O Vendedor E O Capital Intelectual
Em recente conversa com meu
amigo Luís Roberto Mello – mestrando em Administração Pública pela FGV
cuja dissertação aborda o tema Aprendizagem Organizacional e Gestão do
Conhecimento –, vimo-nos diante do seguinte desafio: como associar e
compatibilizar os conceitos e práticas da gestão do conhecimento com os
relativos a marketing e vendas. Resolvemos, então, enfrentar em conjunto esse
dilema. Seu primeiro resultado encontra-se a seguir.
Ao longo da década de 1990, casos notórios de
aquisição de empresas em que o comprador (ou grupo comprador) se prontificava
a pagar, pela compra, valores muito acima do declarado no patrimônio líquido
da empresa adquirida chamaram a atenção para o valor dos ativos intangíveis,
do conhecimento organizacional, enfim, do capital intelectual das organizações.
A fim de gerenciarem de forma mais eficiente
seu capital intelectual, diversas organizações engajaram-se no processo de
identificar os componentes desse capital. A partir disso, e de um modo geral, o
capital intelectual tem sido visto como a união de três principais
componentes:
- o capital humano, ou seja, a qualificação,
as habilidades e conhecimentos e a capacidade de geração de idéias e de
inovação da força de trabalho;
- o capital estrutural, a parte do capital
intelectual que realmente pertence à empresa, os bancos de dados, os
manuais de procedimento, enfim, tudo aquilo que não pode ser levado embora
quando um funcionário deixa a empresa;
- o capital dos clientes, o valor da franquia
da empresa, do relacionamento com os clientes, a lealdade à marca da
empresa e a capacidade de a empresa conhecer as necessidades de seus
clientes e antecipar soluções para seus problemas futuros.
Analisando este último componente, podemos
verificar como os vendedores podem tornar mais efetiva sua forma de atuação
objetivando a alavancagem do capital dos clientes. Entre outras ações, os
vendedores:
- têm grande responsabilidade na criação e
manutenção de relacionamentos mutuamente benéficos com os clientes;
- apresentam grande potencial para a obtenção
de informações preciosas sobre os clientes;
- podem sugerir, a partir de sua proximidade
com os clientes, o desenvolvimento de produtos novos para usos já
existentes, de novos usos para produtos já existentes e de produtos novos
para novos usos.
Tudo isso aumentaria a satisfação, a lealdade
e a confiança do consumidor na sua empresa, elevando, conseqüentemente, o
capital dos clientes e o capital intelectual dessa mesma empresa. Mas, para
isso, é preciso que as empresas adotem uma nova postura.
As qualificações, habilidades e conhecimentos
dos vendedores devem ser renovados através de treinamento e desenvolvimento. O
vendedor deverá possuir uma visão dupla: uma especialista, voltada para as
estratégias e técnicas de vendas, e uma generalista, envolvendo aspectos das
ciências sociais e do comportamento do consumidor e aspectos tecnológicos do
produto e do processo produtivo. Também a troca de experiências e
conhecimentos entre os membros da equipe de vendas deve ser estimulada. Mas isso
apenas não basta.
É preciso que a empresa modifique seus
sistemas gerenciais, como o próprio treinamento e desenvolvimento, mas também,
por exemplo, o sistema de remuneração. Este deve beneficiar os vendedores que
ampliam seus horizontes de conhecimento e que atuam no sentido de alavancar o
capital intelectual da empresa.
Finalmente, a alta administração deve
estar aberta a modificações nos valores e princípios cultuados pela empresa,
incentivando, entre outros aspectos, uma postura voltada para o longo prazo,
visando à criação e manutenção de relacionamentos com clientes com base na
ética e que privilegie os ativos de conhecimento da empresa.
João Batista Vilhena
Diretor do Instituto MVC
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