Marketing em Tempo Real - Sua Empresa Está Preparada para Isto?
Marketing em Tempo Real - Sua Empresa
Está Preparada para Isto?
Tecnologia e práticas
gerenciais estão sendo combinadas para criar uma nova forma de marketing,
chamada de Real-Time Marketing - marketing em tempo real - na qual
produtos e serviços, além de atender às necessidades e desejos únicos e
exclusivos de cada cliente, vão continuamente aprendendo com esses clientes,
garantindo sua satisfação ampla e permanente. No marketing em tempo real, os
produtos e serviços não são apenas customizados para os clientes, mas tem a
habilidade de se desenvolver ao longo do tempo, reagindo às mudanças nas
necessidades e desejos dos consumidores. O marketing em tempo real é
eminentemente descentralizado, uma vez que as adaptações ocorrem localmente,
baseadas na interação direta entre o produto e o consumidor. O marketing em
tempo real integra e estende tanto a customização em massa (também chamado de
marketing um-a-um) e o marketing de relacionamento.
A grande vantagem para as
empresas pioneiras na prática do marketing em tempo real é que terão a
possibilidade de tornar seus clientes leais, criando altos trade-offs que
dificultarão a sua decisão de mudar de fornecedor. O grande desafio –
notadamente nesta época em que prestar serviços é essencial – será fazer
com que as pessoas da organização se integrem a nova sistemática e modifiquem
seus comportamentos, que deverão estar orientados para a agregação contínua
de valor para o cliente.
As vantagens competitivas
obtidas por organizações como a BMW e Microsoft nos permitem afirmar que, em
função do seu poder de desenvolver a lealdade do consumidor, o marketing em
tempo real brevemente se transformará no paradigma dominante para um
significativo número de organizações que pretendem se destacar em um mundo
cada vez mais global.
A evolução do conceito de
marketing
O marketing passou por várias
etapas até o surgimento do conceito de Real Time. Até a década de 50, a
oferta de produtos e serviços era – de modo geral – bastante inferior a
procura. Eram tempos em que a grande ênfase das empresas produtoras de bens e
serviços estava na ampliação da produção, sem que existissem maiores
preocupações com a qualidade daquilo que se oferecia ao mercado.
Em 1955, Peter Drucker, no seu
célebre The Practice of Management, captava significativas mudanças na
relação oferta X demanda e afirmava que "em particular, a nova tecnologia
demanda que os gestores criem os mercados para seus produtos. A gestão não
pode se manter satisfeita com os mercados existentes e não pode mais pensar que
o ato de vender significa somente encontrar alguém disposto a comprar o que nós
produzimos. É preciso criar mercados através de um trabalho conciencioso e
sistemático. Acima de tudo, é preciso focar continuamente na criação de um
poder de compra massificado, criando hábitos de compra massificados." O célebre
professor austríaco continua no parágrafo seguinte afirmando que "o próprio
marketing é afetado pelos conceitos básicos da nova tecnologia. Nós
discutimos aqui a automação como se fosse exclusivamente um processo de produção.
Entretanto ela é mais do que isso, pois trata-se de um princípio de trabalho
em geral. Entretanto, os novos métodos de marketing de massa podem requerer uma
maciça aplicação dos princípios da automação ... o próprio marketing está
rapidamente se transformando em um processo integrado."
Inspirados pelos conceitos de
Drucker, os primeiros profissionais de marketing partiram para determinar formas
de gerar comportamentos massificados de compra. Utilizando-se principalmente da
propaganda, passaram a estimular o consumo das mais variadas formas.
Embora os avanços tecnológicos
já fossem expressivos nesta época, a realidade é que - em função de fenômenos
como o baby boom - os mercados continuavam apresentando uma procura
superior a capacidade de oferta agregada. Com isso, era possível focar os esforços
apenas no aumento do número de transações, não havendo uma preocupação
preponderante com a manutenção dos clientes – afinal, caso perdessem alguns
consumidores, as empresas sabiam que a demanda por seus produtos continuava
assegurada por todos aqueles que ainda não haviam conseguido saciar suas
necessidades de consumo.
