São nove e meia da noite e estou dobrando à
direita na Paulista, saindo da Pamplona. Acabei de jantar e vou pegar a sessão
de cinema das dez logo adiante. Enquanto percorro a avenida me lembro de Tom
Jobim que, parafraseando Fernando Sabino, dizia que a melhor visão que se
podia ter de Nova Iorque era de maca! Sem ter uma maca à mão naquele
momento, olho para cima para melhor apreciar os belos edifícios da Paulicéia,
e vejo muitos escritórios acesos, gente circulando com papéis na mão, salas
com reuniões em andamento e a mesma cena se repetindo o cada novo prédio.
Estou indo para o cinema, mas parece que já estou assistindo à curta
metragem que antecede o filme principal, um curta meio chato e repetitivo.
Comecei então a especular sobre que título dar ao curta ao vivo a que eu
estava assistindo naquele instante. Que tal "O campeão de
horas-extras", ou "Vai trabalhar vagabundo II", ou "14
horas diárias de emoção", ou ainda "Será que meu chefe já foi
embora"? Finalmente cheguei no cinema para assistir Buena Vista, bem mais
interessante do que aquele curta que passa todas as noites na Paulista. Até
gostei de brincar com o assunto, mas ele é bem mais sério do que isso. Em
seu recente livro O Futuro do Trabalho – Fadiga e ócio na sociedade pós-industrial,
Domenico de Masi lembra que, antigamente, quanto mais rica menos a pessoa
trabalhava. Podia se dedicar a si, à família e aos amigos. Hoje, quanto mais
rico mais o homem trabalha. E não tem tempo para si próprio, para a família
e muito menos para os amigos.
Por quê? Por que tanta gente trabalhando depois do expediente, se lamentando
que não consiga jantar fora, nem conversar com seus filhos nem ir ao cinema
de vez em quando? Por que há pais trabalhando até dez da noite, enquanto
seus filhos estão desempregados? São as exigências do mundo globalizado e
de competição acirrada, dizem uns. É a busca de maior produtividade depois
da reengenharia, que mandou metade do pessoal embora, dizem outros. É devido
ao período de grandes mudanças pelo qual a empresa está passando no momento
(argh…). Pois eu digo que não é nada disso. Analisando com mais sensatez e
sinceridade os reais motivos que levam as pessoas a ficar no trabalho depois
do horário, não é difícil descobrir vários deles. Eis alguns deles:
1 - Ausência de outros interesses na vida. Quantas vezes já fiquei surpreso
numa conversa com a falta de interesse ou conhecimento de certas pessoas por
outra coisa que não fosse seu trabalho. Teatro, cinema, viagens, livros, música,
amigos, nada disso fazia parte do repertório delas. Aliás, minto: futebol
alguns conheciam bem. Já basquete, vôlei, tenis, natação, atletismo….
Pessoas assim não precisam nem querem chegar em casa cedo. Para fazer o quê?
Para ligar o computador e continuar trabalhando? O pior é que muitas delas
medem os outros por si próprias e, se são gerentes e diretores, seguram seu
pessoal até mais tarde, pois assim pelo menos vão ter companhia no escritório.
E que tal disfarçar isso usando seu poder e convocando uma reunião de revisão
de metas para as oito da noite?
2 - Valorizar o fato de estar trabalhando em vez de resultados obtidos. Em
muitas empresas, é comum se ouvir um já vai? Quando se sai no horário. Por
que ninguém diz que bom para você, já terminou seu trabalho. O fato é que
muitos até são eficazes, mas, por medo de sair no horário, ficam além do
expediente para não serem vistos como não cooperativos ou não engajados no
esforço de toda a equipe. Resultado: a saída se dá na hora em que o mais
ineficaz da equipe termina seu trabalho, ou está tão cansado que já não
diz coisa com coisa e resolve ir embora. Assim, estão mantidas as aparências,
ninguém destoa no time e a equipe parece coesa.
