O diferencial na seleção de executivos
O diferencial na seleção de
executivos
Se conduzir um processo seletivo
convencional nem sempre é uma tarefa fácil de ser cumprida, quanto mais quando
o foco em questão é a seleção de um executivo. As diferenças são
significativas entre esses dois tipos de seleção e quem irá localizar o novo
talento precisa realizar fases complexas que exigem ética e pesquisa no
mercado. Para falar como um processo de seleção para executivos deve ser
conduzido, o RH.com.br entrevistou Luiz Felipe Calazans. Consultor sênior e sócio-diretor
da Transearch Brasil. Calazans possui 40 anos de experiência e é especialista
em seleção de cargos e funções diretas nas áreas de RH, jurídica,
financeira e controladoria. "A meu ver todos os possíveis ângulos e
facetas de um profissional que aceita participar de um processo ou projeto
seletivo, devem ser abordados", afirma ao ser questionado sobre o que deve
ser abordado numa seleção de executivos. Confira a entrevista e boa leitura!
RH.COM.BR - Qual o diferencial entre a
seleção de executivos para os demais processos seletivos?
Luiz Felipe Calazans - Todo o processo seletivo deve ser cercado de
cuidados para evitar a exposição desnecessária do candidato. Quando se trata
de seleção de executivos quanto mais alto o nível dos profissionais
considerados, mais refinado deve ser o trato e os cuidados que os mesmos devem
receber, em razão do alto grau de responsabilidades de seus cargos, que na
maioria das vezes envolve um grande volume de recursos, sejam eles humanos,
financeiros ou materiais. Via de regra eles são abordados e convidados a
participar do processo seletivo. Isto tudo faz uma diferença incrível quando o
comparamos com processos convencionais de seleção que na sua maioria são
recrutados via anúncio em jornais.
RH - Quais os cuidados que o consultor
deve ter ao recrutar e selecionar executivos?
Luiz Felipe Calazans - Um consultor em seleção de executivos deve
apresentar-se num ambiente refinado, sóbrio, ambiente parecido ou que guarde
alguma semelhança com o ambiente de trabalho do profissional que está sendo
entrevistado e avaliado. A mesa que "separa" um do outro deve ser
redonda ou oval, para tirar a impressão de separação, de desigualdade, de
diferença. Quanto mais iguais, mais solta rola a conversa. O profissional deve
sentir-se num confessionário, aberto, contudo, sem aquela tela. Ele deve ser
tratado como um igual diferenciado. Ele tem que sentir confiança e
credibilidade no seu interlocutor, afinal, ele vai falar de uma das coisas mais
importantes de sua vida. Do seu trabalho, carreira, ambições e sonhos, do
chefe, família, esposa, do filho com problemas de droga, enfim da essência de
sua vida. Imagine você o nível de cuidados, respeito, senioridade que um
consultor em seleção de executivos deve oferecer e ter, para obter as informações
que lhe interessam.
RH - O que se deve evitar num processo
desse porte?
Luiz Felipe Calazans - A quebra do sigilo, tanto da empresa contratante,
quanto do profissional que está sendo entrevistado. Perguntas que firam a ética
ou sejam inoportunas, irreverentes ou impertinentes. Pegadinhas por exemplo.
Todo processo seletivo deve ser conduzido dentro da máxima franqueza e clareza
de modo a proporcionar o desenho mais próximo da realidade que ele vai
enfrentar. Todo o cuidado ainda é pouco.
RH - Quais as fases que o Sr. considera
indispensáveis numa seleção de executivos?
Luiz Felipe Calazans - Um processo seletivo de executivos envolve três
ou quatro fases que considero fundamentais e que na sua ordem são as seguintes:
uma descrição do cargo ou função; um perfil detalhado e factível do seu
futuro ocupante; uma avaliação clara, objetiva e honesta da cultura
empresarial. Isto é essencial. Daí advém o que denominamos de "casamento
cultural", sem o qual é muito difícil que o candidato aceito permaneça
por muito tempo na empresa contratante.
Com o retrato já consensuado, vem a segunda parte do processo que é o da
identificação e recrutamento dos possíveis interessantes e interessados
profissionais, dentro de uma long list de empresas que apresentem
características similares às do contratante. Identificado o alvo da "caça",
procura-se um sigiloso, cuidadoso e habilidoso contato, com o mesmo, de sorte a
se ter um mínimo de informações que nos permita avaliar se vale ou não a
pena entrevistá-lo pessoalmente. Esta fase normalmente é conduzida por um
profissional que denominamos pesquisador, treinado para fazer um trabalho
refinado e importante. Normalmente nossa long list contém entre 70% e
90% do mercado potencial, a grosso modo, dentro do perfil e que feita a depuração,
através as informações obtidas, vão para a próxima fase.