É interessante destacar que
muitas empresas brasileiras ainda vivenciam este paradigma. Vários setores da
nossa economia ainda são monopólios ou cartéis formados por pouquíssimas
empresas. Esta deformação de mercado permite a adoção de uma política que
ignora a soberania do cliente quanto às suas escolhas. Na verdade essas
empresas não acham que tem clientes a atenderm mas apenas reféns que
precisam ser "administrados". Podemos encontrar diversos exemplos para
essa afirmativa analisando o comportamento de algumas de nossas companhias aéreas,
a maioria das operadoras de serviços telefônicos e - de uma forma geral -
todos os chamados "serviços públicos" - que mesmo sendo, hoje,
operados por empresas privadas, continuam ignorando solenemente as demandas do
mercado e submetendo a população a apagões e outros suplícios de igual
monta.
Mas considerando o cenário
mundial, verificamos que o tempo passa, o avanço tecnologico prossegue de
maneira exponencial e já no início dos anos 80 – 1983, para ser exato -
Theodore Levitt, célebre professor da Harvard Business School, afirma no seu
famoso livro A Imaginação de Marketing que marketing significava
conquistar e manter clientes. Esse conceito extremamente simples na sua formulação,
sintetizava uma idéia bem diferente daquela que Peter Drucker prenunciara. Não
era mais suficiente gerar mercados e hábitos de compra massificados. Não havia
mais clientes em profusão, com necessidades ainda não atendidas. Na verdade o
desenvolvimento tecnológico acelerado – que acabou por intensificar cada vez
mais a concorrência - conseguiu fazer com que o mercado acabasse por ser
abastecido de maneira mais ou menos homogênea. As situação mudou e as
empresas passaram a perceber que se perdessem um cliente, não haveria outro
"na fila" para tomar o seu lugar.
A partir desta constatação, o
marketing passou a valorizar mais os instrumentos de planejamento, uma vez que
começava a se travar uma verdadeira guerra pelo mercado (prova disso é que a
metáfora militar passou a ser freqüentemente utilizada pelos profissionais da
área, dando origem a livros como Marketing de Guerra, Marketing de Guerrilha e
outros).
Novamente é importante
salientar que muitas empresas brasileiras ainda se utilizam das metáforas
militares para orientar suas estratégias de mercado. Visualizando os
concorrentes como um inimigo a ser derrotado e os mercados como territórios a
serem conquistados essas empresas estão o tempo todo "treinando" seus
colaboradores – exércitos? – em atividades facilmente comparáveis a
manobras militares. Na verdade, todo este esforço acaba mais por condicionar do
que por desenvolver os reflexos de quem deles participa. Surge então a
necessidade de chefes fortes, que dominem com competência a célebre teoria da
"cenoura e do cacete". Capazes de exigir uma obediência a toda a
prova, esses verdadeiros "sargentões" acabam por drenar com uma
rapidez espantosa toda a energia de sua equipe. Em pouco tempo tornam-se
comandantes de um verdadeiro "exército Brancaleone".
Mas a concorrência continua a
aumentar e muitas empresas continuam a se desgastar numa verdadeira guerra de
trincheiras, até que, em 1991, uma nova abordagem ao mercado foi proposta por
Regis McKenna, um ex-executivo do Vale do Silício. Em seu livro intitulado Marketing
de Relacionamento, McKenna afirmava que "nos dias de hoje o marketing não
pode ser separado do desenvolvimento de produtos, da produção, das finanças e
das vendas. As empresas bem sucedidas tem que estar dispostas a adaptar seus
produtos e serviços às necessidades dos clientes. Forjando uma nova relação
entre cliente e empresa, o profissional de marketing eficaz atuará como
integrador, trazendo o cliente para dentro da empresa, como participante ativo
do desenvolvimento desses bens e serviços."
Alguns profissionais de
marketing percebem imediatamente que a proposta de McKenna provavelmente
representava o início de um novo paradigma que regeria as relações entre as
empresas e seus clientes. Observando a questão de uma perspectiva interna,
passam a visualizar a importância de se buscar uma maior sinergia entre as áreas
de recursos humanos, informática e finanças. Começa aí uma busca incessante
por uma nova arquitetura organizacional, capaz de integrar diversas funções
que até então eram vistas como exclusivas de um determinado departamento. Os
profissionais de recursos humanos, por exemplo, começam a se engajar ativamente
nos esforços mercadológicos de conquista e retenção de clientes. As áreas
de sistemas começaram a apresentar freqüentemente opções que permitissem
"agregar valor" – expressão que se popularizou rapidamente – para
o cliente.