3 - Falta de respeito pelo outro. Em frente à escola de seu filho, há uma
fila dupla de carros despejando crianças (é bom lembrar que elas estão num
período de aprendizado), você reclama e não vê outra solução senão
inaugurar a fila tripla para largar seu pimpolho. No metrô, os assentos
destinados a gestantes e idosos estão cheios de rapazes e moças de cabeça
baixa (ou fingindo cochilar), esperando para ver se aquela velhinha que entrou
agora senta num lugar cedido por alguém que não eles. No supermercado, você
aperta todos os pães com a mão que acabou de pegar garrafas de refrigerante
para verificar os que estão mais frescos. Na fila do banco, torce para não
chegar mais nenhuma pessoa de idade e ser logo atendida (e quando você for
uma delas?) Por que então abrir exceções e respeitar o tempo dos outros?
4 - Desestruturação ou desorganização dos processos e métodos pessoais de
trabalho. Gosto de visitar o local de trabalho dos outros: sua mesa, sua tela
de computador, seus arquivos e pastas. Quantos poderiam gastar metade ou 1/3
do tempo que gastam hoje se ao menos fossem mais organizados e disciplinados
com essas coisas? A carteira de habilitação está vencida. Estão sempre no
cheque especial, pois as contas estão em débito automático e o saldo vive
negativo por falta de verificação periódica. E é claro que no trabalho o
ritmo é o mesmo: virada hoje e amanhã para entregar aquele trabalho que
ficou esquecido desde a semana passada, e que está sendo agora cobrado com
urgência pelo cliente (como é que eu fui esquecer logo disso, meu Deus?)
Para quem gosta de adrenalina….
5 - Crença nos valores da sociedade industrial em plena era pós-industrial.
É bom lembrar novamente De Masi dizendo que com a revolução industrial,
veio a migração para as cidades em busca de emprego, pois as indústrias
eram rudimentares e absorviam muita mão-de-obra. E para produzir mais os operários
enfrentavam jornadas estressantes de
14 a
15 horas diárias. Mas na primeira metade do século XX o advento de técnicas
científicas de gestão e de produtividade fez aumentar o volume produzido,
diversificou a oferta e melhorou a qualidade dos produtos. E na segunda metade
daquele século, a eletrônica e a informática se incumbiram de ampliar tudo
isso de forma mais limpa, mais rápida, mais barata e miniaturizada, e
principalmente com muito menos gente trabalhando. Mas tem gente que ainda acha
que trabalho e resultados devem representar também suor e muita carga horária.
6 - Medo de admitir que sua carga horária vá diminuir. Antes da revolução
industrial, operários e escravos trabalhavam poucas horas por dia, camponesas
trabalhavam apenas durante o plantio e colheita, ficando inativos pelo resto
do ano. Diversas festas pagãs e depois cristãs preenchiam o resto do tempo.
E tudo indica que, passada a fase industrial, retornamos a tempos parecidos
com aqueles. A automação está acabando de tirar do homem o trabalho de
fazer com as próprias mãos, e a informatização já está adiantada em seu
trabalho de nos tirar parte também do pensar e decidir. O que nos restará
senão criar ou usufruir? Muitos ainda não se deram conta disso e não sabem
ainda o que fazer numa sociedade de lazer, com pouquíssimas horas de
trabalho.
7 - Pavor do desemprego. É verdade, muitos se sujeitam calados a toda e
qualquer imposição no trabalho desde que não sejam demitidos. Acho difícil
argumentar contra tal atitude, pois o instinto de preservação fala mais
forte nesses momentos. E muitas empresas fazem esse jogo sujo com seu pessoal
(não gostou, tem gente na fila de espera pronta para sentar no seu lugar).
Mas conheço gente competente, que tem mais de um emprego garantido no mesmo
dia em que pedir demissão de tais lugares, e se sujeita a isso porque não
acredita em seus próprios talentos e capacidade.
8 - Certeza de que existem pesoas indispensáveis. Se eu não fizer, sei que
ninguém conseguirá fazer, pois essa carga de trabalho só mesmo eu aguento.
