Disciplina
Disciplina
Sinopse
Uma rápida reflexão que pretende oferecer uma
nova compreensão sobre a disciplina e apresentar comportamentos alternativos
que lhe substituam ou atenuem as culpas e tensões associadas à constatação
de sua falta.
Contexto
Vivemos em uma época na qual as maiores
riquezas estão jogadas no meio da rua, disponíveis para quem quiser ou souber
encontrá-las: o conhecimento. Nunca o conhecimento esteve tão acessível e ao
mesmo tempo tão escondido entre o "lixo" da poluição de informações
descartáveis. Pense comigo, as maiores fortunas da atualidade foram construídas
sobre o conhecimento: Microsoft, Coca-Cola, etc, são exemplos de conhecimentos
valiosíssimos que, porém, poderiam ter sido descobertas de qualquer um!
Bem, também testemunhamos uma grande e
generalizada confusão na qual o sentimento de escassez o receio da falta, a
violência, entre outros, representam alguns dos fantasmas que nos assombram
todos os dias, possuindo trânsito livre em nossas vidas, residências e
ambientes de trabalho, graças aos meios de comunicação. Essas condições da
vida moderna talvez nos afastem insistentemente de nossos próprios caminhos ao
nos proporem destinos coletivos, roupas unissex, soluções padronizadas e
massificadas, entre outras características da sociedade de consumo.
Graças a isso, comumente adotamos opiniões e
assumimos pontos de vista que não correspondem à nossa percepção, compreensão
ou sentimento, mas que refletem nosso condicionamento de buscarmos aceitação e
reconhecimento. Esforçarmo-nos por saciar nossa "sede" nos desertos
das cidades de concreto. Nesse contexto é que afirmo que acredito existir uma
grande confusão em relação a algumas de nossas melhores qualidades! No nosso
caso presente, estou falando especialmente da compreensão da disciplina! Existe
um certo consenso em admitirmos que a disciplina não pertence às características
do povo brasileiro. Aceitamos que o brasileiro é criativo, flexível, afetivo,
malandro... Mas costumamos aceitar que não temos disciplina, somos dispersos ou
não sabemos o que queremos (vivemos sem planejamento). Talvez seja este o
destino deste povo, cuja vocação psicológica, emocional e espiritual ainda não
tenha sido verdadeiramente identificada! Entretanto, talvez essas avaliações
sobre a disciplina não sejam compatíveis com a realidade, vou propor algumas
evidências de exemplos comuns.
Artigo
Uma primeira história, que já citei algumas
vezes, pela simplicidade e elegância em ilustrar como o prazer e o amor podem
transmutar o sentido da disciplina, servirá para nos oferecer uma nova luz à
compreensão dos nossos hábitos, validando talvez, aquilo de que reclamamos.
Era o caso de uma mulher, crítica literária de profissão, que em uma
reportagem de jornal, afirmava que sua vida tinha começado aos 40 anos de
idade! Após uma grande reflexão sobre sua vida, profissão de ler e comentar
livros, chegou à simples conclusão que não tinha lido metade dos livros de
sua biblioteca naquela ocasião de seu quadragésimo aniversário! No entanto,
chegou à conclusão que já tinha vivido aquilo que imaginava ser a metade de
sua vida, estimada durar oitenta anos. Isso a forçou tomar uma importante decisão,
pois não lhe seria possível ler todos os livros que faltavam no tempo que
imaginava ser o restante de sua vida.
Nesse momento estabeleceu um critério para
selecionar suas leituras dali em diante: leria apenas o que lhe desse prazer! Se
começasse a ler um livro enfadonho ou desagradável, o abandonaria, pois
certamente havia muitos outros à sua espera! Assim, concluía sua entrevista,
é que começou a viver verdadeiramente, obtendo ainda mais prazer de sua
profissão, quando completara 40 anos!