No Brasil este é o estágio no
qual se encontra a maioria das empresas. Foco nos processos, reengenharia,
programas de qualidade e análise de valor são os principais motes de nossas
organizações. Percebe-se imediatamente uma mudança significativa na qualidade
do relacionamento das empresas com seus mercados. Estruturas funcionais são
substituídas por novos arranjos com características matriciais. Estimula-se o empowerment.
Decreta-se o fim das chefias e a ascenção das lideranças. A metáfora
militarista arrefece, dando lugar a uma nova visão do relacionamento das
empresas com seus fornecedores, intermediários e clientes. Percebe-se um certo
alívio no clima interno, afinal nenhum empreendimento pode viver uma situação
de beligerança eterna.
Por outro lado, um fantasma
antevisto por Keynes já na década de 30 sai definitivamente do armário: o
desemprego tecnológico. Se o estado de prontidão permanente vivido durante os
"anos de guerra" já havia produzido um grande desgaste no moral das
equipes, a angústia e expectativa gerada pelo fim do pacto capital X trabalho -
que vigorara desde os primórdios da Revolução Industrial - foi uma verdadeira
ducha fria no ânimo daqueles que, direta ou indiretamente, deveriam estar
integralmente voltados para a busca incessante do encantamento dos clientes.
Convocados para atuar como
bombeiros, os profissionais de marketing e de recursos humanos passam a
concentrar seus esforços na construção de um clima interno motivador. Algumas
empresas – o HSBC/Bamerindus é um exemplo – mesmo tendo reduzido
significativamente o número de empregados vêem suas despesas de pessoal
crescerem ao invés de diminuir. Outras optam por aproveitar o excesso de oferta
de mão de obra – e consequente queda de preço do trabalho – e renovam
parte substancial de seus quadros. Os primeiros balanços não são animadores.
Empregados melhor remunerados porém inseguros não são produtivos. Corpo
funcional renovado depende de tempo para aprender a cultura da organização,
conhecer suas políticas e idiossincrasias e .... começar a produzir. Enquanto
isso, os clientes se submetem a ser atendidos por gente mal humorada, insegura e
acima de tudo, infeliz.
Para complicar ainda mais o cenário,
dois anos depois do livro de McKenna, Don Peppers e Martha Rogers – ele um
respeitado executivo da área de comunicação e ela professora de marketing na
Bowling Green State University, em Ohio – propunham que, ao invés de buscar
vender seus produtos ao maior número possível de pessoas, as empresas deveriam
buscar vender mais bens a um menor número de pessoas.
O que Peppers e Rogers
propunham é que as empresas precisavam desenvolver mecanismos que lhes
permitissem aprender com seus clientes e rapidamente responder as mudanças em
suas necessidades e desejos, processando as alterações necessárias nos
produtos e serviços para que pudessem se adaptar as novas demandas.
A proposta de Peppers e Rogers
determinava a morte da ênfase exclusiva na transação. Para aumentar o share-of-pocket
– ou seja, o a participação da empresas nos gastos de cada cliente –
é fundamental fortalecer o relacionamento com cada consumidor. O problema é
que as relações entre pessoas são construídas em cima do tripé confiança,
credibilidade e empatia. Para operacionalizá-lo é preciso que todos os
colaboradores da organização estejam comprometidos com o sucesso do cliente. Não
bastam sistemas, processos e parâmetros. Não adianta trabalhar apenas a dimensão
cognitiva, mas é preciso trabalhar aspectos afetivos deste relacionamento. Em
outras palavras: na customização em massa é preciso que as pessoas da
organização estejam comprometidas.
O mercado assistia e respondia
– embora de maneira cada vez menos efetiva – a cada uma dessas mudanças de
enfoque. Na verdade, a cada nova expectativa de que as empresas realmente
passassem a ser orientadas segundo a promessa original de marketing –
satisfazer as suas necessidades – o que aconteciam eram novas decepções,
originadas da percepção de que as organizaçòes continuavam vendo seus
clientes apenas como uma espécie de massa de manobra, que deveria ser
manipulada.
Paralelamente, as necessidades
e demandas destes clientes se sofisticavam, sua paciência se esgotava e, em
consequência, ia se criando uma legião de consumidores que tinham uma
dificuldade cada vez maior de ficar plenamente satisfeitos com o que lhes era
oferecido.
O cliente nunca fica satisfeito
"Quero que o produto/serviço
dos meus sonhos seja oferecido aqui e agora, feito especialmente para mim e do
jeito que eu gosto." Muito provavelmente essa seria a afirmação que ouviríamos
caso nossos consumidores fossem convidados a descrever suas expectativas em relação
aos nossos produtos/serviços.