Quem mais faria isso? Se quiserem me substituir, vão ter que arranjar três
para fazer o que faço, e eles não são loucos de me mandar embora agora (nem
nunca!). Convencido de seus próprios argumentos trabalha 14 horas por dias,
muitas vezes aos sábados. Enquanto isso, seus chefes estão fazendo as
contas: fulano custa tal e rende tanto, sem esquecer que gasta mais energia,
mais material, mais equipamento, o risco é alto porque apenas um está
fazendo o trabalho (e se ele adoecer?), a segurança precisa ter mais gente até
mais tarde, etc, etc, etc. E decidem que é melhor minimizar riscos, contratar
gente nova, mais barata e que faça aquele trabalho dentro do horário do
expediente. E dispensar o funcionário indispensável.
9 - Aplicar o velho truque de esticar o trabalho. A idéia central é aumentar
e valorizar o tempo de cada atividade, de modo a que as horas do dia se
esgotem e falte tempo para terminar as tarefas. Pronto, estão justificadas as
horas extras. Pensam que isso é novidade. Engano. Nos idos de
1957, C
. Northcote Parkinson escreveu o clássico A Lei de Parkinson, traduzido para
o português pelo grande humorista Silveira Sampaio, e a primeira frase do capítulo
I diz que o trabalho aumenta a fim de preencher o tempo disponível para sua
conclusão. Querem coisa mais atual quase 50 anos depois? Não sou dono da
verdade e queria ser contestado, mas minha experiência de 20 anos trabalhando
em muitas empresas com programas de Organização Pessoal e Tempo diz que
apenas 1 em cada 5 profissionais precisa de 8 horas diárias efetivas de
trabalho, e 1 em cada 20 realmente precisa fazer horas extras em períodos críticos,
mas não necessariamente todos os dias.
10 - A segurança no trabalho e a insegurança
em casa. Coisa
de polícia, assaltantes na rua e problemas da cidade grande? Nada disso. No
trabalho eu sou gerente, diretor, executivo ou sei lá o quê, o fato é que
mando e todos obedecem, tenho um poder que não é contestado e que exerço ao
meu bel prazer. Já em casa, meus filhos são adolescentes e sabem mais informática
do que eu. Lêem mais do que eu, navegam muito mais do que eu e estão a par
de novidades que desconheço
em absoluto. E
eu preciso dialogar muito mais e convencê-los ao invés de dar ordens. Minha
mulher é preparada, e a opção de não trabalhar para criar os filhos
precisa ser reconhecida e premiada (se é que eu sou um cara justo). Ou minha
mulher trabalha e tenho também tarefas em casa que devo fazer e prestar
contas. Meus pontos de vista são às vezes questionados, recebo conselhos de
como me vestir e me portar, críticas de como tratei meu pessoal no escritório
e de como conduzí os negócios. Ah, no trabalho é mais seguro…
Você leu tudo até agora e conhece muita gente que se enquadra em cada um dos
pontos acima, mas, graças ao bom Deus, você mesmo não se enquadra em nenhum
deles. Que bom. Nas palavras do grande economista John Maynard Keynes, você
está pronto para se encontrar com seu verdadeiro e constante problema, que é
como empregar o tempo livre que a ciência e o conjunto de interesses terão
ganhado para que você viva bem, agradavelmente e com sabedoria. Keynes
escreveu isso em 1930 para seus netos, como uma visão e antecipação do
futuro. Só que esse tempo vislumbrado por ele é agora. Mas se você se
enquadra em um ou mais pontos citados acima e ainda não está preparado para
esquecer as horas extras, vamos lá, não desanime. Sempre é hora de pensar e
mudar. Boa sorte.
Fernando H. da Silveira Neto
Professor dos Departamentos de Informática e Eng Industrial/Produção da
PUC-Rio, professor dos MBAs da FGV em Gerência de Projetos, mestre em Eng.
Industrial e Eng. de Telecomunicações e consultor.