O Jogo Como Metodologia Do Aprendizado
Uma
pessoa não pode ensinar algo a um homem.
Uma
pessoa somente pode aprender consigo mesma.
Galileu
Galilei
INTRODUÇÃO
A
adoção de um jogo, como método de trabalho para conscientizar um grupo de
profissionais em relação à determinada abordagem conceitual, ou prática,
considerada fundamental para o trabalho apresenta um conjunto de cuidados, para
o seu sucesso:
-
Se
o jogo apresenta uma alta ameaça e um alto desafio, tende a provocar
sentimentos de ansiedade e gera inibição do aprendizado;
-
Se
o jogo apresenta uma alta ameaça e um baixo desafio, tende a provocar
sentimentos de desconforto e inibe o aprendizado;
-
Se
o jogo apresenta uma baixa ameaça e um baixo desafio tende a provocar
sentimentos de indiferença e inibe o aprendizado;
-
Se
o jogo apresenta uma baixa ameaça e um alto desafio, tende a provocar
sentimentos de adequação e gera maior eficácia no aprendizado1.
________________
1
- Entendendo o cérebro – Rumo a nova ciência do Aprendizado, Organização
para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico, apud VILA, Magda &
SANTANDER, Marli. Jogos Cooperativos no Processo de Aprendizagem Acelerada.
A
construção de jogos, portanto, deve levar este aspecto em consideração, de
forma a gerar uma perspectiva de bom resultado e não um exercício de frustração
ou insucesso.
JOGANDO
PARA VALER
As
pessoas entram no jogo com um misto de curiosidade e uma necessidade de provar a
ela mesma, e aos demais, que está em condições de responder a desafios. Estes
desafios devem provocar uma motivação suficiente para manter acesa a chama da
competitividade. Se isto for alcançado, o jogo terá alcançado seus resultados
de forma eficaz.
Faz-se
necessário elaborar o jogo com todo o cuidado. Suas instruções, ou briefings,
devem ser geradores da vontade de participar, e não um aglomerado de instruções
ininteligíveis; devem, portanto, ser acessíveis ao nível cultural do grupo a
ser treinado.
A
criatividade só faz sentido se estiver associada a um objetivo. Se não houver
este objetivo não há como ser criativo2.
__________
2
- MENNA BARRETO, Roberto. Criatividade no Trabalho e na Vida. SP: Summus
Editorial, 1997
A
adoção do jogo como metodologia de aprendizado deve ter um objetivo específico.
O jogo pelo jogo, não tem valor. Provavelmente não atingirá seu objetivo e os
participantes tenderão a considerá-lo perda total de tempo.
O
que queremos explorar com o jogo? Quais os instrumentos de ação a serem
explorados durante sua realização? Por que aplicar o jogo e não um
treinamento convencional, com exposições dialogadas e algumas atividades práticas
para consolidação de conceitos?
O
jogo só faz sentido se for necessário associar a aplicação prática a um
conceito de importância fundamental, para o negócio ou à operação.
O
jogo deverá estar ligado a outras atividades de aprendizado, durante as quais
os profissionais terão a oportunidade de acessar novos métodos de trabalho, ou
formas comportamentais mais eficazes de atingir seus resultados.
O
jogo, pelas suas características, permite um diagnóstico das situações
apresentadas. Ele permite também que se observe nos participantes, eventuais
atitudes capazes de identificar desenvolvimento pleno ou áreas de carência.
Desta
forma, o jogo, além de ser conduzido por um facilitador (em geral, um
profissional de fora da empresa), deve ser observado, formalmente, por
profissionais da empresa patrocinadora.
Esta
observação permitirá a introdução de variáveis modificadoras sobre o jogo,
durante sua realização. Permitirá também, que o facilitador seja municiado
de informações sobre os diversos desempenhos e sua importância no contexto.
O
jogo tem uma estrutura já consolidada, mas permite alterações em sua ação,
no sentido que novos pontos possam ser observados (comportamentos, respostas a
desafios, reações a determinados tipos de pressão, propostas de ação).
O
jogo deve ter um fechamento, para os participantes sentirem que conseguiram
completar um ciclo. Jogos que envolvem negociação, por exemplo, devem dar a
sensação que todo um ciclo negocial foi completo. É assim na vida real, deve
ser assim no jogo!
As
regras do jogo devem ser claras e clarificadas (a redundância se faz necessária)
no seu início. Se as regras são diferentes da realidade, elas devem ser
demonstradas e justificadas no início, para que os participantes não gerem
barreiras à sua experiência.
A
adoção de um contrato de desempenho entre o facilitador e os participantes é
essencial. Ele permite que a fase inicial, as fases intermediárias e a conclusão
sejam perfeitamente assimiladas por toda a comunidade envolvida.
