"Valéry tem hoje
muito mais razão do que no passado. Enquanto na maior parte do século XX as
pessoas viviam obcecadas pela crença de poucas oportunidades de trabalho para
uma população sempre crescente, o próximo século será marcado pela
escassez de trabalhadores. Entretanto, este momento atual de reengenharias,
demissões, atividades que desaparecem, afeta de forma adversa a vida de muita
gente e produz medos semelhantes aos que a Depressão de 1929 provocou nas
pessoas. O que precisamos compreender é que as circunstâncias de hoje são
completamente diferentes de outras do passado e as perspectivas para o futuro
são substancialmente melhores para o mercado de trabalho – simplesmente
porque a população mundial vai cair acentuadamente. Só precisamos é não
deixar que a parte triste desta mudança nos contamine e cumprir a
responsabilidade de nos prepararmos para este novo mundo através de uma educação
séria. Hoje essa demanda por educação já se mostra bem evidente. As
melhores e mais bem remuneradas ofertas de trabalhos não conseguem ser
preenchidas por recém formados cuja capacitação está muito aquém do que
as empresas necessitam."
Esta foi a abertura da
brilhante palestra de Herbert I. London, presidente do Hudson Institute -
reconhecida instituição de estudos prospectivos criada por Hermann Khan -,
durante a conferência de 1999 da World Future Society. Além da objetividade
com que abordou o futuro, o tema escolhido parece ter sido feito sob medida
para nós brasileiros: o mal que a insistência na divulgação e no consumo
da versão pessimista das notícias provoca nas pessoas. Para mostrar como
este foco único deturpa perniciosamente as expectativas que criamos quanto ao
futuro London, em suas freqüentes palestras em universidades, dirige sempre
três perguntas-pesquisa aos alunos que, em geral, as respondem da forma
computada abaixo:
- Vocês acham que vão ser bem sucedidos no
futuro?
Invariavelmente, uma
maioria de 95% dos estudantes costuma responder que sim.
- Vocês acham que os EUA serão bem
sucedidos no futuro?
Nesta, as
respostas positivas costumam cair para cerca de 55%.
- Vocês acreditam que o resto do mundo será
bem sucedido no futuro?
Nesta última,
o resultado habitual despenca para 25%.
Para o palestrante, os
estudantes demonstram com suas respostas não só uma absoluta falta de lógica
na análise das notícias como também refletem o viés de pessimismo que está
contaminando a nossa cultura e faz a festa dos que ganham ao divulgá-las.
Esta expectativa capenga de um futuro individual magnífico em meio a um mundo
que desmorona se assemelha à de um passageiro que viajando na primeira classe
do Titanic, vê o navio afundar mas acredita piamente em sua sobrevivência.
Em sua cruzada contra o
negativismo, London adota um estilo rolo-compressor em suas apresentações,
rebatendo com uma lógica brutalmente simples todo e qualquer argumento
pessimista relacionado aos grandes temas do futuro. Desfilando seu fantástico
conhecimento enciclopédico e uma facilidade impressionante para argumentar,
nesta palestra concentrou sua metralhadora giratória sobre o que denomina
"profecias lúgubres" da moda, relatadas a seguir:
- Nós vamos em breve enfrentar uma tremenda
superpopulação no mundo
- na última
semana de julho a CBS americana levou ao ar um programa sobre este tema;
- As terras aráveis estão acabando no
mundo
- a frase do Vice
Presidente americano Al Gore, "estamos perdendo 58 acres de terra arável
por hora", é na opinião de London, síntese da tendenciosidade com
que o tema é tratado;
- Estão terminando as reservas de energia e
recursos minerais do mundo
;
- Esta aumentando o
gap
entre ricos e pobres.
A divulgação sistemática
destas questões como ameaças insolúveis, fora de um contexto de transformação,
tem o poder de imobilizar as pessoas – sentem-se impotentes diante dos fatos
– e cria na mente de nossos filhos uma visão extremamente deturpada do
mundo futuro. Segundo a mídia, vivemos em uma sociedade sofredora pelo uso
extremado e indevido de tecnologias, com problemas de superpopulação e falta
de alimentos, com problemas evidentes de falta de energia etc.
No limite, que tipo de
informações nossos jovens estão recebendo como heranças? Que mudanças estão
ocorrendo hoje cujas histórias têm sido relatadas de forma tão deturpada
por essas negras profecias? Para London, estas são questões que todos
devemos ter em mente quando pensamos em nossos filhos. Para ele, a análise
fria dos fatos mostra que estamos passando por uma fase de criação e morte
de várias instituições. É um período de intensa criatividade destruidora
em que novas organizações vão surgir e outras vão morrer. À medida que a
gente faça, por exemplo, mais compras pela Internet, estamos provocando
maiores mudanças para os shoppings e lojas de varejo. Se subitamente
todos passassem a utilizar a Internet, as demais instituições tradicionais
deixariam de existir e os investimentos a elas direcionados estariam todos
perdidos.
O momento atual se assemelha
portanto ao momento inicial de formação de uma gigantesca onda de mudança
cujas oportunidades serão enormes para o escasso e valioso capital humano do
futuro desde que adequadamente educado para aproveitá-las.