Estratégia Não é Só Para Grandes Empresas?
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Esta
é uma questão que muitos de nossos clientes, em especial aqueles de porte médio,
têm nos colocado.
Aliás, na maioria das vezes, a simples formulação da pergunta por
executivos deste segmento já mostra o descrédito que devotam ao assunto.
Acho muito justo que tenham
essa concepção. Afinal, quem
chega a emitir tal opinião é um sobrevivente de sucesso em seu mercado, em
geral com anos de bons resultados, na maioria das vezes sem ter jamais se
preocupado em desenvolver internamente uma atividade que seus executivos
pudessem identificar como de planejamento estratégico.
O sucesso confere a eles
toda a razão. Basta à gente se
interessar pelas histórias de suas empresas que ouviremos depoimentos
orgulhosos de como chegaram até hoje.
Algumas começaram no “fundo do quintal”; outras vieram de pessoas
cansadas de serem empregadas; muitas precisaram de uma pequena pressão externa
para assumir uma vocação até então adormecida.
Nesta linha cito a história de um jovem que, ao comprar seu primeiro
carro com financiamento do pai, decidiu alugá-lo a terceiros simplesmente por não
ter renda suficiente para pagar o compromisso assumido.
Tomou gosto pela atividade e, em pouco tempo, já comandava uma pequena
frota de carros para aluguel.
O que todos esses visionários
fundadores fizeram em comum ao criar suas empresas?
Simplesmente deram os primeiros passos para o futuro que começavam a
estabelecer para si próprios, concebendo, sem preocupação acadêmica, suas próprias
idéias de negócios: definiram o produto / serviço que comercializariam no
mercado que conheciam e decidiram sobre os recursos que utilizariam - os
primeiros funcionários, o local onde desenvolveriam suas atividades, quanto
reservariam em dinheiro para investimentos etc.
E a partir daí, as histórias
de sucesso foram escritas e reescritas. Expandiram
muitas vezes seus portfolios de produtos, buscando sempre atender novos
clientes; decidiram às vezes transferir o local de suas instalações para
outro muito mais moderno; vários se arriscaram a atender mercados distantes
geograficamente; outros se tornaram grandes empregadores de mão de obra;
e muitos contrataram financiamentos de longo prazo para projetos de
maturação longa e incerta. Lembram-se
da dificuldade destas decisões e das divergências que os sócios manifestavam
com suas diferentes percepções de risco?
Lembram-se também de quando,
pela primeira vez, precisaram avaliar com maior precisão o tamanho do mercado
do seu principal produto? E quando decidir sobre preços tornou-se uma atividade
complexa? E também de como ficaram preocupados quando um inesperado concorrente
literalmente “roubou” alguns de seus principais clientes?
E quantas noites sem dormir após uma decisão de alto risco?
E, falando de riscos crescentes, quantos da turma inicial ainda
permanecem na sociedade?
Pois é, todas essas decisões
e muitas outras com as quais vocês se envolveram ao longo do tempo fazem parte
do que chamamos de escolhas estratégicas.
São assim qualificadas porque modificam o que
suas empresas serão no futuro, distanciando-as do que são hoje e mais ainda do
que foram no passado.
Revejam os caminhos que suas empresas percorreram desde a fundação e
identifiquem as várias ações que alteraram os formatos dos seus negócios e a
lógica que predominou na decisão do que fazer.
É o que chamamos de estratégia realizada
cujo resultado é o seu sucesso atual.
Quer dizer então que com
esse histórico de excelentes realizações seus futuros estarão garantidos?
Vocês sabem que não porque a própria dinâmica dos negócios e as
escolhas que dela resultam configuram um processo sem fim de solução e criação
de problemas. O que ocorreu
no passado não permite a ninguém estabelecer uma relação de causa e efeito
que lhe garanta sucesso no futuro. Ficamos
mais sábios, mais experientes mas, diante das oportunidades e ameaças que
visualizamos, só temos uma certeza: o futuro é desconhecido, o risco de
insucesso existe e a concorrência cada vez mais agressiva quer mesmo é o nosso
mercado.