Se utilizarmos o raciocínio
convencional de marketing, concluiremos que é praticamente impossível atender
uma demanda deste tipo. Podemos mesmo imaginar que, caso envidemos todos os
esforços para fazê-lo, podemos ficar submetidos a uma espécie de tirania do
cliente, que ficaria cada vez mais exigente, nunca se satisfazendo com aquilo
que oferecemos e querendo sempre mais.
Como podemos depreender o
conceito de marketing parece condicionar um procedimento mais ou menos padrão
para a maioria das empresas: baseadas em dados obtidos através de pesquisas
mercadológicas, viabilizam uma determinada tecnologia que lhes permita oferecer
um produto/serviço ao mercado. Aguardam o feedback do cliente a respeito
deste produto/serviço e fazem as alterações solicitadas. Aguardam para
ver o efeito que as alterações geraram no comportamento de compra do mercado,
fazem novas alterações, aguardam mais um pouco para avaliar os
resultados, fazem novas adaptações ... aguardam ... e ficam dando
voltas em torno de si mesmas, tal qual a serpente mitológica que morde o próprio
rabo. Enquanto essas empresas se esforçam para agradar – num primeiro momento
a grandes segmentos de mercado e depois aos indivíduos - o consumidor
rapidamente perde a paciência de esperar e prefere "tentar" uma nova
opção, oferecida pelo concorrente.
Por mais que tal realidade
possa incomodar, parece que não há como agir diferente, pelo menos no setor de
produtos. Na prestação de serviços, a característica de haver sempre uma
interação entre o fornecedor e o cliente permite que o primeiro busque
perceber rapidamente as variações nas necessidades e humores dos clientes e
tente se adaptar, da melhor maneira possível, ao perfil do cliente que está
sendo atendido no momento. Mas isso só é possível em situações nas quais há
tempo suficiente de interação para que o prestador de serviços possa perceber
e improvisar algumas mudanças. Mas com produtos o mesmo não acontece. Afinal,
as máquinas não são como os seres humanos e para funcionar dependem de
determinados parâmetros que precisam ser pré-estabelecidos.
Surge o Marketing em Tempo Real
Antes de detalharmos conceito e
desafios inerentes a prática do marketing em tempo real, tentaremos, através
de dois exemplos, demonstrar como sua concepção é totalmente diferente das idéias
típicas do marketing de transação, de relacionamento e da customização em
massa.
Marketing em tempo real é uma
abordagem na qual produtos e serviços personalizados continuamente atualizam a
si mesmos, através do monitoramento das transformações das necessidades e
desejos dos consumidores, sem que seja preciso a intervenção do pessoal da
empresa que está fornecendo esses produtos e serviços. Na verdade, não é
preciso sequer que o consumidor expresse sua vontade de que esses produtos e
serviços mudem, eles reconhecem essa vontade por si mesmos e providenciam as
alterações necessárias.
Assim, no marketing em tempo
real, os profissionais de marketing atendem seus consumidores com (a) produtos
que são customizados para suas necessidades atuais e que possuem a capacidade e
flexibilidade de se adaptar sozinhos a novas necessidades e preferências dos
consumidores; (b) continuamente interagindo com o consumidor garantem a satisfação
pós-compra sem a necessidade de qualquer interveniência do fornecedor
original.
Para tornar o marketing em
tempo real economicamente viável, é preciso operar alterações tecnológicas
no produto/serviço. Na verdade, é preciso torná-los inteligentes, no sentido
de capazes de aprender com os próprios clientes. Vários exemplos começam,
pouco-a-pouco, a aparecer. A Mitsubishi equipou seus carros da série HSR IV com
diversos ítens que se adaptam as características individuais de cada motorista
que está dirigindo o carro: o sistema de transmissão-freios-tração
automaticamente "aprende" o estilo de quem está dirigindo e se ajusta
para oferecer a melhor performance possível. O painel automaticamente se
reagrupa para oferecer a cada motorista a melhor visibilidade possível dos
instrumentos. O banco se posiciona de forma tal que ofereça o maior conforto e
praticidade possível, em função das características físicas do motorista.
Outro exemplo interessante são
os processadores de texto e planilhas eletrônicas que se ajustam ao serviço
que está sendo realizado, oferecendo automaticamente alternativas mais
adequadas para uma melhor realização das tarefas que estão sendo propostas.
