O GRANDE DITADOR
O GRANDE DITADOR
Receitas para o sucesso
empresarial há muitas, mas poucas fazem rir e menos ainda são dadas por
artistas geniais de maneira simples e contagiante. Charles Chaplin é exceção.
Traz conselhos úteis para o empresário moderno e desperta nossa sensibilidade
para o infinito talento humano. Especificamente em O grande ditador (The
Great Dictator, 1940), critica o nazismo e dá lições que servem para o
executivo contemporâneo atingir seus objetivos.
1 – Criatividade. Basta
lembrar da cena antológica em que o barbeiro interpretado por Chaplin faz a
barba de um cliente ao ritmo da Dança húngara nº 5, de Brahms. Os
geniais gestos precisos e harmônicos são o contraponto do ditador Hynkel, paródia
de Hitler também interpretado pelo ator londrino, que toca o instrumento de
maneira rígida, mecânica e insensível.
2 – Valorizar os sentimentos
e as pessoas. Ao final do filme, o barbeiro ocupa o lugar do ditador e pronuncia
um discurso em que condena a cobiça, o ódio e a tecnologia burra; ou seja,
aquela que não produz benefícios para a sociedade, mas apenas privação. Em
suma, seres sábios e sem bondade; ou reflexivos sem coração levariam a
Humanidade ao fracasso.
3 – Linguagem não-verbal.
Hynkel fala no filme um idioma desconhecido, mas eficiente. Na primeira vez em
que aparece realiza um discurso em que entendemos o que quer dizer pelos gestos
e olhares, pois os sons que produz são inteiramente desconhecidos. Em outra
cena, a voz do ditador é ouvida no gueto judeu e, embora não entendamos o que
diz, suas inflexões e modulações vêm marcadas de autoridade e autoritarismo.
4 – Capacidade de enfrentar
dificuldades. Hynkel encontra, para uma reunião política, o ditador de Bactéria,
Napaloni, uma crítica de Mussolini. O primeira tenta se sobrepor
psicologicamente usando estratégias bem elaboradas: recebe o líder numa sala
imensa e pomposa, senta-se atrás de uma grande mesa e opta por uma cadeira
digna de um rei. Mas tudo dá errado. Napaloni entra por outro lugar, não se
senta onde Hynkel espera e acaba intimidando em vez de ser intimado.
5 – Ter um ideal. O barbeiro
sonha em viver ao lado de Hannah, uma órfã que mora no mesmo edifício onde
está a sua barbearia. É nela que está pensando quando profere seu discurso
final. Ela é a sua missão, seu objetivo e sua esperança de conseguir viver
num mundo melhor. Seu discurso deixa isso claro e ela o ouve emocionada numa
granja onde tenta fugir dos militarizados invasores liderados por Hynkel.
Curiosamente, Chaplin e Hitler
nasceram no mesmo ano (1889), com apenas quatro dias de diferença. Mais fantástico
ainda é ambos usarem um bigode semelhante, fator de que o humorista se valeu
com muita propriedade. As semelhanças, porém, param aí. Em seu filme, o
cineasta defende a democracia, a liberdade, a solidariedade e a igualdade. Além
disso, dá lições que um empresário e – o que é mais importante – um ser
humano de sucesso não pode desprezar.
O autor Oscar D'Ambrosio é
jornalista, pós-graduado pela ECA/USP , atua na Assessoria da UNESP, além de
ser resenhista do Jornal da Tarde (SP) e Revista Problemas Brasileiros.
É co-autor de "Síndrome da Passividade" (Makron Books). odambros@reitoria.unesp.br |