Prosseguindo um pouco mais sobre as decisões,
tenho um amigo que parou de fumar num certo feriado em que, tendo acabado todos
os seus cigarros, saiu para comprar e não encontrou o comércio aberto! Com o
seu desespero crescente, graças à abstinência, voltou para a casa a busca de
'bitucas' de cigarro nos cinzeiros, foi quando pela primeira vez constatou que
fora escravizado pelo tabagismo. Essa conclusão visceral foi o suficiente para
decidir que nada poderia ter tal controle sobre si mesmo. Na semana seguinte,
parou de fumar definitivamente!
Por último, um exemplo bastante próximo:
minha esposa! Embora possua uma versatilidade invejável, seja extremamente bem
dotada e sábia, costuma dizer que a disciplina só entrou em sua vida graças
à mim! Que nunca tivera disciplina e que sua preguiça representa
verdadeiramente um grande desafio. E todo aquele "lero-lero" que
ouvimos normalmente das pessoas que dizem ser dispersivas ou indisciplinadas!
De fato, eu sou bastante disciplinado, além de
auto-didata, as várias competências que possuo foram construídas com muita
dedicação, esforço e disciplina. Entretanto, essas qualidades somente se
manifestam com aquilo que busco para minha satisfação pessoal! Curiosamente,
tudo o que busquei e aprendi por prazer transformou-se em alternativa
profissional; assim tornei-me instrutor de tênis, instrutor de Tai Chi,
consultor em psicologia do esporte e aprendizagem, comerciante de artigos
esportivos, hipnólogo, palestrante, escritor, editor de livros, consultor
editorial e terapeuta. Apesar de tudo isso, nunca consegui fazer o que ela fez e
faz! Ela afirma que não tem disciplina... No entanto, possui uma carreira
extremamente planejada, escova os dentes três vezes por dia, três refeições
por dia e, principalmente, reza todos os dias logo que acorda e antes de dormir!
TODOS OS DIAS há mais de trinta anos! Isso sim é uma disciplina invejável!
De fato, a questão que eu desejo abordar é
que não precisamos disciplina para fazer aquilo que REALMENTE GOSTAMOS ou
QUEREMOS! Além disso, se você ainda não se convenceu de que pode ser mais
compassivo e compreensivo para consigo mesmo, pense no seguinte: talvez você
esteja bem disciplinadamente praticando a indisciplina! Assim sendo, a grande
novidade é que: há formas de utilizar essa sua disciplina em outros contextos
de vida!
Será que é preciso disciplina para comer,
beber água ou dormir? Vou propor uma pequena experiência: nos próximos dias,
observe com bastante atenção o que você pensa, imagina ou sente quando está
visceralmente disposto a beber água ou comer. Isto é, preste atenção às
suas sensações para responder a seguinte pergunta: como você sabe que é hora
de beber água, comer ou dormir? Quais são as evidências sensoriais ou
subjetivas? Ou, se preferir, pode avaliar: como você sabe que é hora de fazer
aquilo que gosta, quer ou deseja?
Nas minhas pesquisas sobre aprendizado, certa
vez, decidi me tornar canhoto! Isso mesmo, eu era um destro convicto até então...
De fato, eu fiz um grande planejamento para desenvolver essa habilidade e já
faz dez anos que iniciei esse empreendimento. Eu diria que hoje sou quase um
ambidestro treinado: eu escovo os dentes, jogo tênis, escrevo e seguro os
talheres nas refeições com a mão esquerda, essas eram as quatro metas
principais do meu plano de ação para desenvolver essa nova habilidade.
Posso garantir que a preguiça de exercitar
venceu algumas batalhas dessa guerra, e teria de fato vencido a guerra, se não
houvesse um sentido maior para enfrentar tal desafio. Sem contar com os
resultados inesperados obtidos ao longo do caminho: pude aprender muito sobre
aprendizagem e sobre transformações de identidade motora. Isso ainda me
proporcionou subsídios para a construção do modelo de aprendizado que utilizo
atualmente em meus trabalhos e pesquisas!
