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Feliz 1998

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Não há dúvida de que o mundo empresarial vive uma busca frenética de competitividade, que já dura pelo menos doze anos. Sem o menor medo de errar, no meu ponto de vista pagando um preço humano talvez injustificável, partiu-se para um compulsivo paradigma de fazer tudo mais barato e melhor. Com o efeito caudatário deste fenômeno, o movimento de terceirização surgiu como forte apoio tático para consolidar a equação "produtividade-qualidade".

Teorizava-se que, passando para parceiros uma determinada atividade, não só se ganharia em custos como se poderia focar a energia e a capacitação no "core competence" da organização, com efeito benéfico no resultado competitivo. Isto foi real, apenas em parte. Algumas verdades assumidas como premissas não se confirmaram na prática. Nem sempre que uma empresa presta um serviço terceirizado, ela consegue ser mais competente do que a própria operação interna. Por outro lado, a ganância do lucro leva, muitas vezes, a empresa contratada a ferir princípios básicos de competitividade. Em suma, "depenam" os serviços prestados para ganhar mais dinheiro. Por cima de tudo, encontra-se a dificuldade de incorporar a cultura da empresa contratante, ocorrendo muitas vezes sérios arranhões nas suas crenças e valores com evidentes prejuízos à operação.

De vez em quando o calendário nos prega algumas peças. Aliás, não tenho dúvida, o tempo é uma ilusão. Entretanto, neste aspecto, 1998 foi impar. Ele está simplesmente começando agora. Seu carnaval foi em março, os feriados de abril permitiram uma série de "pontes" e a Copa do Mundo, uma coincidência fatal agora com 35 dias de duração, tomou todo junho e metade de julho. Por isto, vivemos uma situação trágica, no mínimo sui generis. Tentava-se trabalhar em janeiro e fevereiro e ouvíamos o célebre "vamos deixar para depois do carnaval". Em março, não de outra forma, também escutávamos "temos que retomar nossas atividades, mas abril tem poucos dias úteis. Vamos falar em maio". Quando o mês das noivas chegou, além dos casamentos, é claro, diziam: "A Copa do Mundo está aí. Volte em julho". Com a experiência única desta brasileirice, comecei nas minhas horas vagas a escrever um livro que se chamaria: 1998 - O ano que começou em 13 de julho. Meu otimismo patriótico futebolístico, fazia prever o penta-campeonato. Errei por pouco, fomos vice-campeões, mas o país foi totalmente ocupado até a noite do dia 12 de julho. Bebemos vinho para esquecer e não para comemorar. Minha crença era tão grande que em casa fiz um novo reveillon para comemorar a chegada do ano novo. Ainda de ressaca da festa, mas pronto para começar o trabalho, fomos surpreendidos pela Crise da Rússia, que fez a bolsa despencar, os juros subirem, o pessimismo voltar e, principalmente, as vendas de muita gente caírem. Cheirando o tamanho do pepino, o nosso livro passou para: 1998 - o ano que ia começar em 13 de julho. Guardei o resto do champanhe para o último reveillon do milênio (há controvérsias, posto que uns dizem que foi o penúltimo) e feliz da vida fiquei esperando 98 começar em 1 de janeiro de 99. Já neste ano, o sonho durou pouco mais que 5 dias úteis. O Real oscila, o Banco Marka desaparece, o Banco Central se perde e pronto: estamos de novo esperando. Uma espera complicada pois, afinal de contas, 1998 ainda não havia começado e eu, otimista nato, já contabilizava três reveillons comemorando sua chegada.

Uma primeira lição, de ordem moralista, é óbvia: apesar de desesperançada, chega de criancice gente! Não há sentido, dentro de qualquer ótica adiar sempre a construção de um país por causa desta mentalidade de feriado permanente. Jogamos, no meu ponto de vista, no mínimo 5% do PIB nesta sanha preguiçosa. Alguma coisa como 50 bilhões de dólares.

Entretanto, o objetivo desta matéria é apenas alertar um ponto positivo, quase uma proposta de otimismo. É verdade que a partir de agora - inflação em baixa, juros mais em baixa ainda, expectativas positivas e a reversão da crise -, passa a ocorrer, com grande probabilidade, o cenário de retomada, em que os atores da cena empresarial vão querer recuperar o tempo perdido. Sem dúvida, pode acontecer o fenômeno de se viver 2 anos em 1, a qualquer momento a partir do segundo semestre de 99. E então, finalmente, 1998 vai chegar. Apesar desta brilhante luz no fim do túnel são necessários alguns cuidados e estratégias específicas:

  1. Apesar de menos provável, é sempre bom lembrar que inúmeros fatores de risco no ambiente nacional e internacional ainda podem deteriorar esta situação. Guerra de Kosovo, situação da Rússia, a exuberância amedrontadora da economia norte-americana, as CPI's, as consolidações das reformas e outros. Portanto, cautela ainda é uma boa tática.
  2. Mesmo crescendo, a economia brasileira apresenta características inteiramente novas. A estrutura de seu funcionamento está dentro de um novo paradigma. Em verdade, o crescimento se coloca em novos setores e atividades. No foco da empresa, querer crescer à moda antiga pode significar o sonho de criança pobre no Natal. Inovar para o novo é mandamento crucial.
  3. Não deixe de pensar na estratégia de sua organização interna. Esta Revolução Invisível e a mudança radical dos padrões da administração, se não devidamente tratados, podem impedir que organizações, mesmo em caminhos estratégicos corretos, deixem de aproveitar as benesses desse novo cenário. A empresa burocrática e pesada do século XX não mais tem vez neste novo jogo.
  4. Neste próximo tempo é importante não deixar que ventos favoráveis da economia global obliterem a necessidade da educação continuada. Como nunca, entramos na Sociedade do Conhecimento, na Economia do Intangível. O Capital Intelectual, através de uma ação de aprendizagem, não pode jamais ser jogado para um plano não prioritário. Treinamento não só continua como ganha espaço de importância progressiva na agenda dos triunfadores.
  5. Em todos os sentidos, esteja atento à Revolução da Tecnologia. Lembre-se que Ele (Bill Gates) propõe a Empresa Neural/Digital na qual, no mínimo, papéis e intermediários são eliminados. A telemática mudará a maneira pela qual se compra, vende, aprende, estuda, distribui e, enfim, se VIVE. Ela não é somente uma máquina a mais.
  6. Repense a missão de sua organização. Fuja, como o diabo da cruz, do objetivo único e tacanho de maximizar lucro. Cada vez mais o lucro é a taxa de corretagem da felicidade que o cliente tem por ter o seu produto. Cliente bom é o cliente feliz e o cliente feliz adora gastar dinheiro com você. Cada vez mais, Lucro é o subproduto das coisas bem feitas. Encante seu cliente porque, tenha certeza, ele estará sendo assediado por todos os lados, por gente nova vinda de todas as partes do mundo.
  7. Finalmente, não esqueça de desenvolver os colaboradores no sentido global e holístico. As pessoas estão perplexas por estarem vivendo na maior fase de mudança que o Planeta Terra já teve. Eles precisam de orientação e principalmente de um ambiente propício ao desenvolvimento da sua própria motivação. Na Sociedade do Conhecimento, gente é o Capital e trabalho é a própria Tecnologia. De resto, feliz 1998, 1999 e 2000. No tempo também existe o três em um. No longo prazo, bom milênio para você e mãos à obra.

Marco Aurélio Ferreira Vianna - Presidente do MVC

 

 



 

 

 

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