Todos já passaram por crises
difíceis, provocadas por diversos motivos, tanto de origem externa quanto
interna: no âmbito externo, o aparecimento de uma nova tecnologia, uma
surpreendente mudança nos hábitos dos clientes, a chegada de novos e
agressivos concorrentes; no lado interno, a substituição inesperada do
fundador da empresa, a perda de profissionais de grande competência, uma decisão
errada com desastrosa alocação de recursos etc.
Em maior ou menor grau todos conhecem o impacto dessas variáveis.
Nessa altura, acredito que
vocês concordam que foram muitas as mudanças de destino de sua empresa – ou
como reação diante de uma situação inesperada ou para implementação de uma
decisão desejada. Para mim, isso
é estratégia: um conjunto de decisões, tanto desejadas como emergenciais,
cujo objetivo é garantir a sobrevivência e o sucesso de sua empresa no futuro.
E tudo realizado sem precisar
da ajuda de ninguém de fora, diriam vocês.
Esta frase, se associada ao título deste artigo, pode nos levar à
seguinte: “Concordamos a respeito de estratégia mas sua formulação formal
é exclusiva das grandes empresas que, complexas, exigem a participação de um
consultor externo; empresas menores podem ser bem sucedidas sem esta ajuda.”
Não há dúvida quanto a
isso. Aliás, vou mais além.
Ser bem ou mal sucedido pode ser um resultado atingido com ou sem ajuda
de um consultor, por uma empresa de qualquer porte, grande ou não.
Como também estudar uma organização de sucesso para identificar suas
melhores práticas não necessariamente trará um futuro tranqüilo para nenhuma
outra pois, além dos riscos inerentes à própria dinâmica dos negócios, nada
garante que a tal empresa não estivesse por sorte no lugar certo, na hora
certa, fazendo o que deveria ser feito.
Contudo, acredito muito na
oxigenação das idéias, no questionamento dos paradigmas vigentes, no
aprendizado como forma de produzir melhores análises sobre o que se passa no
ambiente de negócios e, em conseqüência, produzir decisões mais bem
compartilhadas pela totalidade do grupo. Num
extremo desta linha de raciocínio, a fase inicial de uma formulação estratégica
poderia ser simplesmente um curso rápido de estratégia em que a própria
organização contratante seria estudada e avaliada pelos participantes.
Numa seqüência hipotética, seria retomado o processo decisório
tradicional utilizado pela empresa, agora enriquecida com informações
produzidas e analisadas pelos principais colaboradores da empresa.
Enfim, há diversas formas
para se executar o trabalho de estratégia todas sempre discutidas previamente,
considerando questões da realidade da empresa como as seguintes: custos, prazo,
disponibilidade de tempo, formulação estratégica usualmente utilizada, experiência
com consultoria externa etc. E,
principalmente, sem a imposição de fórmulas previamente estabelecidas e
distantes da realidade da empresa.
Tudo bem, diriam vocês, mas quais as vantagens que provêm da
contratação de um consultor externo?
Primeiro, o enriquecimento
do processo decisório pela própria especialização do consultor tanto em nível
acadêmico quanto na experiência prática obtida em trabalhos desenvolvidos em
outras empresas. Segundo
– a mais importante na minha opinião -, prover a possibilidade de implantação
de um processo estruturado de pensamento – tanto no diagnóstico da situação
quanto na análise dos fatos – que permitirá discussões mais criteriosas das
idéias dos envolvidos na atividade estratégica.
O resultado será uma escolha mais consistente – será reduzido em
muito o espaço para o “achômetro” - capaz inclusive de ser documentada e
revista nos anos seguintes, tanto para reavaliação de suas premissas, quanto
para aprendizado e melhoria progressiva das decisões futuras.
Em
grande resumo, estratégia lida com mudanças e, em
conseqüência, com as grandes decisões de direção da empresa às quais os
principais executivos dedicam grande parte do seu tempo importante - assim,
todas as empresas fazem estratégia.
Por outro lado, a ajuda de um consultor externo não é essencial,
mas pode ajudar em muito se contratada com o objetivo de trazer novas idéias
às discussões e questionar aquelas dominantes cujos resultados podem não se
aplicar no futuro – o ideal é não se esperar por esse momento.
Sérgio D.
Velasco
Vice-Presidente do MVC
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