- Negociação
- Benefícios na Negociação
- Customizando a Negociação
Parei na padaria da esquina, como faço de
vez em quando, e lá estava, como sempre acontece, "Seu" Manoel pelo
lado de dentro do balcão e próximo à caixa. Só que desta vez, ele
conversava com um vendedor de máquinas que tentava convencê-lo a adquirir um
novo cortador de frios para seu estabelecimento.
Tomando uma cervejinha gelada - aquela do fim
de tarde - passei a prestar atenção ao diálogo de seu Manoel com o
vendedor. E este discorria sobre as qualidades da máquina, sua elevada
tecnologia, acho até que a "laser", sua beleza, seu
"design", sua performance inigualável, enfim, características e
atributos de um verdadeiro produto de ponta. Seu Manoel ouvia, fazia algumas
perguntas, apreciava aquela maravilha e pude perceber até um certo interesse
pela máquina. Lá pelas tantas, Seu Manoel, saiu-se com esta: "escuta
rapaz, tu já me falaste tudo, tua máquina é mesmo muito linda, muito cheia
de técnicas, muito veloz e também muito carinha; só uma coisa me disseste:
"o que é que esta belezura faz por mim?"
O vendedor - pareceu-me - não esperava por
esta. Parou, embatucou, pigarreou e gaguejou: "Bem, o senhor sabe ...
pois é ... veja bem ... o que eu quero dizer ..." e voltou a discorrer
sobre tudo o que já dissera, repetindo características, ressaltando
atributos. Depois de três ou quatro frases, Seu Manoel interrompeu e voltou
à carga: "Tudo isto eu já sei, já compreendi, mas o que eu quero saber
de verdade ainda não me disseste: "o que é que a máquina faz por mim?.
Quando souberes, volta aqui, talvez façamos negócio!". E passou a dar
atenção aos fregueses que chegavam, ao pão fresco que estava saindo, ao
vai-vem de sua padaria.
Tristonho, cabisbaixo e visivelmente embaraçado,
o vendedor embalava sua "pequena maravilha" certamente ainda
desconcertado, mas, quem sabe, meditando sobre as palavras de Seu Manoel ou
pensando como abordar o próximo padeiro.
Esta cena veio reforçar um dos mais graves
erros cometidos por nós vendedores, compradores e negociadores em geral: uma
alta preocupação com características e atributos de nossos produtos, idéias
e serviços e uma baixíssima ênfase nas soluções, benefícios e vantagens
para o outro.
Ora, as características e atributos são
importantes, mas o que as pessoas querem, o que elas buscam, o que aceitam, o
que "compram" são soluções, vantagens e benefícios. O que, de
fato, elas desejam é que nossas idéias, produtos e serviços façam alguma
coisa por elas. No contexto profissional é comum os subordinados fazerem
sugestões de melhoria e mudanças que lhes parecem muito justas e adequadas e
receberem um sonoro não como resposta. O que ocorre é que estas sugestões
podem ser muito boas para eles, mas não resolvem problemas, não trazem
vantagem, não se constituem em benefícios para a chefia ou para a Empresa.
Aquele não soa como antagonismo, má vontade, desinteresse, etc. Na verdade,
o dono da idéia talvez não tenha sabido demonstrar à outra parte o que sua
idéia era capaz de fazer por ela.
De nada servem idéias brilhantes, produtos
com tecnologia de ponta ou serviços do mais alto padrão, se eles não se
constituem em algo de valor para a outra parte.
Nas negociações, ainda na etapa de
Planejamento ou Preparação, é fundamental que o negociador prepare uma
argumentação capaz de demonstrar como sua proposta acrescenta valor, resolve
problemas, traz benefícios, proporciona vantagens para o outro.
Seu Manoel não queria beleza, agilidade ou
tecnologia. Ele buscava solução de algum problema, uma vantagem, um benefício.
Consultor do Instituto MVC
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