O ANALFABETISMO FUNCIONAL
O ANALFABETISMO
FUNCIONAL
O Analfabetismo Funcional constitui um problema
silencioso e perverso que afeta as empresas. Não se trata de pessoas que nunca
foram à escola. Elas sabem ler, escrever e contar; chegam a ocupar cargos
administrativos, mas não conseguem compreender a palavra escrita. Bons livros,
artigos e crônicas, nem pensar! Computadores provocam calafrios e manuais de
procedimentos são ignorados; mesmo aqueles que ensinam uma nova tarefa ou a
operar uma máquina. Elas preferem ouvir explicações da boca de colegas.
Entretanto, diante do chefe - isso quando ele é mesmo um chefe - fingem
entender tudo, para depois sair perguntando aos outros o que e como deve ser
realizado tal serviço. E quase sempre agem por tentativa e erro. O meu caro
leitor deve estar imaginando que esse problema afeta apenas uma parcela mínima
da população. Não é verdade. Calcula-se que, no Brasil, os analfabetos
funcionais somem 70% da população economicamente ativa. No mundo todo há
entre 800 e 900 milhões deles. São pessoas com menos de quatro anos de
escolarização; mas pode-se encontrar, também, pessoas com formação
universitária e exercendo funções-chave em empresas e instituições, tanto
privadas quanto públicas! Elas não têm as habilidades de leitura
compreensiva, escrita e cálculo para fazer frente às necessidades de
profissionalização e tampouco da vida sócio-cultural.
A queda da produtividade provocada pela deficiência
em habilidades básicas resulta em perdas e danos da ordem de US$ 6 bilhões por
ano no mundo inteiro. Por que? Porque são pessoas que não entendem sinais de
aviso de perigo, instruções de higiene e segurança do trabalho, orientações
sobre processo produtivo, procedimentos de normas técnicas da qualidade de
serviços e negligência dos valores da organização empresarial. Eis aí o
"Calcanhar de Aquiles" de tantas organizações: Declaração e Prática
de Valores. E o que são esses Valores? São crenças e princípios que
orientam as atividades e operações de uma empresa, independente de seu porte
ou ramo de atividade. Seus dirigentes devem mostrar, na prática, que os
sistemas, procedimentos e atitudes comportamentais são respeitados e coerentes
com os valores estabelecidos em função de seus clientes e da ética dos negócios.
Se não for assim, os resultados serão desastrosos. Quem não se lembra de
manchetes de jornais mencionando "problemas inesperados" que
abalaram a imagem de tantas empresas? Um defeito no chip Pentium da Intel
levou-a a substituir o produto no mercado. Um número desconhecido de cápsulas
de Tylenol contaminado com cianureto mata oito pessoas nos Estados Unidos; a
Johnson & Johnson retira todos os frascos do mercado americano e tem um
prejuízo de US$ 100 milhões! Alguém tem dúvida de que tais exemplos,
entre tantos, não sejam efeitos da ignorância?
Para que o analfabetismo funcional se erradique
só existe uma saída: educar e treinar para a qualidade. E qualidade não
tem custo; é investimento. O custo da qualidade é a despesa do trabalho
errado, mal feito, incompleto, sem profissionalismo. É o custo do analfabetismo funcional!
Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor
e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade, Antropologia
Empresarial e Gestão Ambiental. Membro da SBPC - Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br |