A verdade é que, hoje, já não
nos assusta mais a idéia de ter um televisor que aprenda sobre nossos hábitos
e se ligue automaticamente na hora que começa o nosso programa predileto e vá
aprendendo como preferimos posicionar o controle de volume ou de brilho.
São dois os desafios que o
marketing em tempo real impõe aos profissionais de marketing: (a) oferecer
produtos ou serviços que sejam simultaneamente customizados e adaptáveis; (b)
desenvolver mecanismos que permitam freqüentemente lembrar aos consumidores
sobre qual foi a empresa capaz de lhes oferecer aquele produto, garantindo que
da próxima vez que este consumidor for assaltado por uma necessidade, vá optar
por aquele fornecedor para satisfazê-la.
Hoje em dia, tempo e espaço se
unem numa única dimensão, exigindo que nos tornemos capazes de aprender com o
consumidor no mesmo momento que estamos lhe vendendo um produto ou prestando um
serviço, assegurando sua satisfação imediata, única forma de fidelizá-lo.
Para isso temos que abrir mão de técnicas de marketing praticadas até uns
poucos anos atrás, mas que não são mais capazes de responder positivamente à
sofisticação das necessidades dos consumidores.
Contudo, o maior desafio ao
marketing em tempo real não é de natureza técnica.
A grande dificuldade, que
precisará ser enfrentada de frente pelos profissionais de marketing e recursos
humanos e garantir que a tecnologia seja suportada por comportamentos e atitudes
das pessoas das organizações. De que adianta ter um produtos fantástico, se o
cliente é mal atendido?
Apenas para ilustrar um dos
diversos paradigmas que precisarão ser revistos pelas organizações para se
preparar para o marketing em tempo real, propomos que se analise três aspectos
básicos do relacionamento das empresas com seus empregados: a motivação, os
sistemas de recompensa e o ambiente organizacional.
a) Motivação
Para que esta análise fique
consistente, um primeiro passo é tomar conhecimento dos resultados de pesquisas
que vêm sendo realizadas sobre o desempenho das pessoas no trabalho,
principalmente quanto aos aspectos que dizem respeito à motivação.
Tais pesquisas indicam que o
ser humano não é regido por leis exatas e que a existência de motivação
para o trabalho se dá pelas mais diferentes razões internas de um indivíduo.
As pessoas possuem necessidades diferentes entre si e buscam satisfação de
formas diversas. Estas necessidades dizem respeito a suas vivências
individuais, conforme apontou Freud, possuem uma lógica interna própria e o
que podemos observar são suas reações a estas vivências, enquanto produto
final de um processo de longo tempo. Cada pessoa traz, então, para o convívio
com os outros, perspectivas e visões da vida e do mundo distintas, a partir das
quais se organiza para atender suas necessidades.
Portanto, os mitos em torno de
motivar pessoas carecem de fundamento. Se o que motiva não é dado de fora para
dentro, mas se encontra no interior das pessoas, é lá que suas fontes de
motivação devem ser buscadas.
Do ponto de vista do interesse
de marketing e RH, o que se pode fazer é criar um ambiente onde o desejo
interno de fazer algo possa ser nutrido; considerando que o desejo interno varia
de pessoa para pessoa, trata-se de desenvolver empatia - a habilidade de
identificar as motivações individuais do outro - e criar um ambiente
organizacional que conviva com múltiplos valores, possibilitando a cada um
desenvolver suas próprias motivações.
O resultado de tal ambiente não
é composto por um comportamento uniforme ideal, mas uma multiplicidade de
comportamentos individuais, considerados bem-vindos à vida da empresa e ao
atingimento de resultados. A implicação prática de um ambiente deste tipo é
que se exige do exercício da liderança maior compromisso com a prática da
negociação em todos os níveis da empresa. Daí surge a primeira pergunta:
somos capazes de negociar interna e externamente visando garantir que nossos
colaboradores estejam comprometidos com o sucesso de nossos clientes?
b) Sistema de recompensa
Os sistemas de premiação por
desempenho nas empresas têm sido criticados por alguns autores por enfatizarem
resultados a qualquer custo (estimulando práticas nem sempre saudáveis entre
os funcionários), por não considerarem os fatores de motivação intrínseca
dos indivíduos e por apresentarem resultados a curto prazo, em detrimento de
uma revisão da administração praticada pelas empresas. Em resumo, para tais
autores, os sistemas de recompensas utilizados como fator de motivação de seus
empregados encobririam, no fundamental, sua má administração (representada
por um ambiente organizacional que não propicia elementos para o
desenvolvimento das motivações intrínsecas).
