Os
recursos da tecnologia, entretanto, vêm trazendo novas opções, pelas quais
se possam fechar acordos, estabelecerem contratos, aprofundar discussões e
gerar resultados, em negócios, de maneira a não considerar obstáculos à
distância, ou mesmo à visualização dos interlocutores negociais.
Embora
se possa contar, na atualidade com recursos que permitam a visualização dos
interlocutores – videofones, skype, videoconferências, e outros
mecanismos contemporâneos, boa parte das negociações se faz ainda por meio
do velho, incansável e sempre disponível telefone.
O
que se apresenta aos negociadores é: de que maneira superar a barreira da não
visualização, diante da possibilidade de enfrentar um interlocutor exigente,
ou indeciso, hostil ou amigo, e ainda assim, lutar para que o acordo se faça
presente?
Será
interessante, à luz das técnicas conhecidas aplicáveis a processos de
negociação, encontrar o caminho da superação, nos casos em que o
instrumento de contato é o telefone, em todas as suas variações – fixo ou
celular. Senão, vejamos:
PREPARAÇÃO
-
A
definição de objetivos, prioridades e real interesse permanecem e
prevalecem, quando se faz necessário estabelecer, previamente, quais são
os limites e os caminhos a serem trilhados na negociação;
-
O
que se quer na negociação, o que é importante dentro daquilo que se
quer e o que efetivamente importa na negociação deve estar claro antes
de se pensar em “levantar o gancho”, mas antes de digitar o número do
interlocutor;
-
O
que sei sobre meu interlocutor, qual a experiência anterior em relação
a negociações feitas;
-
Qual
o objetivo, qual a prioridade e o real interesse deste meu interlocutor na
negociação a ser realizada?
-
O
que efetivamente interessa a mim e ao meu interlocutor nesta negociação;
provavelmente é neste ponto, ou nestes pontos que nossa conversa telefônica
vai se tornar mais tensa e objetiva;
-
O
que efetivamente interessa a mim, mas não interessa a ele na negociação;
provavelmente será um ponto que tentarei manter à tona e provavelmente o
meu interlocutor tentará fugir da discussão;
-
O
que efetivamente interessa a ele, mas não interessa a mim na negociação;
seguramente será um ponto que ele tentará manter à tona e eu tentarei
escapar do assédio;
-
O
que não interessa a mim nem a ele não deve ser problema na negociação,
mas deve ficar guardado no “freezer mental”, para quem sabe usar como
moeda de troca no futuro da negociação;
-
Definir
de forma enfática, qual a “moeda” da negociação, tanto para mim,
como para ele. Este é o ponto pelo qual a negociação fluirá mais ou
menos rapidamente (dependendo de sua clarificação e sua homogeneidade
entre as partes envolvidas).
O
CONTATO TELEFÔNICO
-
Antes
de se dirigir para o telefone, alguns cuidados devem ser tomados, de
maneira a não comprometer o processo negocial;
-
Quais
seriam as perguntas que o meu interlocutor provavelmente me faria, a
respeito de nossa negociação;
-
Quais
seriam as respostas adequadas que eu deveria dar a ele, de maneira a não
comprometer o processo negocial;
-
Quais
seriam as perguntas que eu deveria estar preparado para fazer, no sentido
de agilizar o provável acordo, ou fechamento do negócio;
-
O
tom de voz, o cuidado na expressão verbal a ser adotada, o caminho a ser
levado durante a conversa. O tratamento a ser dispensado leva o negociador
a dois caminhos: a conversa baseada em apelos emocionais, permitindo ao
interlocutor fazer uma idéia fantasiosa do que está sendo dito, ou à
conversa argumentada, com fundamentos mais lógicos e um foco mais
conceitual dos temas a serem abordados.
-
Fontes
comuns de conflitos:
-
Falha
na compreensão do que foi dito, ou seja, o receptor da mensagem
entende de forma diferente daquela que o emissor desejaria; neste caso
será importante questionar o interlocutor sobre a forma como entendeu
a mensagem, e não perguntar simplesmente se ele a entendeu;
-
Desonestidade,
quando percebida deve ser desarticulada de imediato, de uma forma
questionadora e não agressiva, mostrando ao interlocutor que a situação
exposta por ele não encontra respaldo em sua visão do problema;
deixar passar o fato pode representar um obstáculo maior mais tarde,
durante a negociação;
-
Negligência,
cujo tratamento deve ser semelhante ao proposto para a desonestidade;
se a negociação pressupõe compartilhamento de responsabilidades,
compactuar com um ato negligente pode levar a conseqüências desagradáveis
no processo negocial;
-
Apego
exagerado às próprias opiniões e posições sobre o assunto indicam
que os interlocutores devem rever sua linguagem, sua abordagem e sua
forma de se comunicar com o outro. A manutenção de posições
firmes, mas contraditórias leva a um impasse; rever sua posição no
momento da descoberta da dificuldade pode ajudar a desatar o nó
criado;
-
Inexistência
de limites a serem considerados na negociação, deve indicar uma
necessidade, no momento inicial da conversa, de clarificação de
todas as situações que não devem ser ultrapassadas; este
“contrato de desempenho” pode ser delineado no momento inicial da
conversa e relembrado, sempre que se fizer necessário;
-
Falta
de disposição para enfrentar o conflito surgido durante a conversa não
levará a um bom resultado. Atacar as pessoas que “estão do outro
lado da linha”, ou aceitar passivamente um ataque pessoal leva a uma
situação de submissão, incompatível com a negociação. Será
necessário, nestes casos, se não for possível reverter à situação,
chamando o outro lado para uma atitude mais tranqüila, interromper o
contato e reiniciá-lo mais tarde;
-
Medo
do interlocutor, ou incapacidade de utilização de argumentos
eficazes, em face de diferenças tais como hierarquia, desníveis de
poder, autoridade ou falta de empatia entre os participantes da
conversa. Nestes casos será interessante, antes do contato verificar
as reais condições de confronto entre os interlocutores, para que a
negociação não se transforme num ganha–perde desnecessário e
incompatível com o que se propõe.
