Modelando O Consórcio Modular
"Procuram-se investidores para trabalhar
em parceria num consórcio. Além de capacidade técnica comprovada deverão
atuar individualmente em suas áreas de especialidade, garantindo o cumprimento
integral de prazos e especificações. Cada parceiro será responsável por
todos os custos direta ou indiretamente envolvidos em sua área de atuação,
sendo os resultados obtidos, rateados proporcionalmente a participação de cada
um."
Este projeto poderia ser denominado de mutirão,
associação, parceria ou consórcio modular, se quisermos um nome palpável,
com forte apelo de marketing.
O conceito do consórcio modular foi escolhido
para estruturar o processo de fabricação na recém inaugurada fábrica de
caminhões da Volkswagen em Resende. Ele reúne numa mesma fábrica 7 grandes
empresas de autopeças, especialistas em cada etapa do processo produtivo.
Operando sob o mesmo teto, com políticas integradas e decisões por consenso,
se objetiva alcançar maior valor agregado ao produto fornecido, sendo a
Volkswagen a aglutinadora e líder do consórcio.
Neste conceito inovador a posição de
fornecedor é substituída pela do parceiro, e o faturamento imediato substituído
pelo lucro pós venda. O consórcio objetiva formar equipes flexíveis,
otimizando os recursos disponíveis, para maximizar resultados, num modelo de
alta competitividade.
Colocando de lado a concepção bem
estruturada, surge a seguinte questão: Como operar de forma eficaz o consórcio,
eliminando as interfaces inerentes deste modelo?
Não querendo entrar nos aspectos legais,
sindicais e políticos, nos permitimos fazer uma reflexão sobre a
operacionalização da logística de materiais que deveria respaldar este
processo.
Nenhum dos sete consorciados possuí estrutura
verticalizada que lhes permita assumir integralmente todos os produtos que fazem
parte integrante do seu módulo. Só para exemplificar um consorciado que tenha
a responsabilidade do fornecimento e montagem de instrumentos elétricos, terá
necessariamente que instalar, por sinergia, faróis, lanternas, luzes de iluminação
e sinalização. Como tal dependerá do fornecimento de componentes de outros
fabricantes de autopeças.
Surgirão adicionalmente de 6 a 10 novos
fornecedores parceiros, num total de aproximadamente 56 empresas satélites, que
farão parte indireta do consórcio em segundo nível.
Neste ponto surge a dúvida: Como integrar 56
empresas parceiras para fornecer componentes acabados, com entregas just-in-time?
Sem um sistema eficaz, entregando componentes no ponto de uso, no momento da
real necessidade, o JIT será aplicado na base do Jesus-is-Time.
Nesta situação os produtos serão inevitavelmente transferidos ao pátio,
incompletos, ou será montado o caminhão Frankenstein, ou seja, aquele
com chassis de um modelo, cabine de outro e faróis de um terceiro.
O Sistema Logístico de Materiais assumiu nos
dias de hoje aspecto estratégico no processo produtivo. Com a globalização da
economia e as fontes de abastecimento mundiais, o que importa é o fornecedor
confiável, com custo adequado e qualidade compatível, não fazendo diferença
em que parte do mundo ele se localize. Entretanto, sem uma logística eficaz, o
que poderia representar vantagem competitiva, passa a ser prejuízo, na medida
em que os produtos atrasam, gerando interrupções imprevistas nas linhas de
montagem.
A eficácia de um sistema logístico está
relacionada com a cadência de uso dos produtos na linha de montagem, maior a
regularidade de consumo, melhor a freqüência das entregas e mais reduzidos os
níveis de estoque. O balanceamento do processo se faz da montagem do produto
final para a fabricação dos componentes nos fornecedores.
Além disso, os lotes de componentes tem que
ser modularizados em quantidades proporcionais a fração do consumo diário, de
forma a cadenciar o consumo por unidade de tempo.
As embalagens devem ser desenvolvidas
garantindo o acondicionamento dos componentes, sem risco de danos, desde o
inicio da fabricação ao ponto de uso, preferencialmente retornáveis,
eliminando calços e proteções de papelão que não agregam valor ao produto.
Finalmente, o transporte dos produtos deve ser
adequado com movimentação rápida e simples, eliminando tempos ociosos de
carga e descarga.
O consórcio modular como idéia inovadora é
sensacional. Caminha "51" também é uma boa idéia. Entretanto boas
idéias para se tornarem realidade exigem planejamento e uso de recursos específicos,
que no caso em questão, ainda não foram postos em prática.
Para que a boa idéia de hoje não se
transforme em ressaca amanhã, tomar um "engove" antes, como medida
preventiva, não faz mal a ninguém.
- Consultor - Paulo Décio
Ribeiro - Consultor do Instituto MVC - Estratégia e Humanismo
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