Empresas Médias Também Fazem Estratégia
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Recentemente, em preparação para um seminário
que apresentei, espantou-me tanto a variedade de escolas de pensamento sobre o
assunto como o número de significados da palavra. Como adjetivo, justifica uma
espantosa e crescente indústria. Planejamento, marketing, administração,
informação, pensamento, conhecimento, produto, negócio, remuneração, RH,
cargo, indústria e tudo o mais que se queira, pode ser qualificado de estratégico.
Outro dia, pelos jornais, deparei-me com a notícia de um casamento estratégico.
Não é à toa o crescente descrédito em torno do tema.
Interessante é que o seminário foi
concorrido. Talvez porque as pessoas presentes quisessem acreditar em estratégia,
procurando apenas por alguém que as convencesse disso. Indagados se acreditavam
em planejamento estratégico, a maioria me confirmou seu descrédito. Dentre
suas justificativas, duas grandes lógicas se destacaram. Para um grupo, o próprio
processo de planejamento era o problema pois, em geral, era idealizado pelas
altas esferas de poder. Em conseqüência, mostrava-se distante da realidade
operacional, detalhado em excesso, pouco flexível, além de muitas vezes ser
usado como uma ferramenta de controle. Por esta razão, na maioria das vezes, o
produto final acabava na gaveta de alguém.
Também em destaque, surgiu a questão da
suposta ineficácia do planejamento estratégico como ferramenta gerencial. Para
este grupo, criar uma complexa estratégia para atuar em um ambiente de negócios
tranqüilo seria pura perda de tempo. Para o sucesso, diziam, bastariam alguns
ajustes de percurso, o estabelecimento de uma meta razoável de crescimento e,
principalmente, desafios permanentes para o pessoal de vendas. Por outro lado,
argumentavam que em um ambiente de fortes mudanças era muito difícil se fazer
um plano estratégico. E justificavam: "Como planejar nossos atos sem ao
menos compreender em que direção as mudanças vão nos levar?"
Estas costumam ser as principais razões
apresentadas por todos que dizem não acreditar em estratégia ou, quando mais
condescendentes, ser apenas uma ferramenta aplicável a grandes empresas. Na
minha opinião, estratégia é importante e está bem viva em qualquer tipo de
organização, seja privada, pública ou do terceiro setor, não importando o
seu porte. O todo desta questão pode ser compreendido visualizando-se as
principais funções desempenhadas em um grande transatlântico, segundo uma
analogia relatada por Henry Mintzberg em seu livro "O Safári da Estratégia".
- O timoneiro gerencia mudanças o tempo todo
– esse é o cotidiano dos negócios. Ao contrário do que imaginamos é
onde se lida com a maioria das mudanças. É o cliente que atrasa um
pagamento, um produto que não está vendendo como o esperado, uma negociação
a ser preparada, problemas no treinamento do pessoal, enfim, tudo aquilo que
se precisa fazer para manutenção da direção que se pretende para a
organização – as metas que foram estabelecidas. Nestes termos, leitores,
quanto tempo dedicam ao papel de timoneiro em suas empresas?;
- O navegador muda de curso com pouca freqüência
e somente quando as circunstâncias exigem – aqui já começamos a
introduzir um pouco da estratégia da empresa, o curso que ela estabeleceu
para atingir o seu destino de longo prazo. No nível do navegador estamos
tratando das decisões que definem a cadeia produtiva da organização,
desde seus fornecedores, passando pela produção e venda do portfolio atual
de produtos e serviços até o atendimento aos clientes. Mudanças
compreendem a substituição de um fornecedor importante por outro, a decisão
de descontinuar um produto e desmobilizar toda a sua respectiva estrutura de
produção e vendas, buscar novos clientes para reduzir a concentração
existente – neste nível as decisões implicam em maiores riscos para a
empresa. Quanto tempo dedicam ao papel de navegador em suas empresas?;
- Mudanças de destino podem ser feitas
somente pelo capitão, com freqüência ainda maior que a anterior porque
exigem uma mudança total de valor na organização – introduz-se aqui
revisões de posicionamento da empresa. Neste nível já se começa a
contestar a estratégia da empresa, no todo ou em parte - pode compreender
decisões sobre o market share desejado, o posicionamento pretendido em
segmentos, a forma de estabelecer uma vantagem competitiva etc. Mudanças
neste escopo envolvem decisões dos altos executivos tanto por seu risco
quanto pelas implicações na organização e em suas relações no ambiente
de negócios. Quantas vezes vocês já se envolveram em situações desse gênero?;
- E os descobridores podem descobrir um novo
mundo apenas uma vez na vida – este é o momento da criação de uma
empresa de muito sucesso. É a colocação em prática, por um empreendedor,
de um modelo de negócio que garantirá resultados muito acima da média de
mercado e, possivelmente, merecer citações elogiosas no meio acadêmico.
Quantas vezes vocês já se viram nessa situação? Provavelmente nunca. Mas
quantos hoje gerenciam empresas criadas desta forma por um parente visionário?
Lembram-se de quando ele deixou a organização? Em quais das funções
anteriormente descritas vocês se viram logo após? Para a grande maioria,
certamente a do capitão.
Se ainda houver dúvidas quanto à pertinência
do pensamento estratégico em qualquer tipo de empresa vale uma observação
final. A organização atual da empresa é o reflexo de sua estratégia. Todos
os seus recursos (financeiros, equipamentos, pessoal, estrutura etc.) decorrem
das decisões estratégicas que foram efetivamente implementadas ao longo de sua
vida – o padrão de sua estratégia realizada.
- Consultor - SÉRGIO DUARTE VELASCO -
VICE PRESIDENTE DO INSTITUTO MVC – M. VIANNA COSTACURTA ESTRATÉGIA
E HUMANISMO
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