber escrever, médico tem que ter letra ruim e advogado é obrigado a
falar e escrever difícil.
Dê publicidade aos seus
escritos
A integração da atividade
científica na sociedade moderna passa por profundas transformações.
Hoje, a produção científica
requer investimentos cada vez mais vultosos, e esses recursos só poderão vir
dos excedentes sociais.
O escritor técnico se vê então
diante de um dilema: como convencer a sociedade de que seu projeto tem valor, de
que sua pesquisa é importante e de que seus escritos irão trazer reais benefícios
à coletividade?
O princípio de liberdade
absoluta e autonomia científica cada vez mais é questionado, e o redator técnico
torna-se agora refém de decisões e soluções políticas.
A adaptação a esse novo
contexto requer o desenvolvimento de novas habilidades, resultantes das exigências
de um público leitor mais vasto, mais diversificado e cada vez mais exigente.
Não há mais como fugir dessa
tarefa
A nova postura engajada gera no
redator o compromisso de levar em conta necessidades informacionais distintas
desse enorme e diversificadas público leitor.
Os responsáveis diretos pela
tomada de decisões se ressentem da falta de tempo para leitura de tratados
intrincados e volumosos. Esses executivos querem a leitura condensada do Resumo
Executivo; o que exige do redator elevado poder de síntese.
Os responsáveis pela liberação
de recursos só o farão quando entenderem o que está sendo dito e
identificarem as possibilidades imediatas de retorno que justifiquem o
investimento; o que exige do redator forte dose de persuasão.
A opinião pública só vai
valorizar o trabalho do técnico, quando efetivamente entender a intrincada
matemática da relação custo/benefício; o que exige do redator enorme
capacidade didática e acurada autocrítica.
A comunidade científica, por
sua vez, só vai reconhecer e valorizar os escritos técnicos quando neles
reconhecer profundidade de conhecimento, pertinência e substância; o que exige
do redator o domínio total do assunto a ser desenvolvido.
Seja o bom árbitro
Sabe aquela partida de futebol,
cheia de gols e com muita emoção?
Nos textos que você produz,
também é possível criar condições para marcar vários gols de placa e
deixar a platéia – representada pelo público leitor – verdadeiramente
encantada.
Se o assunto do texto é técnico,
seja o bom juiz da partida, aquele que passa despercebido e cuja existência
quase ninguém repara.
Bom árbitro é aquele que:
- mantém o foco nas necessidades
informacionais do leitor;
- respeita o conhecimento prévio do leitor
relativamente ao assunto a ser abordado;
- controla a quantidade de informações a
serem prestadas;
- utiliza gráficos, fotos, tabelas e figuras,
capazes de enriquecer o conteúdo a ser desenvolvido;
- organiza as informações de maneira a
impedir que o leitor perca tempo com detalhes irrelevantes e pormenores
dispensáveis;
- trabalha adequadamente a especificidade. O
leitor não é obrigado a adivinhar intenções comunicativas;
- esforça-se, o tempo inteiro, para facilitar
a árida tarefa do leitor de compreender o que vai ser dito.
CONVERSANDO COM O PESSOAL DA ÁREA
TÉCNICA II
Buscando o essencial
Este é o princípio:
Para cada conceito, buscar a
palavra exata. A mais apropriada e a mais pertinente ao contexto. A que seja a
mais específica e a menos plurissignificativa.
Os dicionários definem o termo
HOMOGÊNEO como um corpo cujas partes são de mesma natureza; (por ext.) cujas
partes estão solidamente ligadas.
Parta desse princípio, em nome
da clareza, da propriedade e da objetividade.
Exemplo:
Quando o desligamento é
inadequado, o computador procederá a um teste padrão para verificar o disco rígido.
Caso não seja detectado nenhum problema no winchester, você poderá trabalhar
normalmente com a máquina.
Observa-se que os termos disco
rígido e computador foram
respectivamente substituídos por winchester e máquina.
Alguém que acredite no velho
princípio de que repetir palavras é prova cabal de falta de vocabulário,
certamente julgará o trecho gramaticalmente correto e estilisticamente
apropriado.
Entretanto, a substituição se
revela pouco funcional, pois o leitor pode ser induzido ao erro.
Não dê margem a dúvidas
No trecho em questão, o leitor
pode ser induzido a pensar que disco rígido, winchester, computador e máquina
são termos com significados diferentes.
Respeitando-se o princípio da
homogeneidade, a melhor redação para o trecho seria:
Quando o desligamento é
inadequado, o computador procederá a um teste padrão para verificar o disco rígido.
Caso não seja detectado nenhum problema no disco, você poderá trabalhar
normalmente com o computador.
Mantenha o foco no Leitor
Se o leitor não é um
especialista, a informação breve, clara e expressa em linguagem acessível é
mais do que suficiente.
Para o grande público,
interessa saber que um termômetro é "instrumento destinado a medir a
temperatura dos corpos". Inútil e
desnecessário explicar seu mecanismo de funcionamento ou ainda falar das experiências
de Fahrenheit, Six, Celsius, Rutherford ou Geissler com o Calor.
Para um epidemiologista, é
importante saber que seres humanos podem contrair o antraz em contato com a
terra – e principalmente em contato com animais, em cujo pêlo, cabelo e
presas o organismo pode sobreviver anos a fio. E que, até invadir os pulmões,
o risco de contágio é infinitamente menor.
Para os especialistas em
Defesa, é importante saber que os esporos do antraz podem ser lançados por
artefatos de artilharia através de centenas de quilômetros e que a bactéria,
por ser transmissível pelo ar, torna-se poderosa arma para a guerra biológica.
Resumindo a novela
Escolha o essencial
Escolher o essencial significa:
- privilegiar as ações. Descrições, diálogos
e circunstâncias só devem ser transcritas quando forem relevantes para
justificar, exemplificar ou demonstrar a procedência ou não dos fatos;
- destacar experimentos, acontecimentos e
situações com numerosas implicações;
- reservar para os anexos informações
complementares e pormenores dispensáveis;
- utilizar ilustrações (gráficos, tabelas,
fotografias e figuras) para confirmar a procedência de um argumento ou de
uma tese;
- privilegiar os resultados, em detrimento da
descrição exaustiva dos meios utilizados para obtê-los;
- produzir diferentes versões – mais sintéticas
ou mais resumidas – em respeito ao conhecimento prévio e às necessidades
informacionais do leitor.
José
Paulo Moreira de Oliveira
Consultor
Sênior do Instituto MVC
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