Há milhares de pessoas que ouvem a expressão
"mensagem a Garcia" sem saberem o seu real significado. Na verdade,
representa uma das maiores peças literárias jamais escritas, enaltecendo a
iniciativa humana.
Elbert Hubbard, seu autor, explica as razões que o levaram a escrevê-la:
“Esta insignificância literária,
UMA MENSAGEM A GARCIA, escrevi-a uma noite, depois do jantar, em uma hora”.
Foi a 22 de fevereiro de 1899, e o número de março de nossa revista "Philistine"
estava prestes a entrar no prelo.
Encontrava-me com disposição para escrever e o artigo brotou espontâneo no
meu coração. Foi redigido num dia afanoso, durante o qual tinha procurado
convencer alguns moradores do lugar que deviam sair do estado comatoso em que
se compraziam, esforçando-me por incutir-lhes dinamismo. A idéia original,
entretanto, veio-me de um pequeno argumento ventilado pelo meu filho Bert, ao
tomarmos café, quando ele procurou sustentar ter sido Rowan o verdadeiro herói
da guerra de Cuba. Qual centelha luminosa, a idéia assenhorou-se da minha
mente. É verdade - disse comigo - o rapaz tem toda a razão! O Herói é
aquele que dá conta do recado... que leva a mensagem a Garcia. Levantei-me da
mesa e escrevi "UMA MENSAGEM A GARCIA" de uma assentada só.
Entretanto, liguei tão pouca importância ao artigo que até foi publicado na
revista sem qualquer titulo. Pouco depois de a edição ter saído do prelo
começaram a afluírem pedidos para exemplares adicionais do número de março
de "Philistine": uma dúzia, cinqüenta, cem... e quando a "American
News Company" encomendou mais de mil exemplares, perguntei a um dos meus
empregados qual o artigo que havia levantado o pó cósmico
– "Esse do "Garcia" -
retrucou-me ele".
Assim começou a trajetória deste pequeno texto que se espalhou pelo mundo
inteiro como exemplo de uma pessoa que, por sua própria iniciativa, é capaz
de levar o cabo qualquer tarefa. Traduzido, por assim dizer, em todas as línguas
faladas, é praticamente impossível determinar o número de exemplares já
impressos do artigo que passamos a reproduzir. Em todo este caso cubano, um
homem se destaca no horizonte de minha memória. Quando irrompeu a guerra
entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava aos americanos era
comunicar-se, rapidamente, com o chefe dos insurretos - Garcia - que se sabia
encontrar-se em uma fortaleza, no interior do sertão cubano, mas sem que se
pudesse dizer, exatamente, onde. Era impossível um entendimento com ele pelo
correio ou pelo telégrafo. No entanto, o Presidente precisava de sua colaboração,
e isso o quanto antes. Que fazer? Alguém lembrou:
"Há um homem chamado Rowan... e se
alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan”.
Rowan foi trazido à presença do Presidente, que lhe confiou uma carta com a
incumbência de entregá-la a Garcia. De como esse homem - Rowan - tomou a
carta, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou a ao peito e, após quatro
dias, saltou de um barco sem coberta, alta noite, nas costas de Cuba; de como
se embrenhou no sertão para, depois de três semanas, surgir do outro lado da
ilha, tendo atravessado a pé um país hostil, e entregue a carta a Garcia, são
coisas que não vêm ao caso narrar aqui. O ponto que desejo frisar é este:
Mac Kinley deu a Rowan uma carta destinada a Garcia; Rowan tomou-a e nem
sequer perguntou: "Onde é que ele está?”.
Salve! Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze e sua estátua
colocada em cada escola. Não é só de sabedoria livresca que a juventude
precisa... Nem de instruções sobre isto ou aquilo. Precisa, sim, de um
endurecimento das vértebras para poder mostrar-se altiva no exercício de um
cargo; para atuar com diligência; para dar conta do recado; para, em suma,
levar uma mensagem a Garcia. O General Garcia já não é deste mundo, mas há
outros Garcias. A nenhum homem que se tenha empenhado em levar avante uma
empresa em que a ajuda de muitos se torne precisa tem sido poupados momentos
de verdadeiro desespero ante a passividade de grande número de pessoas ante a
inabilidade ou falta de disposição de concentrar a mente numa determinada
tarefa... e fazê-la. A regra geral é: assistência regular, desatenção
tola, indiferença irritante e trabalho malfeito.
Ninguém pode ser verdadeiramente bem-sucedido, salvo se lançar mão de todos
os meios ao seu alcance, para obrigar outras pessoas a ajudá-lo, a não ser
que Deus Onipotente, na sua grande misericórdia, faça um milagre
enviando-lhe, como auxiliar, um anjo de luz. Leitor amigo, tu mesmo podes
tirar a prova. Está sentado no teu escritório, rodeado de meia dúzia de
empregados. Pois bem, chama um deles e pede-lhe: "Queria ter a bondade de
consultar a enciclopédia e de fazer a descrição resumida da vida de Corrégio".