RESPOSTAS
ÀS TÁTICAS DE ABORDAGEM DO INTERLOCUTOR:
-
Ignorar
uma tática decorrente de uma investida mais forte do seu interlocutor
pode ser eficiente, quando ele sinta que não surtiu efeito; é bom
lembrar que uma tática ignorada é, essencialmente, uma tática
derrotada;
-
Chamar
a atenção do interlocutor para esta tática, permitindo aos seus
interlocutores perceberem que você identificou o que está sendo feito.
Esta atitude poderá levar os interlocutores a perceberem que um bom
caminho será abandonar a tática;
-
Responder
à tática de forma compatível com a abordagem adotada pelo interlocutor;
há necessidade de que se tomem alguns cuidados, no sentido de que esta
resposta não intensifique potenciais conflitos;
-
Propor
abordagens e atitudes mais objetivas, que levem aos resultados, ao invés
de acirrar conflitos. Esta forma de ação pode levar o interlocutor a
perceber que a continuação com uma tática ineficaz leve a um
impasse.(1)
A
negociação pelo telefone tem um perfil que exige do negociador uma atenção
especial sobre a impossibilidade de enxergar seu interlocutor. Neste caso “a
sabedoria budista nos guia nessa direção, através dos seguintes
conselhos”:
-
Ouça
mais as palavras que a pessoa;
-
Ouça
o conteúdo mais que as palavras;
-
Ouça
mais o verdadeiro significado que o conteúdo;
-
Ouça
mais sua experiência interna que o significado intelectual.(2)
A
negociação por telefone deve levar em consideração a inexistência deste
sentido importante que é a visão e, portanto leva o negociador a otimizar,
quando não maximizar a eficácia dos outros sentidos.
Vale
lembrar a matriz do relacionamento, utilizada em negociação quando da
abordagem a ser utilizada:
•
MENTIRA COM DESRESPEITO
–
DANOS IRREPARÁVEIS AO RELACIONAMENTO, GERANDO
PROVAVELMENTE UMA POSTURA AGRESSIVA, QUE COMPROMETERÁ, SEM DÚVIDA, TODO O
PROCESSO NEGOCIAL;
•
VERDADE COM DESRESPEITO
– COMPROMETE
O RELACIONAMENTO, ENVOLVENDO UMA POSTURA AGRESSIVA POR PARTE DO INTERLOCUTOR
EMISSOR DA MENSAGEM;
•
MENTIRA COM RESPEITO
– COMPROMETE
O RELACIONAMENTO, POIS GERA UMA PROVÁVEL CONSEQÜÊNCIA FUTURA PARA O
PROCESSO NEGOCIAL;
•
VERDADE COM RESPEITO
– RELACIONAMENTO
CONSTRUTIVO, SEM DÚVIDA A MAIS ADEQUADA FORMA DE ABORDAGEM.
[1]
LEWICKI, Roy, SAUNDERS, David. M. & MINTON, John. Fundamentos
da Negociação. RS: Bookman, 2002.
[2]
FERGUSON, Marilyn. O Tao na negociação. RJ:
Record, 1996.
CONCLUSÃO
As
técnicas negociais tradicionais utilizadas nas diversas formas de negociação
existentes são aplicáveis na negociação pelo telefone – quer sejam
gerenciais, comerciais, sindicais, familiares, dentre outras. Esta forma,
entretanto exige um cuidado especial.
Torna-se
fundamental que não sejam esquecidas algumas regras importantes, para que a
negociação não se perca pela falta de sensibilidade dos interlocutores:
a) não
dispor de uma única proposta, para se entender, pelo telefone, com seus
interlocutores;
b) compreender
claramente os interesses dos interlocutores;
c) despersonalizar
ou não emocionalizar o processo negocial;
d) ter
a certeza de sempre poder dizer não, quando necessário;
e) confiar
no processo construído para negociar e ter cuidado com alguns desvios, ou
atalhos;
f) entender
que algumas negociações pelo telefone, por suas características, podem
apresentar resultados melhores do que outras;
g) estar
sempre aberto a flexibilizar as posições, e deixar claro que esta atitude é
esperada dos interlocutores;
h) ter
uma idéia geral do que se propõe globalmente a negociação e não
fragmentar a discussão, para que não haja perda de substância na conversa;
i) evitar
estratagemas de força, truques sujos ou ciladas e táticas de manipulação
em relação aos interlocutores;
j) perceber
se há concessões excessivas de sua parte, quando esta postura enfraquece a
posição em relação ao interlocutor.(3)
É
importante ser competitivo na negociação: saber usar as informações para
obter bons resultados; saber trabalhar as diversas manifestações advindas do
interlocutor ou do ambiente negocial, sem se deixar levar pelas pressões;
estabelecer um diálogo produtivo, voltado para a cooperação e não para a
competição; usar uma comunicação fluida e transparente; usar a
flexibilidade como instrumento negocial; estar seguro que cada negociação é
diferente da anterior e identificar pontos de aprendizado, enquanto mantém
seu diálogo.
Ao
final desta demonstração de competência negocial, se o negociador atinge o
resultado esperado terá atingido a fase da eficácia negocial –
conhecimento, habilidades e atitudes provocando resultados esperados.