GERENCIANDO RESULTADOS E SENTIMENTOS
GERENCIANDO RESULTADOS E
SENTIMENTOS
É possível ser feliz no
trabalho - e ter lucro !
Em seu
livro "O Gerente Que Veio do Céu" (Edit.Gente) você atribui aos
gerentes a capacidade de criar felicidade nos funcionários. Quais as competências
que ele deve ter para atingir esse objetivo?
FLORIANO SERRA - Todo
"chefe" – que aqui generalizamos com o título de Gerente - tem o
poder de influir no bem ou mal estar da sua equipe, dependendo de como ele usa
esse poder. O mesmo poder que condena é o mesmo que perdoa, mas é preciso
saber se o caminho por onde o gerente anda está na sombra ou no Sol. Além do
salário, os funcionários buscam sobretudo reconhecimento no trabalho – que
é uma das formas de realização, quando faz crescer. Mas se, ao invés de
reconhecimento, o gerente pratica grosseria, desqualificação, injustiça,
indiferença – os membros da sua equipe certamente sofrerão com essa agressão
porque se sentirão desrespeitados como pessoas e cidadãos. Nestes casos, pode
ocorrer o comprometimento da saúde emocional (e até física, no caso de
somatização) do funcionário e também repercussões negativas na sua vida
familiar. É claro que o inverso é verdadeiro: o funcionário se sente feliz e
realizado quando tem seu esforço e talento reconhecidos – e, de preferencia,
recompensados. Portanto, a primeira competência que o gerente deve ter é
assumir-se como pessoa, assumir que necessita usar tanto a razão quanto
a emoção no trabalho e ter a consciência de que trabalha com pessoas
– todos buscando os mesmos objetivos.
- Qual a relação entre felicidade
e liderança? Ser líder é distribuir felicidade?
FLORIANO SERRA - O
líder é seguido espontaneamente porque faz as pessoas sentirem-se bem –
uma das condições para a felicidade. Ser líder é saber conduzir pessoas
para os resultados buscados, de uma forma que as dignifique, respeite,
desenvolva e motive. Fatores como afetividade, bom humor, solidariedade,
espirito de equipe, ética, transparência, reconhecimento, sensibilidade
– devem estar, hoje, necessariamente unidos a competências, formação
acadêmica, habilidades, talentos e experiências. É preciso que o líder
tenha MBA ou seja PhD não só em termos acadêmicos, mas também em termos
de relações humanas. Aí ele poderá ser um distribuidor da felicidade –
sem deixar de atingir resultados.
- Você tem uma abordagem bastante
criativa e diferente sobre os aspectos emocionais que influenciam o âmbito
profissional do ser humano, inserindo a figura do "Anjo" no
contexto de trabalho. Como os anjos ajudam e influenciam os funcionários a
crescerem?
FLORIANO SERRA -
Acredito que cada pessoa tem – ou deveria ter – um motor espiritual. No
meu caso, são os Anjos. No caso do guru Stephen Covey é a leitura diária
de um trecho da Bíblia. Ou seja: não importa o nome que se dê a esse
motor espiritual - fadas, duendes, gnomos – ou Anjos. O importante, como
disse, é ter um potente motor espiritual, alimentado por crenças e valores
que preguem o amor, a alegria, o respeito, a solidariedade e a convicção
de que não estamos sós no Universo. É o que o meu amigo e prefaciador
Victor Siaulys, do Grupo Aché, chama de "gerencia angelical" ou
carinhosamente de "fórmula floriana"...Não podemos esquecer que
há um "chefão" incomparavelmente superior aos daqui da Terra.
Acreditar nisso, significa ter a humildade de reconhecer que temos limites
diante de um poder maior que o nosso, significa aceitar que ninguém tem o
monopólio da competência, da verdade e da sabedoria e que, portanto, todos
temos ainda muito a aprender – seja com o chefe, com os colegas, com os
clientes ou com os fornecedores. Mas há uma condição: só cresce quem
acredita que ainda há espaço para isso. Quem já se acha perfeito,
completo, não dará um único passo á frente. Este, tem muito a aprender,
mesmo que não perceba nem reconheça isso.
- Os gerentes devem desenvolver
características de anjos para serem bons "coachs"?
FLORIANO SERRA - Se
o que você chama de "características de Anjos" refere-se às
qualidades humanas de relacionamento, como: empatia, compreensão, alegria,
saber ouvir e sobretudo afetividade – então a resposta é
"sim". O que se espera de um "coach" é sensibilidade
para perceber quais as competências do seu funcionário que precisam ser
desenvolvidas e prestar a orientação adequada. O conceito de
"coach" ou de "counsellor" é muito interessante, uma
vez que possibilita a transmissão, com diálogo, das competências dos mais
experientes para os profissionais mais jovens ou em fase de desenvolvimento.
Trata-se de um processo de orientação e crescimento que deve ser realizado
com extrema habilidade, para que haja uma completa harmonia entre aquele que
"ensina" e aquele que "aprende" . Não cabe ao
"coach" apontar erros, mas recomendar melhorias. Não cabe a ele
descobrir falhas, mas despertar talentos. Sempre com alegria, afetividade e
interesse genuino de ajudar. Logo, uma boa dose de "anjice" no
Gerente vai ajudá-lo – e muito – na sua atividade de "coach".
- Como desenvolver a solidariedade
dentro das empresas?
