Não à Paralis(ação)
Não há dúvida:
este ano de 2001 ficará para a história, certamente, como um grande divisor de
águas. Não chegaremos ao extremo já proposto por alguns analistas do
a.11/09/2001, d.11/09/2001, mas de qualquer forma não podemos descartar sua
importância crucial na formação da história. Também não penso como outros
analistas que o século XXI começou nessa data, tenho posição firmada que
este terceiro milênio já começou em 1989 com a queda do muro de Berlim e toda
a miríade de drásticas mudanças da ambiência que ocorreram ao longo da década
de 90. Esta sim, os primeiros 10 anos do século XXI.
Nesta matéria, não vamos analisar o
contexto da mudança de paradigmas do ataque terrorista às Torres Gêmeas (o
que certamente ficará para um momento próximo); nossa reflexão ficará
concentrada nas conseqüências humanas e psicológicas que estão recaindo
sobre o ambiente de negócios. O surto de imobilismo que está tomando conta da
maior parte da comunidade empresarial está muito acima dos níveis máximos
permitidos por um mínimo de bom senso. Abandonando o lado satânico do
terrorismo (o qual evidentemente temos aversão e repúdio totais), não há
motivos para uma paralisação tão vigorosa.
Por que agravar uma situação política-militar, sem dúvida grave, com o
castigo da autopunição e do auto-estabelecimento de um forte clima de recessão?
De um lado, por mais fria que possa parecer a tese (e mais uma vez estamos
analisando tão somente o ambiente de negócios), crises de mudanças, frutos de
fatos imprevisíveis, fazem parte das premissas estratégicas das empresas do
Brasil há pelos menos 30 anos. Desde o término da ilha da fantasia que vivemos
na década de 70 (é verdade, o interregno da ilhota da fantasia de 1994 /
1998), temos que estar preparados para fatos de baixa probabilidade e alto
impacto.
No meu primeiro
livro, escrito entre 1978 e 1980, já colocava que um dos pés do tripé básico
dos fatores críticos de sucesso de qualquer organização era a adoção
de uma estratégia de Dependência Confortável, ou seja, nenhuma unidade
organizacional pode depender de forma desconfortável de nenhum sub-sistema ,
mesmo que ele seja a maior economia do mundo. A falência da Soletur talvez
seja um caso doloroso mas emblemático.
O fato é que
qualquer coisa pode acontecer no mundo dos negócios. É evidente que se
dependemos de um fato inesperado e a sobrevivência de nossos negócios estiver
ligado a ele, ruiremos juntos. Por isso, tanta gente quebra, em uma crise do apagão,
uma mudança cambial, em uma crise argentina, em uma revolução tecnológica,
em um movimento de privatização ou, genericamente, na própria globalização.
Ao mesmo tempo, as
empresas visionárias e triunfadoras saem cada vez mais fortes nestas épocas de
turbulência. Sem dúvida, elas somam, sinergizam alguns atributos essenciais.
Em primeiro lugar conseguem antecipar o "antecipável", chegando a ver
(por meio do esforço e não de pura intuição/adivinhação) o que os outros não
vêem.
A esta competência de divisão estratégica agrego a formação no portfolio
diversificado muito inteligente que domina o risco global de seus negócios,
colocando-se, como vimos anteriormente, na posição de Dependência Confortável.
Ainda colocam uma alta dose de flexibilidade onde barreiras de saída de setores
de seu negócio são tão importantes quanto as barreiras de entrada, e mais do
que tudo tem potentes antenas para oportunidades. Por isso mesmo não deixam que
a "inação" tome conta de seu processo decisório, enquanto os outros
param, elas correm atrás porque sabem que toda crise traz oportunidade. A queda
de cafeteiras elétricas corresponde ao aumento do consumo de garrafas térmicas,
se diminui o emprego na indústria tradicional, as oportunidades se multiplicam
no campo da informática. Na globalização, mercados se fecham e também se
abrem, com o terrorismo talebãn despenca o turismo externo e explode o turismo
interno.
Estas são as
conseqüências deste momento que vivemos. A Era de maior mudança no Planeta
Terra. A vida, esta dádiva divina, a nossa vida, nós estamos vivendo dentro
deste furacão, no momento exatamente, no olho do furacão. Mas isto não pode
ser motivo para criarmos nosso próprio fracasso e estabelecermos a nossa
atividade passiva diante de tudo. Por isto, não podemos decidir pela paralisação.
Com maturidade devemos como nunca construir nossa vida como um exercício de
melhoria contínua. Com maturidade, refletir sobre o que nos ensina: "Nós
vivemos o que nós pensamos". Como nunca, é importante complementar esta
sentença: temos que tomar um enorme cuidado com aquilo que estamos pensando.
Marco
Aurélio Ferreira Vianna
Presidente do Instituto MVC
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