O Papel do Psicólogo Organizacional na Gestão da Qualidade Total
O Papel do Psicólogo
Organizacional na Gestão da Qualidade Total
Enquanto psicóloga, tenho uma
certa preocupação com a atual forma de atuação do psicólogo organizacional
e com o futuro de nossa profissão nesse âmbito. Percebo que não estamos
sabendo lutar pelo nosso espaço nas organizações e que ele tem sido, cada vez
mais, conquistado por profissionais de diferentes áreas de conhecimento, como
os administradores, economistas e sociólogos, entre outros. Acredito que este
fato é decorrente da atuação do psicólogo organizacional ainda estar
extremamente voltada ao recrutamento e seleção, à aplicação de testes
psicológicos e à dinâmica de grupo, bem como do psicólogo não ter clareza
do seu atual papel nas organizações.
O trabalho do psicólogo
organizacional não pode ser individualizado e descontextualizado do ambiente
onde a organização está inserida. Ele deve atuar como um profissional de
Recursos Humanos e desenvolver atividades que supram as necessidades das
organizações e as auxiliem a tornarem-se competitivas e a sobreviverem nesse
mercado globalizado, onde o Capital Humano e a Qualidade Total são os pontos
chaves para o sucesso organizacional. Nesse sentido, o papel do psicólogo
organizacional é fundamental para alcançar níveis excelentes de Qualidade por
toda a organização.
Em vista a estas questões,
recentemente realizei uma pesquisa numa empresa situada em Florianópolis/SC e
bastante conceituada pela excelência nos produtos e serviços oferecidos aos
clientes. Meu objetivo foi analisar o perfil, o papel e as áreas de atuação
dos profissionais de Recursos Humanos no Programa de Gestão da Qualidade Total.
Diante dos resultados,
constatei que seus profissionais de Recursos Humanos apresentam papel essencial
e estratégico no Programa de Gestão da Qualidade Total ISO 9000, participando
ativamente do Planejamento à Manutenção de tal programa.
Quanto ao perfil, cada
profissional possui formação universitária e pós-graduação. É preciso uma
formação na área específica em que atuam, mas é o aperfeiçoamento pós-acadêmico
desses profissionais que vai garantir sua sobrevivência no mercado de trabalho.
São profissionais bastante atualizados com as tendências e transformações sócio-econômicas
e culturais, lêem muito e estão sempre se qualificando, através de cursos,
seminários, congressos e especializações.
Entretanto, afirmaram que o quê
mais contribui para o seu sucesso na Gestão da Qualidade Total, são suas
habilidades de saber se relacionar e se comunicar; ser pacientes e flexíveis,
ao se deparar com pessoas tão diferentes umas das outras; ser éticos ao lidar
com as inúmeras informações que recebem; ter habilidade para negociar e
convencer as pessoas; ser humilde ao mostrar a maneira correta de agir e,
principalmente, gostar de trabalhar com seres humanos.
No que se refere à forma de
atuação desses profissionais, prestam consultoria interna aos colaboradores em
suas funções. Vêem seu trabalho como de acompanhamento, orientação nas
dificuldades surgidas; apontando as falhas no processo e sugerindo melhorias.
Entendem que suas atividades
devem estar conectadas aos setores da empresa e encaram seu papel como o de
"multiplicador", de "captador" do potencial de seus
colaboradores. Atuam no sentido de "facilitador" do processo da
qualidade, desenvolvendo atividades que gerem a motivação dos colaboradores,
pois são estes que vão garantir a qualidade por toda a empresa.
Esses profissionais desenvolvem
atividades nas seguintes áreas de atuação:
- Recrutamento: Trabalham em parceria com os
gerentes de áreas. O psicólogo identifica os candidatos e o gerente de área
escolhe quem fará parte de seu time de trabalho. O psicólogo orienta os
gerentes em suas dificuldades e dúvidas, de forma a garantir que o perfil
profissiográfico seja o mais indicado para determinada função e esteja
relacionado aos objetivos e política da empresa e à cultura da qualidade.
- Treinamento: Desenvolvem uma série de
treinamentos, que são programados a partir do levantamento de necessidades
da empresa. Consideram os treinamentos como educação, auxiliando na mudança
de hábitos e na transmissão de conhecimentos e valores. Como meios de
levantamento de necessidades, utilizam a administração de desempenho; as
reclamações e sugestões de clientes internos e externos; o número de
acidentes do trabalho; as solicitações das gerências para sanar alguma
dificuldade em seu setor de trabalho, as auditorias e as transformações em
nível mundial.