Somente hoje, depois de ter assumido tal
desafio, posso compreender os benefícios das tímidas e inseguras tentativas
iniciais. Evidentemente, tal decisão esteve associada a uma certa insatisfação
com o que conhecia até então, por isso escolhi algo diferente. Esse é um
outro importante artifício para atravessar o "rio da preguiça": a prática
de apenas um pouquinho todos os dias.
Quando conheci Robert A. Wilson, um importante
escritor norte-americano, ele dizia que tinha como meta escrever apenas uma página
por dia! Se descansasse nos finais de semana, durante o ano teria produzido 250
páginas, ou seja, um livro ou dois por ano! E quanto tempo leva para escrever
uma página?
Como estudioso do aprendizado de idiomas,
sabemos que a língua falada no dia-a-dia constitui-se de um repertório de
aproximadamente apenas setecentas palavras. Um bom falante de idiomas
estrangeiros possui um vocabulário ativo de três ou quatro mil palavras. Pense
nisso, se aprender apenas uma palavra nova por dia, somente uma, em dois anos
você conhecerá um idioma novo e em oito anos pode ser um excelente falante
desse idioma! (Se você estiver interessado nesse processo gradual, tranqüilo e
divertido para aprender inglês, envie um e-mail para:
ef2-subscribe@yahoogroups.com para receber uma história ou piada por dia para
estudar inglês de uma forma prazerosa).
Creio que um pouco de exagero ou megalomania
possa comprometer uma grande jornada. Há muitas pessoas que se aprisionam na
atitude do "tudo ou nada", desperdiçando algumas possibilidades
simples de cultivar suas "sementes" de novas habilidades ou competências.
Precisamos ainda compreender num contexto mais
amplo e de maior imparcialidade, justiça e isenção, que muitos julgamentos
aprendidos socialmente não contribuem muito para que desejemos nos
auto-conhecer, principalmente na medida em que nos façam sentir culpados ou
inadequados. Numa perspectiva evolutiva de gerações, creio que você concorde
que a humanidade já caminhou muito em direção à civilidade. Avaliando o
desenvolvimento das qualidades humanas que nos diferenciam do barbarismo, talvez
você conclua, como eu concluí, que a sede espiritual seja normalmente
proveniente de uma grande insatisfação (assim parece ser para as mentes mais
iluminadas da humanidade, todos eles, antes da realização, acumulam em suas
histórias alguns fracassos, sombras e superação de grandes desafios).
Essa poderia ser então uma equação aceitável:
que a insatisfação seja também o germe da realização? Bom se assim for,
possivelmente você concorde comigo que essa cadeia seja até mais longa, sendo
que o germe da insatisfação talvez sejam os desejos insatisfeitos, o anseio,
cuja semente seja a ambição, para alguns, gerada talvez, até mesmo pela cobiça
ou pela inveja! É verdade, realmente acredito que muitas das nossas melhores
qualidades possuam, como sementes primitivas, alguns de nossos piores defeitos
ou sombras! Entretanto é importante compreender que nessa perspectiva de tempo
mais ampla, levando em conta o amadurecimento e a evolução dos motivos e
sentimentos numa escala racial, nossos julgamentos se afrouxam, criando espaço
emocional e psicológico para a auto-aceitação e o auto-respeito. Essas sim,
podem ser importantes atitudes que nos ajudem no empreendimento de uma jornada
de auto-conhecimento em busca de mais disciplina, ou o que quer que você
deseje!
Conclusão
Embora a disciplina possa ser uma importante
qualidade para obtermos aquilo que desejamos, creio que existam outros
ingredientes que possam, em "receitas" e combinações diferentes,
proporcionar muitos dos resultados compatíveis com aqueles obtidos por
disciplina. Além disso, muitas das pessoas que se consideram indisciplinadas, são
extremamente disciplinadas em manter a sua indisciplina, o que não é apenas um
jogo de palavras, já que podemos reorientar essa motivação para obtermos
aquilo que nos propomos. 1
Autor: Walther Hermann / Instituto de Desenvolvimento do Potencial Humano |