Vou
falar de coisas simples, que espero conduzam a uma bela reflexão. Para começar,
uma pergunta: Até que ponto você considera a possibilidade de sua empresa
investir pesado em comunicação? Se a pergunta pegou você desprevenido, vou
relatar alguns “causos” que aconteceram comigo, ao longo do mês de
setembro. Quem sabe assim consigo fazer com que você chegue a uma resposta a
essa pergunta meio inusitada!...
Cena
1 – Auditoria de megaempresa, na área de saúde, me chama para tentar
solucionar um de seus graves problemas de comunicação: a quebra de sigilo, o
vazamento de informações.
Todos
os relatórios de auditoria têm uma folha de rosto, onde se lê, abaixo da
palavra Confidencial (em vermelho, arial black, negrito, Tamanho 28. Quase um
outdoor!) uma série de recomendações sobre a necessidade do respeito ao
sigilo e à confidencialidade no trato das informações. O texto, apesar de
repleto das mais puras e boas intenções, só faz aumentar a curiosidade do
leitor e aguçar a tentação de revelar seu conteúdo – nem que seja ao amigo
mais próximo. A situação me fez lembrar aquele restaurante de Floripa,
especializado em ostras. No banheiro, pouco acima da privada, há um cartaz, em
letras garrafais, com os seguintes dizeres:
Não
olhe para o teto!
Os
órgãos de pesquisa, mais preocupados com estatísticas sobre desemprego,
crescimento do País e sucessão presidencial, ainda não tiveram tempo de freqüentar
o famoso restaurante.
Caso
o fizessem, certamente iriam constatar que, em cada 100 usuários, pelo menos
100 olham para o teto – alguns até só percebem tardiamente que molharam as
calças.
Meu
cliente auditor ainda desconhece um princípio elementar de comunicação: evite
as mensagens negativas, que só fazem acentuar a necessidade de transgressão.
Para
encerrar a novela, só falta dizer o que estava escrito no teto. Lá, havia um
texto fazendo menção a um sensacional festival de frutos do mar às
sextas-feiras – muito bom, por sinal.
Você
pensou que eu não iria revelar o segredo do teto? Claro que jamais deixaria você
em suspense. Afinal de contas, o diferencial competitivo está na clareza e
transparência: o segredo há muito deixou de ser a alma do negócio.
Cena
2 – Gigaempresa, na área de seguros, me pede socorro. Há mais de 800 e-mails
a serem respondidos, as pessoas não conseguem dar conta da demanda e paira no
ar a sensação de que o Cliente anda pra lá de insatisfeito com os serviços
prestados. A grande pergunta é se o problema é individual – Devemos demitir?
– ou estrutural – Precisamos sofisticar nossos equipamentos?
Nem
uma coisa nem outra. Os equipamentos são de primeira geração, os recursos
tecnológicos são de ponta e o produto possui todas as certificações ISO. Mas
os salários reservados a quem cabe responder os e-mails são de quinto mundo.
Tanta
parcimônia pecuniária pouco tem a ver com usura ou capitalismo selvagem e
muito a ver com posturas inadequadas aos novos tempos.
Explico
melhor. Tradicionalmente, reservam-se os melhores salários para os executivos,
os bons salários para o pessoal das áreas técnicas e as migalhas para a peãozada
não-especializada, nela incluída a “tchurma” do atendimento. Quer coisa
mais simples, reles e banal que responder a e-mails?
Um
bom curso da Gramática e templates bem ajustados resolvem qualquer
problema.
Não
é bem por aí.
-
Cliente não
tem script. Ele ora elogia, ora critica, ora sugere, tudo no mesmo
texto. O que o cliente quer mesmo saber está lá bem escondido, lá dentro
do texto. Cabe ao redator saber extrair a demanda e responder assertivamente
ao que foi perguntado. As pessoas foram treinadas para saber interpretar um
texto?
-
Os templates
só funcionam bem se adaptados ao contexto que gerou a mensagem. Caso contrário,
o resultado é desastroso, o que só faz aumentar a irritação do cliente.
Se você me diz que já foi ao site institucional, já colheu todas as
informações necessárias e quer saber apenas como fazer para comprar o
produto X, o que tenho unicamente a fazer é informar como fazer para
comprar o produto X. Simples, não? Nem tanto, se a peãozada não foi
treinada para saber extrair dos templates as informações capazes de
atender plenamente às necessidades do cliente.
-
Se o atendente
não passa a informação precisa e se o e-mail termina, invariavelmente,
com o fecho “Qualquer dúvida, volte a nos contatar novamente”, não é
de se estranhar que haja 800 e-mails a serem respondidos. E-mails mal
respondidos? Trabalho dobrado. Insatisfeito com o atendimento, o cliente vai
mandar novo e-mail – ou então procurar outra empresa. Passar informações
que o cliente não pediu significa criar problemas que o cliente não tinha.
Vou
parando por aqui, porque o texto vai ficando extenso demais e você não dispõe
de muito tempo. Falar nisso, ninguém tem tempo. É por isso que o processo
comunicativo deve, entre outras coisas, ajustar-se à geração dos “sem
tempo”.
Só
queria te dizer uma coisinha final. Muito já se investiu na melhoria da
qualidade do produto e muito já se investiu na melhoria da qualidade dos serviços.
É preciso agora investir – e muito – na qualidade de uma comunicação
clara, concisa, precisa e transparente.
Na
era da informação e do conhecimento, a comunicação tornou-se o grande
diferencial competitivo. Pense nisso!