- Auditorias: Para a manutenção dos níveis
da qualidade por toda a empresa, seus profissionais desenvolvem um conjunto
de atividades relacionadas às auditorias. São responsáveis pela escolha e
formação/treinamento dos futuros auditores para a qualidade e pela realização
das auditorias propriamente ditas. As auditorias são meios de detectar se
as pessoas estão conscientes dos objetivos da qualidade, bem como é uma
oportunidade para conversar e perceber as dificuldades enfrentadas pelos
colaboradores no ambiente de trabalho.
- Realizam trabalhos referentes à formação
de líderes organizacionais; desenvolvimento de equipes de trabalho e
treinamentos ao nível de gerência, de modo a transformar gerentes técnicos
em gerentes de recursos humanos.
Todas as atividades realizadas
por esses profissionais têm como metas atingir o envolvimento e comprometimento
de todos os colaboradores com a cultura da qualidade, aumentar a satisfação
dos clientes internos e externos e manter sua certificação ISO 9000.
Diante dos resultados de minha
pesquisa, acredito que o psicólogo tem muito a contribuir para o sucesso dos
Programas de Gestão da Qualidade Total nas organizações, porém é importante
a reflexão de quê nosso papel mudou consideravelmente e que não podemos mais
ficar parados e acomodados em nossa sala e esperar que as pessoas venham nos
procurar e solicitar um serviço.
O papel do psicólogo
organizacional é acompanhar as pessoas em seu local de trabalho, pois é aí
que as dificuldades, as angústias, as frustrações, os desentendimentos e os
conflitos aparecem. Para isso, é preciso que aperfeiçoe seus conhecimentos e
habilidades e desenvolva atividades estratégicas, de pesquisa, planejamento e
consultoria; deixando as rotineiras e burocráticas para setores específicos.
Assim, terá mais tempo para conhecer as reais necessidades das pessoas com quem
trabalha, oferecendo melhor atendimento aos seus clientes internos
(colaboradores) e satisfazendo as demandas da organização.
O psicólogo organizacional
precisa associar mais competências ao seu perfil profissional, de forma a
tornar-se multidisciplinar e conhecer todas as atividades da Área de Recursos
Humanos da empresa, estabelecendo uma relação de confiança e respeito, a fim
de conquistar a todos. Também, deve auxiliar os demais profissionais de
Recursos Humanos no sentido de aprimorar e implantar políticas de RH que
estimulem a intuição e a criatividade, visando criar na empresa um ambiente
intelectualmente favorável à geração e multiplicação de conhecimentos.
Diante destes aspectos,
cabe-nos perguntar e refletir: O psicólogo tem clareza do seu atual papel nas
organizações? Ele tem atuado como profissional de Recursos Humanos? Ele tem
desenvolvido atividades na Gestão da Qualidade Total?
Concluindo, é indispensável
ter em mente que se o psicólogo organizacional quiser conquistar e expandir seu
espaço nas organizações, é preciso atuar como profissional de Recursos
Humanos, ou seja, como um profissional mais aberto, informado, conhecedor do
mercado, dos negócios da empresa e das reais necessidades de seus
colaboradores. Deve empregar seus conhecimentos de psicologia como diferencial
competitivo, sem se limitar a eles, pois enquanto profissional de Recursos
Humanos tem que pensar em novas formas de fazer as coisas, em adquirir
conhecimentos em outras áreas, em aperfeiçoar suas habilidades no trabalho com
as pessoas e em agregar valor ao negócio e às atividades que desempenha.
Dados da autora:
Rosana Marques da Silva
Formada em Psicologia – CRP 12/01502
Pós-graduada em Engenharia de Produção e Sistemas, na área de Qualidade e
Produtividade
sanamarques@uol.com.br
Bibliografia:
1- AIDAR, Marcelo M. Qualidade
humana: as pessoas em primeiro lugar. São Paulo: Matese, 1994.
2- GIL, Antônio Carlos. Administração de recursos humanos: um aspecto
profissional. São Paulo: Atlas, 1994.
3- ORLICKAS, Elizenda. Consultoria interna de recursos humanos. São
Paulo: Makron Books, 1997.
4- SANCHES, Cristina. Nova função para o profissional de RH. RH em Síntese,
São Paulo: Gestão e RH Editora, p.24-26, março/abril 1999.
5- PEREIRA, Heitor J. Novo papel político do profissional de RH. Revista de
Negócios, Blumenau, p.73 – 77, janeiro/março 1992. |