RH - As próximas fases têm a mesma
importância que as duas primeiras?
Luiz Felipe Calazans - A terceira fase é de muita importância também,
pois é quando o consultor responsável pelo projeto define com o pesquisador
quais daqueles, 30, 50, 100 ou mais deverão ser chamados para entrevista
pessoal com o mesmo. Cada entrevista pode durar de 1h30 até 3h. Escolhidos os
eleitos, sob nossa ótica evidentemente, elabora-se um relatório detalhado das
experiências adquiridas e resultados alcançados, ao qual se soma um parecer de
entrevista, que expõe a visão e opinião do consultor responsável sobre cada
um dos finalistas. Preparado esse relatório final, composto de 3 a 5
profissionais que a nosso ver preenchem os requisitos solicitados no começo. O
mesmo é entregue pessoalmente - é o que se recomenda - pelo consultor,
oportunidade na qual ele tem a possibilidade de discutir pessoalmente com o
requisitante os perfis dos recomendados. Nessa etapa do processo, passamos a
"bola" para o cliente, que sob nossa coordenação passa a entrevistar
os candidatos, tantas vezes quantas forem necessárias, até que surja um
finalista. Entramos agora na última etapa do projeto, nesta fase, que é a
negociação com o escolhido, da qual, em geral, participamos como mediadores e
avalistas. Ela termina com contratação e admissão do escolhido. Essa é
ultima fase de um processo seletivo de um executivo que poderíamos denominar de
"garantia acompanhada". Durante todo o período de garantia que
asseguramos pelo trabalho efetuado, dentro de certos parâmetros, que via de
regra é de 12 meses, nós também efetuamos o acompanhamento da integração do
profissional no seu novo mundo de sorte a prevenir eventuais escorregões. Todas
as fases que citei são absolutamente importantes, essenciais e
interdependentes.
RH - Quais os erros mais comuns que os
consultores cometem ao entrevistar um executivo?
Luiz Felipe Calazans - O principal erro que um consultor em seleção de
executivos está sujeito é a soberba, quando ele pretende assumir o papel de
Deus. E veja que Jesus que era homem e Deus ao mesmo tempo errou na escolha de
um de seus 12 discípulos, que veio, posteriormente, a traí-lo. Toda vez,
nestes quase 40 anos de consultoria, que me é delegado um projeto, a sensação
que sinto é como se fosse a primeira vez, de sorte que toda atenção ainda é
pouca, a tensão típica da primeira vez me invade e me toma por completo.
Contudo, o maior erro que um consultor pode cometer é, sem dúvida alguma, em não
possuindo as competências necessárias para o exercício de tal ofício e se
meter a fazê-lo.
RH - Quais as principais questões que
devem ser abordadas durante uma entrevista desse tipo?
Luiz Felipe Calazans - Mais uma vez, vejo-me colocado diante de um
dilema: existem questões que não devem ser abordadas, numa entrevista de
consultor?
A meu ver todos os possíveis ângulos e facetas de um profissional que aceita
participar de um processo ou projeto seletivo, devem ser abordados. Vida
familiar, formação acadêmica formal e informal, experiências adquiridas,
resultados alcançados, qualidade do resultado, características de
personalidade, caráter, cultura empresarial, competências - estilo gerencial,
habilidades pessoais e de relacionamento, dentre outras. Enfim, uma avaliação
integral que envolve a probabilidade de uma aderência perfeita entre o
contratante e o contratado. Nesses processos entra muito de sensibilidade, feeling,
"cheirômetro", química, "bater o sino", expressões ou
jargões utilizados com freqüência na nossa atividade que nada mais é que o
fator indicativo do grau de percepção que o consultor consegue adquirir e dele
se utilizar para uma perfeita avaliação da situação encontrada e o agente
que pode resolvê-la e enfrentá-la.
RH - A seleção de executivos deve ser
conduzida preferencialmente por uma consultoria externa?
Luiz Felipe Calazans - Busca-se um executivo fora dos quadros funcionais
e orgânicos de uma empresa quando essa não possui quadros próprios, ou por
falta de estrutura, ou por circunstâncias especiais e específicas daquele
momento. Portanto, a empresa por uma razão ou outra não possui um
"reserva" à altura para ocupar uma determinada e importante função.
