O filósofo e economista escocês Adam Smith
publicou a primeira edição de sua famosa obra, Uma Breve Investigação
Acerca da Natureza e da Causa da Riqueza das Nações, em 1776. Passados mais
de duzentos anos, dois pontos elementares de sua obra ainda são de grande
importância para a formulação de estratégias de marketing.
1ª Lição: "O homem tem necessidade
quase constante da ajuda dos semelhantes, e é inútil esperar esta ajuda
simplesmente da benevolência alheia. Ele terá maior probabilidade de obter o
que quer, se conseguir interessar a seu favor a auto-estima dos outros,
mostrando-lhes que é vantajoso para eles fazer-lhe ou dar-lhe aquilo de que
ele precisa".
Para o marketing, esta é uma lição de
grande importância. As ações de mercado visam o atingimento dos objetivos
da empresa. Como sabem os profissionais da área, a satisfação das
necessidades e desejos dos clientes é fundamental para o marketing. Isso
porque, em mercados competitivos, espera-se que o consumidor dê preferência
às empresas capazes de oferecer produtos e serviços que efetivamente atendam
suas expectativas. Desenvolvendo ofertas adequadas ao mercado, o marketing
conquista e mantém clientes "mostrando-lhes que é vantajoso para eles
fazer-lhe ou dar-lhe aquilo de que ele precisa" – afinal, as empresas
necessitam fazer transações rentáveis e lucrativas.
A ética do marketing é utilitarista.
Diferentemente de outras correntes filosóficas, que utilizam como critério
de julgamento sobre o que é certa ou errada, a idéia de bom, de prazer, de
virtude, o utilitarismo privilegia a idéia de utilidade. As decisões sobre o
que é certo ou errado para o marketing passam pela análise do que é útil
para a organização. Assim, por exemplo, a determinação quanto ao nível de
recursos que deve ser investido em um cliente passa por esse crivo.
Complementando a citação de Smith: "Dê-me
àquilo que eu quero, e você terá isto aqui, que você quer – esse é o
significado de qualquer oferta desse tipo; e é dessa forma que obtemos uns
dos outros a grande maioria dos serviços de que necessitamos. Não é da
benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso
jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse".
2ª Lição: "O maior aprimoramento das
forças produtivas do trabalho, e a maior parte da habilidade, destreza e bom
senso com os quais o trabalho é em toda parte dirigido ou executado, parecem
ter sido resultados da divisão do trabalho".
O princípio da divisão do trabalho,
observado com relação ao indivíduo, já recebeu uma série de críticas –
é o responsável, por exemplo, pela alienação da força de trabalho, que
perde a compreensão do processo produtivo como um todo. Entretanto, duas
outras formas de divisão do trabalho nos interessam no momento: a divisão do
trabalho intra-organizacional e a interorganizacional.
De um modo geral, as empresas estruturam-se
sob a forma de departamentos – marketing, finanças, recursos humanos, etc.
–, mas é o "conjunto da obra" que permite o sucesso no mercado.
Assim, para que as estratégias de marketing mostrem-se efetivas é preciso
que elas ultrapassem as barreiras departamentais, atuando de forma harmônica
e sinérgica com as estratégias das outras áreas da empresa e permitindo a
troca de informações, idéias e conhecimento entre essas áreas. Nesse caso,
o marketing atua como um maestro, dirigindo a "orquestra
organizacional", mas permitindo que as demais áreas exponham suas
virtuosidades.
Por outro lado, ocorre também a divisão do
trabalho ao nível interorganizacional. As empresas especializam-se e
tornam-se competentes em suas respectivas áreas de atuação e mostram deficiências
em outras. Por este motivo, por exemplo, algumas empresas de varejo falham
quanto assumem também a produção de bens e vice-versa.
Mas a competição acirrada dos dias atuais
exige que as empresas agreguem valor aos seus produtos ao longo de toda a
cadeia de valor da empresa, como também busquem novos valores em outros
setores. A busca de alianças estratégicas torna-se, então, fundamental para
o desenvolvimento de novas ofertas para o mercado – como a fusão da AOL com
a Time Warner – e para o sucesso das estratégias de marketing.
João Baptista Vilhena
Diretor do MVC
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