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Convivendo Com Outro Mundo

Tom, Max e Bill eram amigos inseparáveis desde a infância. Os três sempre estudaram nas mesmas escolas, desde o jardim da infância até a faculdade. Quando concluíram seu curso de administração de empresas, foram trabalhar na mesma companhia, uma grande multinacional de produtos de consumo com filiais em todos os continentes.

Os três amigos se destacaram e, no momento oportuno, foram convocados para conduzir projetos em unidades de diferentes países. Os três receberam as propostas de mudança para outro lugar no mesmo dia. Ao final do expediente, eles se encontraram, como sempre, em um Piano Bar para curtir o happy hour. Foi nesta ocasião que os amigos ficaram sabendo que, pela primeira vez em suas vidas, teriam de se separar.

  • Fui chamado para conduzir um projeto de reestruturação no Japão — disse Tom.
  • Recebi uma proposta para fazer umas correções nos rumos da empresa em Berlim — revelou Bill.
  • E eu para implantar um novo negócio no Rio de Janeiro — contou Max.

Os três avançaram na noite conversando sobre os novos desafios que cada um iria enfrentar, sobre o grande passo que isto representava em suas carreiras, sobre as oportunidades que teriam para "conquistar o mundo". Mas, a julgar pelo papo que rolava, não haveria esforço algum. O mundo já estava conquistado por eles, bastava tornar isto público. Os três diziam sentir-se como os grandes heróis da história ou da literatura que, muitos anos antes, havia inspirado sua admiração ingênua de adolescentes.

O que nenhum deles admitia é que, na verdade, estavam apavorados com esse salto rumo ao desconhecido, fato que nem o whisky os fazia esquecer. Antes de irem embora, ficou combinado que os três amigos se encontrariam naquele local exatamente um ano depois, quando estariam de férias, para falar de suas conquistas.

Passou-se um ano e os três compareceram ao encontro. Tom parecia abatido. Max exibia uma expressão risonha e bronzeada. Bill tinha uma expressão séria, mais grave que o seu normal. Cada um começou a contar suas aventuras desde o último encontro. Foi nessa ocasião que os três amigos perceberam que havia surgido uma distância, um espaço que os afastava.

O RESISTENTE

Tom chegou ao Japão certo de que não teria problemas. Afinal, o inglês é uma língua universal. Ao sair do aeroporto, viu que nem sequer podia ler as placas que indicavam a direção a seguir para chegar  onde queria; estavam todas em japonês. Uma sensação de fragilidade tomou conta de Tom, mas ele dominou o medo. Cobrou do representante da empresa que tinha ido buscá-lo o motorista e o tradutor, conforme prometido, e pediu também um professor particular de japonês para ele e sua família.

 

No escritório, Tom tinha problemas para fazer com que suas ordens fossem cumpridas.

No começo, achava que era a barreira lingüística, mas, à medida que progredia no japonês, passou a achar que o problema da companhia naquele país era o fato de ter funcionários tão medíocres. Irritava-se com aquela mania de os japoneses soltarem um risinho contido enquanto falam. Achava que era uma forma de demonstrar que não o levavam a sério e suspeitava que riam dele.

Tom passou a viver com um mau humor constante. Sua mulher também estava tensa, longe dos pais e dos amigos. Em vez de apoiá-lo, vivia chorando pelos cantos da casa, o que contribuía para alimentar o mau humor de Tom. Um dia, ao chegar em casa, Tom encontrou um bilhete. Foi assim que ficou sabendo que sua mulher o havia abandonado e estava voltando para a casa dos pais, a milhares de quilômetros de distância. Isto só fez piorar a situação de Tom, que não tinha conseguido formar um círculo social no país para o qual se havia mudado.

Solitário, tentava convidar colegas de trabalho do sexo feminino para um drinque depois do expediente. No escritório japonês da empresa, circulavam boatos de que Tom era um tarado. Foi o próprio presidente da companhia no Japão quem o advertiu severamente.

E, pior de tudo, desautorizou Tom a fazer novos cortes de pessoal, visto que ele havia demitido pessoas-chave da empresa. Como reestruturar uma companhia sem poder para isso?, perguntou-se Tom. Ele se sentia um lixo com sua fama de tarado e sua impotência para executar as grandes decisões. Já se via demitido, "na rua da amargura", sem mulher e com os amigos lhe virando as costas.