O que fazer? Ela tem a opção de buscar esse executivo por seus próprios meios
ou contratar uma consultoria séria e experiente. As empresas normalmente
possuem uma estrutura interna de recrutamento e seleção relativamente pequena,
mais voltada para o operacional ou cargos mais simples, de baixa sofisticação
ou de pouca importância estratégica. Uma estrutura para atender a demanda do
dia-a-dia. Quando ela se vê na contingência de buscar um profissional maduro,
para ocupar função estratégica e que por sua ação altera o bottonline
da empresa - o resultado final - para o positivo ou para o negativo -
alternativa inválida -, é prudente e aconselhável que o faça através de
recursos externos. Primeiro porque não é o negócio da empresa, segundo que
isso é trabalho para especialistas que sabem onde, quando, como e quem
identificar para resolver essa situação. É o nosso dia-a-dia. O principal
problema é saber escolher a consultoria a ser contratada. As 15 maiores do
mundo, fora as locais, operam no Brasil. Mas isto é uma outra estória que fica
para uma outra vez.
RH - O custo de um processo de R&S
de executivos é obrigatoriamente elevado?
Luiz Felipe Calazans - Todo o recurso mal aplicado é caro. Todo o serviço
mal feito ou inacabado por incompetência é muito caro. Portanto, a relação
que deve ser posta a mesa é a de "custo benefício" como primeiro
argumento. O segundo contradiz a afirmação da questão, posta sob reflexão e
análise no momento atual. Foi-se o tempo em que esse serviço era realmente
muito caro e até extorsivo. É um mea culpa. Mas também não
"carecia" distorcer e sub-remunerar esse trabalho que é de capital
importância para a comunidade empresarial. Hoje se trata de um commoditie
e virou uma guerra de preço. Nós acreditamos que praticamos um preço justo e
honesto neste mercado maluco. Não praticamos a política dos honorários
inegociáveis, nem tampouco o "a qualquer preço". Temos um valor padrão
que pode oscilar em razão de "n" variáveis, como maior ou menor
dificuldade em se encontrar o perfil adequado para aquela circunstância, número
de projetos concomitantes, grau de fidelização do cliente, entre outras. Óbvio
que você vai encontrar, ainda gente que cobra muito caro, no mercado. Diz-se
que o que é caro é bom. Nem sempre. Nós cobramos o justo.
RH - Por que as empresas sentem
dificuldade de selecionar executivos?
Luiz Felipe Calazans - Porque não é a praia delas, e em geral não o
sabem fazer. Quando sabem, contudo, se deparam com uma série imensa de obstáculos
que dificultam sobremaneira a efetivação e, por conseguinte, a conclusão de
um processo seletivo in house.
RH - Atualmente, quais as competências
que as empresas buscam encontrar nos executivos?
Luiz Felipe Calazans - De pronto eu responderia que todas. Quanto mais
completa e diversificada seja sua carreira, mais preparado ele tende ele a ser.
Vamos por partes, para melhor me explicar. Juventude significa, mente aberta
para mudar quando preciso e estar aberto a novos conhecimentos e experiências.
No aspecto etário, dependendo das circunstâncias, estamos falando de
profissionais de 35 a 50 anos, em média. Isso não significa que executivos
mais velhos não tenham oportunidades. Formação acadêmica que contemple uma
formação básica universitária em boas e conceituadas escolas, acrescida de
um mestrado de preferência nos Estados Unidos ou na Europa, cursos de extensão
e especialização e domínio de um ou mais idiomas. Experiência internacional
é um fator de muita importância. O mundo dos negócios, com a Globalização,
exige esse tipo de perfil. Visão estratégica, com a competência de
implementar taticamente essa visão, sempre com o olhar e as ações voltadas
para os objetivos e resultados esperados. O profissional moderno de sucesso tem
de ter habilidades e conhecimentos diversificados, em finanças, em marketing,
em suply chain, possuir liderança motivadora para conduzir sua equipe
para o atingimento dos objetivos colimados. Facilidade de relacionamento que lhe
permita estruturar um network, uma cadeia de contatos que favoreça sua
estratégia pessoal e funcional. Sensibilidade social e ambiental começam a
aparecer nas competências requeridas, acompanhada de ações práticas neste
campo.
RH - Que dicas o Sr. daria para quem vai
conduzir um processo voltado para executivos?
Luiz Felipe Calazans - É só você olhar com redobrada atenção as
repostas dadas às diversas perguntas efetuadas para que se obtenha essas dicas.
Se você se refere a um selecionador interno, é pura perda de tempo. Se você
se refere a um consultor iniciante ou que ainda não atingiu uma certa
senioridade, jovem e interessado, eu diria que ele deveria, para obter sucesso
em sua empreitada, ter um nível de informação bastante abrangente e profundo
do que se vai procurar, perfil, competências, mercado. Jamais assuma o
compromisso de sucesso sem ter as informações detalhadamente expostas e que
lhe sobrem poucas dúvidas, que possam ser esclarecidas no decorrer do processo.
Não entre no escuro porque você vai tropeçar e cair. Nunca dê chance para o
cliente perder a confiança no seu trabalho e desempenho.
Patrícia Bispo |