Entre perplexos e confusos temos assistido às
disputas, discussões, ataques e acusações que têm caracterizado as relações
entre o Governo Federal e alguns Governos Estaduais, especialmente o de Minas
Gerais.
Como qualquer cidadão comum, desconhecemos
em detalhes os meandros da burocracia que rege as famosas dívidas, empréstimos
e avais que têm sido citados como razão da discórdia.
O que percebemos é que a palavra NEGOCIAÇÃO
tem sido usada, de parte a parte, ora como elemento de defesa, ora como arma
de ataque. Todos parecem querer negociar, mas ninguém se dispõe a conversar,
a dialogar e, principalmente, a OUVIR a outra parte. Confunde-se negociar com
falar, acusar, atacar, intimidar, cobrar. Até a gratidão tem sido usada como
moeda de troca.
Tudo isto nos conduz a uma reflexão sobre
alguns pontos importantes que devem nortear qualquer negociação que pretenda
ser bem sucedida:
1. Antes de falar, ouça!
De fato, a etapa "Exploração ou
Sondagem" é a mais esquecida pelo negociador brasileiro. Temos enorme
dificuldade em ouvir a outra parte, acreditamos que falando, argumentando,
ameaçando, acabamos por vencer qualquer disputa. Mais ainda, deixando de
ouvir, passamos a agir como se os outros pensassem, sentissem e agissem como
nós mesmos. Por não ouvir plenamente, julgamos e avaliamos qualquer coisa
que os outros dizem; e estes julgamentos e avaliações são feitos a partir
de nossos próprios valores e crenças.
2. Separe as pessoas do
objeto da negociação.
Os bons negociadores, especialmente os que
têm que negociar em nome de uma Empresa, de um Estado, de um Povo, de um País,
estes sabem seguir um dos mais antigos ditados de todos os idiomas:
"amigos, amigos, negócios à parte". E ainda são capazes de
melhorá-lo quando dizem: "amigos ou inimigos, negócios à
parte". Em outras palavras, quem negocia a coisa pública, o bem comum,
tem que saber separar as pessoas do objeto da negociação: não pode se
deixar influenciar por sentimentos, paixões, ódios ou ressentimentos, pois
o que está em jogo é o resultado que irá influenciar a vida de muitas
pessoas, da Empresa, do Estado ou do País e não as vaidades pessoais, os
egos feridos, as gratidões ou ingratidões, os rancores ou as divergências
passadas mal resolvidas.
3. Se a intenção é, de
fato, negociar esteja aberto a tudo.
Quando se impõem condições prévias,
quando se estabelece "a priori" que só se sentará à mesa de
negociação se determinadas ações foram empreendidas ou outras deixarem
de ser, neste momento já se cria um grande impasse, antes de começar a
negociação. Neste ponto já não se trata de uma negociação, mas pelo
menos, de duas. Primeiro será necessário superar o impasse deliberadamente
criado, para, então, prosseguir-se na negociação do que realmente
importa. Muitas vezes, o impasse se torna intransponível e aí . . . .
adeus negociação!
4. Nem sempre quem está
com a razão, negocia melhor
Muitos negociadores acreditam tão
firmemente em suas posições e pontos de vista, que passam a julgar que
esta crença é suficiente para torná-los imbatíveis. Agem, então, como
se nada pudesse demovê-los e passam a considerar os argumentos, atitudes e
ações de outra parte como ofensas pessoais ou como agressões gratuitas.
Suas crenças e vontades obliteram sua capacidade de raciocínio,
tornando-os insensíveis a argumentos e posições, por mais racionais, lógicos
ou estruturados que possam ser.
Neste momento assumem uma postura
"emburrada", tornam-se surdos e inacessíveis a qualquer tentativa
de aproximação.
5. Intermediários são
bons, quando merecem confiança e respeito.
Todos sabem que a confiança é fator
decisivo em qualquer negociação.
Muitas vezes, esta confiança pode ser
ampliada ou mesmo conquistada por meio de um bom intermediário que a outra
parte respeite ou admire; eles costumam aparar arestas, aplainar terrenos e
aproximar as partes em litígio. À escolha do intermediário, então,
assume importância decisiva, pois, de sua presença pode depender todo o
processo e também o resultado. Um intermediário mal escolhido pode matar
uma negociação antes que ela comece.
De fato, o episódio em questão permite
muitas outras reflexões sobre o tema, mas fiquemos, por enquanto com estas na
esperança de que o bom-senso prevaleça e que não venhamos nós a pagar mais
uma conta nascida da inabilidade de nossos políticos.
Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas
ou mortas, não é mera coincidência.
Consultor do Instituto MVC
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