Mas a divina providência se apiedou do desespero de Tom e lhe indicou uma saída honrosa. Tom acabou dando o projeto de reestruturação por concluído. Convocou uma reunião em que anunciou o sucesso de sua tarefa e se colocou à disposição da empresa para "enfrentar novos desafios". Ele sabia que, assim, logo voltaria para casa para colher os louros.

Ao encontrar os amigos, Tom pintou sua odisséia com cores gloriosas e observações bem cáusticas em relação aos "nativos" daquele "país maluco".

 

O TOLERANTE

Bill chegou a Berlim sem grandes expectativas. Na empresa, todos eram bem profissionais. Ao chegar, Bill sentia-se confortável. Todos seguiam suas orientações sem grandes questionamentos. De qualquer modo, ele estava tão ocupado com os arranjos no novo país que não estava trabalhando a todo vapor. O aluguel da casa, a escolha de uma escola para os filhos, a decoração, a validação da carteira de motorista dele e da mulher, a compra de um carro, pela empresa, e questões como estas consumiam todo o seu tempo nos primeiros meses.

A secretária de Bill desempenhou um papel fundamental para sua adaptação à Alemanha.

Além de falar inglês, ela se empenhou em tudo o que foi necessário para que seu chefe se sentisse confortável. Achou uma casa linda, num bairro onde viviam muitos compatriotas de Bill, supervisionou os serviços necessários para deixar o imóvel com jeito de lar doce lar (pedreiro, encanador, pintor, colocador de carpete etc.), cuidou da papelada para matricular as crianças na escola etc.

Passados os primeiros tempos, a vida de Bill parecia ir às mil maravilhas. Mas alguma coisa o incomodava. Ele sentia falta de um convívio social mais acolhedor. Os alemães pouco conversavam sobre assuntos não profissionais, e quando o faziam tinham como temas prediletos filosofia e música, o que não empolgava Bill. Nada de futebol, de piadas.

Nem mesmo o teatro lá conseguia envolvê-lo.

Por isso, Bill acostumou-se a ficar em casa. Logo ele e a mulher fizeram amizades pelo condomínio em que viviam, onde predominavam seus patrícios. Foi-se formando um círculo social e praticamente todo fim de semana havia uma festa. Nessas ocasiões, o saudosismo imperava. Eles ouviam a música de casa, conversavam sobre a política local do país de Bill, sobre os parentes...

A mulher de Bill chegou a pensar em pedir divórcio, mas não contou ao marido. Depois que se entrosou com a vizinhança, foi, aos poucos, esquecendo até que teve essa idéia.

E, como havia deixado sua carreira de lado para acompanhar o marido, achou que já era hora de ter um filho para ocupar seu tempo. Isto criou um pequeno conflito conjugal. "Ainda não é hora, estou iniciando minha carreira e preciso que você me apóie nos bastidores", disse Bill. Ele achava que em breve sua carreira decolaria. E seria preciso ter a esposa disponível para organizar jantares, recepções e tudo o mais que um grande executivo precisa oferecer.

No trabalho, Bill às vezes sentia dificuldade para explicar seu ponto de vista. Os alemães eram tão certinhos que não entendiam quando se chega com uma solução diferente. Quando nenhum argumento funcionava, Bill dizia que a medida que estava adotando estava sendo utilizada com sucesso em todos os escritórios da empresa na América e assim deveria funcionar na Europa. Era o jeito de fazer calar a boca dos alemães quando eles colocavam objeções às suas propostas. Afinal, ele estava lá para corrigir os rumos da empresa. E o resultado seria perceptível a longo prazo.

Um dia, Bill chegou em casa e levou um choque. Sua esposa chorava como uma criança cujo doce tinha sido roubado. Suas duas melhores amigas estavam voltando para casa porque seus maridos haviam sido chamados de volta à matriz. A mulher de Bill não tinha mais ninguém com quem conversar e estava à beira de um ataque de nervos. Bill tentou consolá-la e ela desabafou. Disse que ele andava muito distante, sempre trabalhando, ignorando sua solidão... Bill explicou que isso logo se resolveria. Afinal, sua permanência na Alemanha era temporária. Ele logo concluiria suas tarefas, e toda aquela tensão conjugal ficaria para trás. A partir daquele dia, seu relacionamento com a mulher começou a ganhar em qualidade.