Dar-se-á o caso de o empregado dizer, calmamente: - "Sim, senhor" e
executar o que lhe pediste? Nada disso! Olhar-te-á admirado para fazer uma ou
algumas das seguintes perguntas:
- Quem é Corrégio?
- Que enciclopédia?
- Onde está a enciclopédia?
- Fui eu contratado para fazer isso?
- E se Carlos o fizesse?
- Esse sujeito já morreu?
- Precisa disso com urgência?
- Não sou melhor eu trazer o livro para o Senhor procurar?
- Para que quer saber isso?
Eu aposto dez contra um que, depois de haveres respondido a tais perguntas e
explicado a maneira de procurar os dados pedidos, e a razão por que deles
precisas, teu empregado irá pedir a um companheiro que o ajude a encontrar
Corrégio e depois voltará para te dizer que tal homem nunca existiu.
Evidentemente pode ser que eu perca a aposta, mas, seguindo uma regra geral,
jogo na certa. Ora, se fores prudente, não te darás ao trabalho de explicar
ao teu "ajudante" que Corrégio se escreve com "C" e não
com "K", mas limitar-te-á a dizer calmamente, esboçando o melhor
sorriso: - "Não faz mal... não se incomode". É essa dificuldade
de atuar independentemente, essa fraqueza de vontade, essa falta de disposição
de, solicitamente, se por em campo e agir, é isso o que impede o avanço da
humanidade, fazendo-o recuar para um futuro bastante remoto. Se os homens não
tomam a iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão se o resultado
de seu esforço resultar em benefício de todos? Por enquanto parece que os
homens ainda precisam ser dirigidos.
O que mantém muito empregado no seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se
não o fizer, ser despedido no fim do mês. Anuncia-se precisar de um taquígrafo
e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar nem pontuar, e -
o que é pior - pensa não ser necessário sabê-lo.
- "Vê aquele funcionário - dizia o chefe de uma grande fábrica. É um
excelente funcionário. Contudo, se eu lhe perguntasse por que seu trabalho é
necessário ou por que é feito dessa maneira e não de outra, ele seria
incapaz de me responder. Nunca deve ter pensado nisso. Faz apenas aquilo que
lhe ensinaram, há mais de 3 anos, e nem um pouco a mais".
- "Será possível confiar-se a tal homem uma carta para entregá-la a
Garcia?”.
Ultimamente temos ouvido muitas expressões sentimentais demonstrando simpatia
para com os pobres entes que lutam de sol a sol, para com os infelizes
desempregados à cata de trabalho honesto, e tudo isso, quase sempre,
entremeado de muita palavra dura para com os homens que estão no poder. Nada
se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num esforço inútil para
induzir eternos desgostosos e descontentes a trabalharem conscienciosamente;
nada se diz de uma longa e paciente procura de pessoas que, no entanto, muitas
vezes nada mais faz do que "matar o tempo" logo que ele volta às
costas. Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra
necessária para dirigir um negócio próprio e que ainda se torna
completamente nulo para qualquer outra pessoa devido à suspeita que
constantemente abriga de que seu patrão o esteja oprimindo ou tencione
oprimi-lo. Sem poder mandar, não tolera que alguém o mande. Se lhe fosse
confiada a mensagem a Garcia retrucaria, provavelmente:
- "Leve-a você mesmo!". Hoje esse homem perambula errante, pelas
ruas em busca de trabalho, em estado quase de miséria. No entanto, ninguém
se aventura a dar-lhe trabalho porque é uma personificação do
descontentamento e do espírito da discórdia. Não aceitando qualquer
conselho ou advertência, a única coisa capaz de nele produzir algum efeito
seria um bom pontapé dado com a ponta de uma bota 44, sola grossa e bico
largo.
Pautemos nossa conduta por aqueles homens, dirigente ou dirigida, que
realmente se esforçam por realizar o seu trabalho. Aqueles cujos cabelos
ficam mais cedo envelhecidos na incessante luta que estão desempenhando
contra a indiferença e a ingratidão, justamente daqueles que, sem o seu espírito
empreendedor, andariam famintos e sem lar.
Estarei pintando o quadro com cores por demais escuras?
Não há excelência na nobreza de si mesmo; farrapos não servem de recomendação.
Nem todos os ricos são gananciosos e tiranos, da mesma forma que nem todos os
pobres são virtuosos.
Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha, fazendo o que seve
ser feito, melhorando o que pode ser melhorado, ajudando sem exigir ajuda. É
o homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, toma a missiva e, sem
a intenção de jogá-la na primeira sarjeta, entrega-a ao destinatário. Esse
homem nunca ficará "encostado", nem pedirá que lhe façam favores.
A civilização busca ansiosamente, insistentemente, homens nessa condição.
Tudo que tal homem pedir, se lhe há de conceder. Precisa-se dele em cada
vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica
ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso:
“PRECISA-SE - E PRECISA-SE COM
URGÊNCIA - DE UM HOMEM CAPAZ DE LEVAR UMA MENSAGEM A GARCIA”.
Elbert Hubbard