Humildes Vencedores
São muitos os caminhos para o sucesso. E são
paradoxais, como o próprio sucesso. A humildade, por exemplo, se reconhecida e
explorada como uma “força”, e não como uma “fraqueza”, pode ser um
elemento-chave para a formação do tipo de Líder que o planeta necessita
urgentemente e o desenvolvimento das organizações que aprendem.
A humildade favorece o reconhecimento das oportunidades de melhoria. No pólo
oposto, a arrogância se constitui num grande inimigo do aprendizado. “É
impossível despertar um homem que finge estar dormindo” já diziam os índios
navajos, lembra Fredy Koffman (que trabalhou com Peter Senge no MIT) em sua obra
sobre Metagestão.
O sucesso corporativo se nutrirá cada vez mais de virtudes como a integridade e
a humildade, argumenta Robert Solomon em sua obra sobre ética empresarial. Na
filosofia chinesa a palavra que designa “virtude” (Te, em chinês) também
é entendida como “potência”. Para Aristóteles a virtude é o meio-termo
entre o “excesso” e a “deficiência” de um traço característico da
natureza humana. Segundo Solomon humildade seria resumidamente “não pensar de
maneira excessivamente elevada sobre si mesmo e procurar dar crédito aos outros
quando for pertinente”. Quando em excesso é autoflagelo, humilhação.
Havendo deficiência é arrogância, falso orgulho, autoritarismo, atrevimento.
Existiriam afinal evidências concretas de que a humildade é uma virtude
relevante e pertinente para a gestão eficaz e o sucesso das organizações?
O modelo Líder Nível 5 pode ajudar a responder essa indagação: um indivíduo
que alia extrema humildade pessoal a uma firme vontade profissional. Este foi um
dos resultados de um projeto que consumiu 15 mil horas, durou cinco anos
(1997-2001), e analisou o desempenho de 1.435 empresas num período de 30 anos.
O trabalho contou com um equipe de 21 pessoas coordenada por Jim Collins - autor
de “Feitas para Vencer” e co-autor de “Feitas para Durar”. Segundo
Collins o estilo de Liderança Nível 5 “vai contra os ditames do senso comum
– particularmente contra a crença de que precisamos de salvadores da pátria
com personalidades fortes para transformar as organizações”.
Mas, quando aqui lançamos um olhar sobre a humildade mais como “força” do
que como “fraqueza”, não é a ausência ou presença de determinado tipo de
brilho ou magnetismo na personalidade que nos interessa ressaltar. Numa civilização,
em que a supervalorização da “aparência” muitas vezes impede a valorização
da “essência” o resgate da humildade como uma força é algo promissor.
Entretanto, seguindo o conselho milenar do sábio líder espiritual Jesus
precisamos ter os “olhos de ver”, pois uma pessoa aparentando modéstia pode
ser extremamente arrogante. Da mesma forma, o carisma de um líder não o impede
de ser humilde. O ex-presidente Juscelino Kubitscheck é um exemplo segundo
relato minucioso de Cláudio Bojunga- diretor da TV Educativa, que num trecho de
sua obra sobre JK cita um comentário de Antonio Houaiss (ex-presidente da
Academia Brasileira de Letras) que sugere o perfil deste grande líder político
brasileiro: “... ficava ouvindo em silêncio posições divergentes dos
auxiliares, confiando mais nas objeções do que no louvor direto... Recebia
informações novas, redisciplinando seu espírito”.
Assim, a identificação da força da humildade está mais na “essência” do
que na “aparência”. Além disso, há um aspecto paradoxal e binário
inerente ao conceito de humildade como força. Por um lado, significa reconhecer
a própria “pequenez” (limitações) Por outro lado, significa auto-afirmação
- reconhecer a própria “grandiosidade” (imensas potencialidades). Os
humildes vencedores são aqueles que buscam o equilíbrio entre essas tendências
opostas e complementares. Eles aprendem continuamente. Aprendem a “gostar do
que fazem” mas buscam a própria vocação para “fazer o que gostam”. Numa
entrevista concedida à imprensa em 1984, o grande poeta Carlos Drumond de
Andrade disse que não se sentia propriamente um escritor, mas uma pessoa que
gosta de escrever.
A humildade como princípio ético de gestão é um diferencial para os líderes
do futuro, pois o sucesso duradouro das organizações dependerá de sua
capacidade de valorizar a cooperação e as pessoas que saibam vencer a si
mesmas.
Antonio Carlos A. Telles
Consultor de Ética e Desenvolvimento Organizacional, Diretor da Abissal
Consultoria e membro do World Business Academy.
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