FLORIANO SERRA -
Criando ou permitindo o desenvolvimento da "cultura dos Anjos" na
organização. Trocando em miúdos: a empresa depende das pessoas e
estas dependem uma das outras – é a consciência disso que inicia o
conceito de equipe. Quem participa de uma equipe deve aprender a olhar e a
ouvir os outros e, a partir daí, ajudá-los nas dificuldades e compartilhar
os sucessos e desafios. A compreensão e a prática da solidariedade no
trabalho começa aqui. Aliás, as vitórias numa empresa deveriam sempre ser
compartilhadas – não há um responsável único por elas. No
futebol, são necessários onze jogadores para que exista um artilheiro. Nem
o box é individual: há toda uma equipe na retaguarda do lutador. O cantor
que se apresenta sozinho também depende da uma infra-estrutura. No trabalho
não é diferente. O "estrelismo" é anti-equipe e
anti-solidariedade. Há empresas que publicamente assumem um clima
organizacional de guerrilha, inclusive incentivando a competição interna -
nem sempre leal. Essas empresas estão equivocadas, andando contra a História
e vão implodir a qualquer momento. A solidariedade numa empresa se
desenvolve e se alimenta a partir da cultura da vitória coletiva.
- Como trabalhar, ao mesmo tempo,
alegria e preocupação; competição e harmonia; emoção e razão na
organização?
FLORIANO SERRA -
Acho que a pergunta procurou abordar questões consideradas opostas ou antagônicas.
Sob a ótica atual, não são mais, exceto para fins didáticos. O ser
humano é essencialmente contraditório: nele habitam o medo e a coragem, a
raiva e o amor, a alegria e a tristeza – não há nada de errado nisso.
Pior que a contradição é a negação dela. O ser humano é assim e nunca
existirá um gerente autocrata que transforme seu funcionário num robô -
por mais tentativas e pressões que faça. Então, a questão pode ser
resumida desta forma: como administrar as emoções no trabalho sem
comprometer a busca de resultados? Para mim a questão é comportamental, e
portanto emocional. Na sua pergunta, você fala em Alegria (que é uma emoção),
fala em preocupação (que seguramente esconde Mêdo), competição
(certamente um disfarce da Raiva – inveja, ressentimentos) e harmonia, que
é feita de amor e alegria. Portanto, só falamos de Emoção. Resta a Razão
– sem dúvida importante e necessária no trabalho. Nenhuma empresa
viveria só de emoções – nem no campo artístico. Mas o importante é
que nada disso é excludente entre si. Na verdade, Razão e Emoção não se
opõem - se complementam. É preciso aprender e ensinar os profissionais a
conviver com essas contradições no trabalho.
- Você acha que os bons
profissionais conseguem já equilibrar sentimentos e razão, subjetividade e
objetividade, na conquista de uma meta comum ou felicidade comum?
FLORIANO SERRA -
Sem dúvida. Alguns por "feeling", outros por experiência, outros
por aprendizagem. Mas não há dúvida de que o chamado "bom
profissional", sobretudo a partir de agora, tem que ter esse perfil. Os
responsáveis pelo lucro, pela produção, pelas vendas – não deveriam
ter medo da emoção, da subjetividade, da felicidade. O homem financeiro, o
profissional de vendas ou o responsável pela produção também fica
triste, bravo, também tem medos, inseguranças – então por que eles
acham que na empresa devem se mostrar imbatíveis e durões? Por causa de
premissas falsas, de valores e paradigmas desatualizados – em geral
herdados na formação. E, claro, reforçadas e recompensadas por algumas
culturas organizacionais teimosamente ultrapassadas.
- Qual a principal qualidade que um
profissional deve ter para sobreviver hoje?
FLORIANO SERRA - Eu gosto
de dizer que é a DUALIDADE, que defino como a habilidade de tirar resultados
positivos das próprias contradições. Aqui se inclui administrar razão e emoção,
felicidade e resultados, trabalho e qualidade de vida e quaisquer coisas
consideradas antíteses. Ser DUAL é ser flexível, adaptável, capaz de
harmonizar-se com os diferentes – sem perder a individualidade. Mas para usar
uma expressão mais "empresarial", eu diria que essa qualidade
principal é a COMPETENCIA GLOBAL (TECNICA E EMOCIONAL) que significa SABER e
SENTIR. O sábio insensível é um arrogante, um sentimental inculto é um tolo.
O profissional competente técnica e emocionalmente trabalha levando em
consideração o QUANTO (produtividade/ lucro/resultados) mas sem abrir mão do
COMO (relacionamento, ética, qualidade de vida). Esse perfil dá-lhe
empregabilidade – o "estar empregado" cedendo lugar ao "ser
empregável". E sem estresse. Não adianta se pre-ocupar com
estabilidade no emprego. Isso não existe, nem para presidentes. Inclusive da
República. Conclusão: ninguém deve alicerçar sua felicidade em coisas sobre
as quais não tem poder de influência. O emprego é uma dessas coisas. As razões
que levam uma empresa a demitir fogem da influência (e ás vezes até da
compreensão) dos empregados. Portanto, para que se pre-ocupar com isto,
esquecendo o presente – que é quem de fato constrói o futuro? Para encerrar:
não esqueçamos que os Anjos também têm metas a cumprir aqui na Terra e têm
que prestar contas ao "Chefão". Nem por isso se atropelam, se
rivalizam, se estressam. O homem é um Anjo em treinamento. Com um pouco de boa
vontade, dedicação e solidariedade, ganhar as asas é só uma questão de
tempo.
(FLORIANO SERRA, é
diretor-presidente do Instituto Paulista de Análise Transacional (www.ipat.com.br)
e da SOMMA4 Consultoria. É psicólogo, consultor de empresas e escritor. Seu
livro mais recente é "O GERENTE QUE VEIO DO CÉU",lançado pela
Editora Gente. fserra@sti.com.br ou ipat@ipat.com.br
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