Luz No Fim Do Túnel
"A
luz no fim do túnel não é o trem que vem em sentido contrário mas a
lamparina do sinaleiro para avisar dos perigos do apagão"
Pegando carona no comercial de TV,
onde um bando de siris mostra a bunda, depois de atacar a lata de cerveja,
alerto que se não pouparmos energia, em vez de calça de veludo, estaremos
literalmente com a poupança de fora.
Há mais de 10 anos venho
difundindo conceitos para combater o desperdício nas indústrias, citando como
exemplo as perdas de água e energia nos lares brasileiros. Eis que de repente,
ganho um aliado inesperado, e de âmbito nacional, na cruzada contra o desperdício:
O MEDO DO APAGÃO. Conduzido pela mídia, o medo do "apagão"
contaminou a população de norte a sul, e está contribuindo para mudar
rapidamente o comportamento de desperdiçadores que nós brasileiros sempre
tivemos.
Preocupados em ficar no escuro,
medo que os assola desde a infância, indivíduos de diferentes classes sociais
estão se mobilizando, para contribuir para redução do consumo, evitando o
corte de energia. Entretanto, mais importante do que a participação
irrestrita, é o nível de conscientização que esta sendo gerado, para
racionalizar o consumo de energia e evitar o "apagão". Antes tarde do
que nunca! Agora nos demos conta, de que os desperdícios do dia à dia, podem
nos afetar diretamente, mesmo quando consideramos, erroneamente, que o hábito
de desperdiçar é um direito adquirido.
O Brasil sempre foi um dos campeões
mundiais de desperdícios. Contribuíram para isso razões de natureza cultural:
Pero Vaz de Caminha já comentava há 500 anos atrás: "Nesta terra em se
plantando tudo dá! Ora pois, pois!!!" Por outro lado, o fato de nunca
termos tido grandes problemas de escassez, e sermos privilegiados por abundância
de recursos naturais, é que agora estamos com a bunda de fora. É popozuda! É
popozuda!
Nossa cultura do desperdício
ultrapassa os números mais conservadores. Em processos onde se faça uma análise
crítica, os desperdícios chegam a atingir níveis superiores a 30%. Basta
implantar controles eficazes, e sensibilizar os responsáveis, para eliminar
estas perdas, como num passe de mágica.
Agora que o assunto passou a ser
discutido na boca pequena, é que vemos os absurdos praticados pela sociedade
brasileira de consumo, em nome do que se convencionou considerar como lazer e
qualidade de vida. Famílias da classe abestada, digo abastada, convivem em
harmonia com 4 geladeiras, 6 televisores, 2 fornos de micro ondas, 2 freezers, 1
secadora de roupa ( em plena casa ensolarada no Rio de Janeiro ), e pagam mais
de R$ 1.000,00 ( mil reais ) por mês só de conta de luz.
Apesar de este ser um exemplo de
família privilegiada de classe "A", quando descemos para as classes
"B", "C" e "D", só varia o patamar de consumo,
porém o nível de desperdício é o mesmo. São banhos demorados com chuveiro
elétrico, televisor ligado o dia inteiro, profusão de luzes acesas, tanquinho
de lavar roupa e ferro elétrico usados diariamente de modo improdutivo.
Numa pesquisa que realizei, com os
participantes de seminários de desperdício, constatei que uma pessoa gasta em
média 20 minutos para tomar um banho. Na realidade seria necessário a metade.
Naquela condição, considerando uma família de 4 pessoas, em que cada indivíduo
toma 1 banho por dia, teríamos um consumo mensal de aproximadamente 136 kwh/mês,
estando o chuveiro elétrico regulado para a posição verão, e 175 kwh/mês na
posição inverno.
Se considerarmos ainda que nesta
atividade são esbanjados 12.000 litros de água por mês, transferidos por
bomba para a caixa superior, concluímos que só para o banho nosso de cada dia,
uma família pode atingir a marca de consumo de 200 kwh/mês.
Fugindo, porém, da linha de soluções
radicais e processos jurídicos que só privilegiam uma minoria, mas não
resolvem a essência do problema, gostaríamos de contribuir com sugestões
estruturadas, para racionalizar a falta de energia e diminuir as pesadas multas
em consideração.
O primeiro passo é criar uma
atitude pró-ativa, com vontade firme para atacar as causas do problema de
frente. Se você não estiver convencido que está fazendo isso para o próprio
bem, nem comece: ao menos poupe sua energia. Em vez de ficar aguardando a
informação da média de consumo fornecida pela concessionária, basta
consultar na conta do último mês, que tem o consumo, mês a mês, dos últimos
12 meses, e calcular a meta de 20% de redução.
O segundo passo é instituir
imediatamente algum tipo de controle diário, ou semanal para acompanhar o
consumo, e evitar surpresas na próxima conta. Depois da casa arrombada não
adianta colocar tranca na porta. Recomendo o controle diário, porque no dia à
dia existem variações de consumo substanciais, em função do uso específico
de determinados aparelhos. O controle diário permite associar o consumo de
energia aos tipos e tempo de uso dos aparelhos.
O terceiro passo é identificar
quem são os maiores responsáveis pelo consumo de energia. Não basta
considerar só a capacidade de determinado aparelho em consumir energia. É
preciso avaliar a quantidade e o tempo de uso. Por exemplo: 10 lâmpadas de 60
watts, ligadas 10 horas por dia, consomem aproximadamente 180 kwh/mês, o que
representa mais do que o consumo mensal estimado anteriormente para o chuveiro
elétrico.
A partir daí basta usar o dedinho
para desligar tudo que está sendo usado de forma pouco produtiva. Como por
exemplo lâmpadas acesas e aparelhos ligados fora da área de uso; excesso de
iluminação em áreas de uso comum; carregadores de bateria, telefones sem fio,
luzes de stand by. Enfim, basta uma passada, com visão crítica, pelos diversos
cômodos da casa para identificar de imediato os geradores de desperdício.
Desligue-os de imediato, independente de quanto consomem. O que importa é que
estejam consumindo energia sem desempenhar sua função específica.
Estas quatro etapas são
suficientes para proporcionar uma economia de mais de 20%, em 80% dos casos de
desperdício de energia. Entretanto se isto não for suficiente, você terá que
partir para reduções mais radicais no tempo de uso efetivo, e até na
substituição dos aparelhos de maior consumo por produtos similares mais econômicos.
Portanto elimine já o seu
"apagão" mental. E se estas medidas não forem suficientes para
ajudar o governo a sair das trevas da incompetência tecnológica, com certeza
estaremos dando um paço decisivo para diminuir nossa capacidade de desperdiçar,
contribuindo para melhorar nossa poupança.
Se apesar disto tudo, tivermos
ainda que conviver com o corte de energia, só nos resta colocar a bunda na
janela na hora do "apagão" para protestar contra os dirigentes
inertes, com cara de bunda, que nos levaram a esta situação, e gritar a pleno
pulmão: NHE! NHE! NHEEM!
- Consultor - Paulo Décio
Ribeiro - Consultor do Instituto MVC - Estratégia e Humanismo
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