Finalmente, vieram as férias. A mulher foi visitar os pais e Bill estava encontrando os amigos. Ele calculava que levaria mais um ano para concluir sua tarefa na Alemanha e avaliava que isso lhe renderia uma boa promoção em seguida.

 

O ADAPTADO

Max desembarcou no Rio de Janeiro num sábado de carnaval, o que o deixou muito animado. Ele andava triste porque havia acabado de se separar. Sua mulher também tinha um alto cargo executivo e ambos estavam dando mais atenção às suas carreiras-solo do que ao casamento. Quando Max lhe contou que ia implantar um novo projeto no Rio, ela se recusou a discutir a questão. Simplesmente pediu o divórcio.

O próprio chefe do escritório do Rio foi receber Max no aeroporto e o levou até o hotel. "Posso voltar para pegá-lo à noite para assistir ao desfile das escolas de samba, se você quiser", ofereceu o chefe. Max ficou até meio chocado com a hospitalidade exagerada de seu colega, mas aceitou de imediato. Foi nessa ocasião que Max tomou a primeira grande bebedeira de sua vida à base exclusiva de cerveja e que começou uma grande amizade com seu chefe, o qual o apresentou a um grupo bem variado de amigos (que Max considerava um tanto exóticos). Eles gostavam de conversar e se divertir, nunca pareciam levar alguma coisa a sério, mas também nunca ficavam preocupados com algo em demasia. Simplesmente "tocavam adiante", como costumavam dizer.

Nos primeiros três meses, Max achava que não conseguiria trabalhar assim. Até que ouviu falar de um tal de "jeitinho brasileiro" e tentou reunir informações sobre o assunto. Começou a ver que era este o modo de fazer aquele pessoal levar alguma coisa a sério.

Passou a sair todo dia para tomar um chope com seus subordinados. Foi assim que Max começou a desvendar a "alma brasileira", como ele chamava.

Uma das principais descobertas de Max foi desvendar um código de conduta muito peculiar. Todos lhe perguntavam, por exemplo, o que ele achava da mulher brasileira. Max estava inclinado a dizer que não sabia por que até aquele momento só conhecia colegas brasileiras, algumas por quem ele até nutria profunda amizade, mas não poderia avaliar as brasileiras como mulheres. Ele descobriu que conseguia arrebanhar simpatia dando a resposta que esperavam dele e que, assim, seus subordinados seguiam suas orientações com mais entusiasmo. A propósito, a resposta à pergunta deveria ser a palavra "maravilhosa" acompanhada, invariavelmente, de uma certa expressão facial muito característica que os brasileiros faziam ao verem uma mulher bonita passar.

Max foi compilando seu próprio manual de conduta local. E achava tudo isto divertido.

"Em Roma, faça como os romanos", dizia para si mesmo ao perceber que seus pais não o reconheceriam. Ele fora educado de uma forma totalmente diferente. "Quem sabe não estou revelando minha verdadeira personalidade", considerou.

O fato é que Max foi aprendendo como motivar as pessoas em seu novo "habitat". E fazendo com que elas trabalhassem da melhor forma possível. Como era considerado boa companhia, era sempre convidado para festas. Conheceu uma garota e se apaixonou.

Estava tudo às mil maravilhas. Max ainda teria algum tempo pela frente até terminar a implantação do projeto. E esperava ficar por lá para cuidar do negócio. Secretamente, fazia planos de pedir demissão e arrumar outro emprego caso a empresa insistisse em repatriá-lo após o término de sua tarefa. E, às vezes, chegava a suspeitar que trapaceava consigo mesmo, adiando a conclusão do que tinha a fazer só para adiar sua volta. Outras vezes achava que esse era o modo como as coisas funcionavam naquele país.

Mas, depois de um ano, Max tirou férias e resolveu visitar seus pais, em seu país natal. Não deixou de comparecer ao encontro com os amigos e se espantou com o fato de eles terem tantas decepções com algo que ele considerava muito divertido.

 

EXPERIÊNCIAS

Por que as experiências de Tom, Bill e Max foram tão diferentes? Não é apenas porque cada lugar do mundo tem sua cultura local. É porque as pessoas têm perfis diferentes.

Alguns estão mais abertos a aceitar o novo, outros se apegam exageradamente a referências que não são mais válidas, muitos se sentem inseguros quando os valores que sempre os orientaram são colocados em cheque...

Leila Rockert

Consultora do Instituto MVC

 

 



 

 

 

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