ETAPAS
DO JOGO
É
importante que, para o jogo ser respeitado, tenha um conjunto de etapas, capazes
de ordenar sua estrutura e implantação:
-
O
material deve ser elaborado com antecedência, de maneira a permitir
eventuais correções, antes da realização do jogo;
-
A
distribuição de papéis, de forma à construção de equipes, que, na
medida do possível, devam ser formadas por componentes que, habitualmente,
não trabalhem juntos de forma rotineira;
-
Além
do briefing, que contém todas as informações para os
participantes, deve haver um conjunto de documentos de apoio, para colocar
em prática toda a operacionalização do jogo;
-
A
leitura do material deverá ser feita no início do jogo, para internalização
dos conceitos, etapas e objetivos;
-
O
facilitador deverá se colocar à disposição, para o esclarecimento de dúvidas
e questionamentos sobre o jogo;
-
O
tempo do jogo deverá fazer parte do contrato de desempenho, permitindo aos
participantes estruturarem seu planejamento;
-
O
contrato de desempenho deverá estabelecer que todos os acontecimentos
ocorridos durante o jogo farão parte do mesmo; não devendo extrapolar o
ambiente, sob pena de comprometer toda a atividade;
-
Deverá
ficar claro para os participantes a impossibilidade (ou não) de se criar
regras adicionais, para a execução do jogo; não é recomendável, pois
torna ilimitado o seu contexto; as regras existem e devem ser respeitadas
por todos;
-
A
avaliação ao final do jogo é importante para a construção de uma ponte
entre o vivenciado durante o jogo e a realidade a ser alcançada ao final.
TIPOS
DE JOGOS
O
universo dos jogos permite uma série de aplicações, a partir de recursos e
instrumentos disponíveis:
-
Jogos
que tenham a finalidade de aproximar as pessoas e quebrar gelos e barreiras
iniciais para o exercício de ações coletivas;
-
Jogos
de integração de equipes, nos quais os participantes, através do
desempenho de papéis, interajam com seus companheiros de equipe;
-
Jogos
reflexivos, que permitam ao participante fazer uma auto-avaliação de suas
atitudes e comportamentos frente a um objetivo;
-
Jogos
estratégicos ou de gestão, onde os participantes têm a oportunidade de
verificar sua iniciativa e reação a instrumentos básicos de gestão –
planejamento, organização, negociação e busca de resultados;
-
Jogos
de resgate ou fechamento, onde os participantes possam voltar à realidade
com a experiência vivida. Estes jogos podem ser aplicados,
complementarmente, a quaisquer outros tipos de jogos.
MODELOS
DE JOGOS
Para
a aplicação da metodologia encontram-se disponíveis vários modelos a serem
utilizados:
-
Jogos
vivenciais, onde os participantes desempenhem papéis específicos, pré-determinados,
em uma comunidade de situações monitoradas;
-
Jogos
do tipo quebra-cabeças (puzzles), excelentes para o aprendizado lúdico
em equipe; o grau de dificuldade deve ser proporcional à capacidade e formação
dos participantes;
-
Jogos
negociais, com abordagem na negociação comercial, na negociação
gerencial e na negociação sindical;
-
Jogos
dirigidos, onde, a partir de uma série de informações, o grupo deva
atingir um objetivo, em determinado prazo e sob determinadas condições;
-
Jogos
conceituais, onde o grupo, por meio de instruções específicas, conclua a
estrutura de um determinado conceito, substituindo uma exposição ou
palestra do facilitador: este tipo de jogo, em geral, possui um gabarito,
com os conceitos a serem trabalhados.
O
uso da informática na aplicação de jogos deverá ser levado em consideração,
desde que sua introdução seja um recurso, não eliminando a auto-avaliação e
a reflexão dos participantes quanto à qualidade de seu desempenho.
CONCLUSÃO
O
jogo, como metodologia de trabalho, em programas de aprendizado, é um
instrumento de grande valia para os profissionais envolvidos com o
desenvolvimento individual e organizacional.
Na
visão de Schrage, a mudança comportamental é mais importante que as alterações
tecnológicas. As perspectivas mais interessantes não ocorrem da observação
do que esses novos dispositivos possam realizar, mas de sua utilização para
observar como as pessoas e suas organizações se comportam.
___________
SCHRAGE,
Michael. Jogando para valer: como as empresas utilizam simulações para inovar.
RJ: Campus, 2001.
É
importante lembrar:
-
O
jogo tem como finalidade simular uma realidade que, embora diferente da
vivida "lá fora", traga atitudes e comportamentos semelhantes aos
praticados;
-
A
capacidade em responder aos desafios mostrando uma similaridade próxima da
realidade: pode haver um "teatro" nos primeiros minutos, mas ele não
resiste por muito tempo pois a realidade logo aparece;
-
Não
se montar jogos com semelhança total com a realidade da instituição
patrocinadora: haverá um risco muito grande de se discutir, durante o jogo
a operação e não os comportamentos e seus resultados;
-
Ao
se colocar uma realidade específica para o jogo, ele traga, de imediato, a
veracidade das atitudes e comportamentos e estes é que devem ser
analisados, quanto à sua eficácia e capacidade geradora de resultados.
O
jogo é um excelente instrumento de análise, diagnóstico e identificação de
necessidades de desenvolvimento e aperfeiçoamento.
Mas
não é uma panacéia que resolverá conflitos ou disfunções comportamentais
internas.
Porém
permitirá que se identifiquem quais são e onde atuam. E, portanto, têm condições
de indicar os prováveis caminhos para a solução.
MATERIAL
RETIRADO DO PROGRAMA JOGOS DE NEGÓCIO.
Material
retirado do Pocket MBA Melhoria de Performance Gerencial.
FRANCISCO
BITTENOURT
Consultor
Sênior do Instituto MVC
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