Sistemas de recompensas, em
geral, partem da concepção de que é necessário reter bons empregados
oferecendo-lhes benefícios adicionais ao salário. Tem objetivos claros:
oferecer aos empregados uma direção a ser perseguida por todos - a de que
todos ganham quando a empresa ganha. Poderíamos dizer que esta é a
"mensagem" do sistema de recompensas.
O problema é que, daqui para
frente, não haverá grandes ganhos financeiros a serem repartidos. Surge então
a segunda pergunta: nossos colaboradores estão preparados para ser
recompensados por seu empenho através de outras formas que não apenas a
financeira?
c) Ambiente organizacional
Para alguns estudiosos da
Teoria das Organizações, o ambiente organizacional proporcionado pela empresa
moderna, orientado para resultados econômicos, retirou dos indivíduos o lugar
que ocupavam anteriormente na vida social. A produção não só tomou o espaço
central da vida moderna, mas expandiu-se para as outras esferas da vida,
deixando aos indivíduos pouco tempo para o lazer, para as atividades familiares
e comunitárias.
O indivíduo passou a se ver e
a ser visto como detentor de um emprego ou ocupação, em detrimento de outros
interesses e capacidades que possua. Desta forma, muito de seu potencial como
ser humano deixa de ser explorado e desenvolvido, pois o âmbito do trabalho
produtivo usualmente não lhe proporciona oportunidades de experiências
diversificadas, através das quais possa conhecer e dar a conhecer suas características
individuais.
Mesmo contemporaneamente, o
ambiente organizacional do trabalho tende a ser restritivo e limitador do
desenvolvimento humano. Por outro lado, tal limitação pode apresentar
possibilidades para o desenvolvimento das motivações intrínsecas individuais.
Algumas empresas, por exemplo, têm estimulado seus colaboradores a se tornarem
voluntários em atividades comunitárias, como forma de proporcionar um outro
ambiente de desafios onde o indivíduo possa desenvolver-se. Embora não existam
dados que atestem os resultados destas iniciativas para as empresas, há indicações
de que a satisfação dos funcionários envolvidos aumenta.
Uma terceira dúvida passa a
fazer parte das angústias dos profissionais de marketing e RH: temos exercido
nossa responsabilidade social de forma tal que possamos garantir que nossos
colaboradores se sentem parte de um negócio que é mais do que simplesmente
ganhar dinheiro?
Conclusão
Atender às necessidades do
cliente em tempo real é um paradigma inteiramente novo e revolucionário para o
marketing. Ele representa a confluência entre o marketing de relacionamento e a
customização em massa e é considerada a fronteira final para a conquista da
verdadeira lealdade do consumidor.
Contudo, o grande desafio para
a efetiva prática do conceito não tem origem em limitações de natureza
financeira ou tecnológica. O grande desafio é fazer com que as pessoas que
atuam nas organizações "comprem" o conceito de satisfazer o cliente
em tempo real.
Quando particularizamos a
discussão, verificamos que na indústria, a aplicação do conceito de
marketing em tempo real parece ser mais fácil do que nos serviços. Afinal,
quando se trata de produtos tangíveis, é possível desenvolver chips, sensores
e outros equipamentos para monitorar as alterações de hábitos de consumo e se
adaptar a elas. Este é um grande engano.
Temos de nos convencer de que não
adianta oferecer produtos fantásticos, se não garantirmos relacionamentos que
sejam vistos como excepcionais pelos clientes. Já sabemos que as pessoas não
compram produtos ou serviços, mas sim soluções para os seus problemas. O
grande desafio é saber se estamos preparados para desenvolver com esses
clientes uma sistemática de relacionamento na qual nossos colaboradores estejam
estimulados e convencidos da relevância do seu papel no relacionamento como o
mercado. Em outras palavras: é preciso que todos na empresa – do presidente
ao faxineiro – estejam verdadeiramente conscientes de que se não estivermos
cuidando de nossos clientes, não tem problema. Alguém estará.
JOÃO BAPTISTA
VILHENA
CONSULTOR DO INSTITUTO MVC
www.institutomvc.com.br |