Mulheres à Beira De Um Novo Milênio
Quando
se fala nas dificuldades que um homem enfrenta ao mudar de país para assumir
algum posto em outra unidade da empresa, geralmente são abordadas as questões
relativas à adaptação deste executivo e de como ele vai se enquadrar neste
novo mundo de negócios.
Poucas vezes se questiona como sua família,
principalmente a esposa, vai levar a vida em outro país.
Eufórico com as novas possibilidade à sua
frente, o marido vibra com a oportunidade, chega em casa e diz: "Amor,
agora é certo. Embarcamos em um mês."
Por mais que ela se tenha preparado para este
momento, é quase impossível não sentir um frio na barriga. Às perguntas que
vão surgindo, ela tenta encontrar respostas sem incomodar o marido, que está
cuidando dos preparativos no trabalho.
É hora também de tomar uma difícil decisão:
vale a pena abandonar tudo e acompanhar o marido ou é melhor ficar e repensar o
casamento? Será que a carreira vale mais do que a felicidade em família? Se o
casamento está bem, jogar tudo para o alto parece insanidade. Então, só resta
se preparar para a nova vida.
Responsável pela estabilidade da família, a
mulher questiona: E agora? As crianças vão se adaptar em outro país? Como irão
se virar na escola se não falam nada daquela língua? E eu? Vou conseguir algum
trabalho ou terei que ficar cuidando da casa? Será que vamos gostar da comida
de lá? E, se tivermos dificuldades, como faremos sem parentes ou amigos por
perto?
Não poucas vezes, a mulher se vê tendo que
abrir mão de sua carreira, do contato com a família, dos amigos e de sua raiz
para acompanhar o marido, enfrentando o cotidiano sem nenhum ponto de referência
conhecido.
No lugar de uma história que fica para trás,
o homem tem uma nova chance na empresa e muitos projetos. A mulher fica com o
vazio.
Terá que iniciar do zero sua vida social sem
ter onde arrumar um ciclo de amigos. Quando começarem as dificuldades nos colégios
dos filhos, deverá estar preparada para apoiá-los.
Na sua frente, o novo. Casa nova, língua
diferente, todos estranhos. É como se tivesse que desaprender tudo que usou até
ali para aprender coisas novas.
Para superar a primeira fase do pânico, a
mulher terá que entender que este é um momento de metamorfose e esta
transformação não é só física, pois há um processo interior. E dentro
deste processo ela precisará pensar em algo que possa dar sentido à existência.
O primeiro passo é tomar consciência do
processo. Depois, viver as implicações que a mudança provoca. Enfim, é tempo
de recomeçar, fazer projetos, sonhar vendo as novas possibilidades que surgem
com a mudança.
Não deixar que a insegurança torne a dúvida
maior que o horizonte sonhado é uma boa forma de reagir. As providências
necessárias para a mudança são suficientes para manter a cabeça ocupada.
A chegada ao novo país pode ficar mais fácil
se você encontrar brasileiros para ajudar na adaptação. Afinal, são novas
regras, costumes diferentes, outros hábitos.
Uma tarefa simples, como ajudar as crianças a
fazer os deveres de casa, soa mais difícil do que atravessar um muro. Como
ensinar os filhos em uma língua tão diferente? Participar de reunião de pais
parece tarefa impossível.
Mas se a mulher observar em volta vai descobrir
que os outros membros da família estão na mesma situação. Nestas horas, o diálogo
é uma boa ferramenta, associado a atividades conjuntas para toda a família.
Se a mulher se abrir de fato para a cultura do
país onde estiver, poderá descobrir um novo mundo, crescer, buscar novos
horizontes. E, na volta ao seu país, quando sentir novamente o frio na barriga
por se ver recomeçando, vai perceber que está mais amadurecida e preparada
para o novo. Pode até descobrir que não teme mais mudanças, pois já virou
uma cidadã do mundo.
Leila
Rockert
Consultora
do Instituto MVC
|