Uma das mais importantes
responsabilidades do profissional de marketing é analisar o portfolio de
produtos/serviços da empresa e (re)definir os segmentos de mercado nos quais
ela deve atuar.
Se fizermos uma observação
mais atenta do comportamento de alguns produtos, poderemos observar que muitos
executivos parecem estar negligenciando este importante dever de casa.
Os bons manuais de marketing
orientam que, para minorar o risco de tão importante decisão, deve-se
analisar a atratividade dos diversos mercados potenciais e avaliar
criteriosamente as potencialidades da empresa/produto. A McKinsey and Co.
transformou essa idéia numa conhecida matriz e passou a estimular seus
clientes a utilizá-la.
Sem a pretensão de esgotar o
assunto, queremos traçar alguns comentários a seu respeito.
Em primeiro lugar, não
possamos deixar de reconhecer que cada segmento tem suas peculiaridades. Por
isso é fundamental que o profissional de marketing avalie atratividade do
mercado levando em consideração pelo menos os seguintes fatores:
- Tamanho do mercado
- Taxa de crescimento do mercado;
- Número de concorrentes;
- Intensidade da concorrência;
- Grau de mudança tecnológica;
- Necessidades de recursos financeiros;
- Nível de rentabilidade do setor.
É preciso estar atento para
o fato que, variando conforme o caso, alguns desses fatores podem ser mais
importantes do que outros e portanto devem receber pesos e ponderações
diferenciadas. Mesmo que o setor siderúrgico, por exemplo, apresente um
grande potencial de crescimento (algo difícil de acreditar nesses tempos de
recrudescimento do protecionismo americano), a necessidade de investimentos
financeiros iniciais é altíssima. Logo, capacidade financeira e
possibilidade de esperar por resultados que só virão em longo prazo, devem
ser fatores determinantes na hora de decidir investir nesta área.
Por outro lado, alguns
elementos aparentemente importantes podem não apresentar relação direta com
a atratividade. Podemos considerar, por exemplo, que a saturação de
concorrentes em uma determinada área seja um fator que reduza sua
atratividade para novos entrantes. Na cidade do Rio de Janeiro existe um
bairro – Benfica – notório pela quantidade de lojas que vendem artigos
ligados a iluminação. Se você estivesse pensando em abrir um empreendimento
deste tipo, consideraria Benfica um lugar indicado para se instalar? Um
planejador de marketing mais apressado talvez dissesse: "Mas como
sobreviver em meio a dezenas de concorrentes?" Já um estrategista
cauteloso perceberia que este bairro virou uma referência para a compra deste
tipo de produto e estar instalado lá significa uma substancial redução no
custo de captação de clientes. Como nem todos os mercados são assim, a
questão a ser levantada passaria a ser não apenas quantos concorrentes há,
mas se a entrada neste mercado poderia gerar algum ganho estratégico.
Não nos esqueçamos de um
outro dado: um mercado grande e com alta taxa de crescimento sempre parece, a
princípio, ser atraente. Mas não nos esqueçamos que, quando esta constatação
é feita por uma empresa, ela raramente passa desapercebida pelos seus
concorrentes. Em outras palavras, aquilo que parece altamente atraente hoje,
pode rapidamente deixar de sê-lo.
Na hora de avaliar a
potencialidade da empresa/produto também precisamos ser cautelosos em relação
a várias questões, como por exemplo:
- Participação de mercado;
- Crescimento da participação;
- Reputação da marca;
- Posicionamento de mercado;
- Rede de distribuição;
- Capacidade de produção (economias de
escala);
- Capacidade de adaptação do produto;
- Custos;
- Capacidade gerencial; etc.
Novamente precisamos ser
cautelosos. Há mercados em que a marca faz uma grande diferença. Por
exemplo, cigarros. Os consumidores tendem a se manter fiéis a uma marca
durante longo tempo. Em outros, a marca tem pouco peso em sua decisão – você
conhece alguém que só consuma uma determinada marca de sal?
Além disso, a avaliação da
potencialidade deve ser feita tendo-se em mente a visão do cliente e os
movimentos da concorrência.
O cliente é fundamental pois
vem se firmando cada vez mais como o "juiz" do mercado. Com uma
quantidade cada vez maior de opções, ele passa a ter algo que lhe faltava até
um passado recente: poder da escolha. Hoje é ele quem decide qual produto ou
serviço que apresenta melhor qualidade, independente dos esforços de
comunicação do fabricante. A concorrência força uma ponderação quanto à
questão da potencialidade, uma vez que o desenvolvimento tecnológico
acelerado torna cada dia mais verdadeiro a idéia de que "o diferencial
de hoje é a commodity de amanhã". Assim, lembre-se que, por mais
competente que sua empresa seja em determinado quesito, ela estará sempre à
mercê da atuação dos concorrentes.
Não pretendemos propor que
se mudem esses critérios de análise, que fazem sucesso desde a década de
50. Mas queremos lembrar que a efetividade da sua estratégia de marketing
dependerá, sempre, da análise correta do seu portfolio, da alocação de
recursos entre os produtos e serviços e da definição precisa de seu mercado
de atuação.
Pense nisso e evite que opções
de mercado aparentemente sedutoras te desviem da direção do dinheiro. Apenas
a título de provocação final, pergunte-se: caso a sua empresa estivesse
estudando o mercado de aviação civil, você recomendaria que ela investisse
no segmento de passagens de baixo preço? Ou ainda, se sua empresa fosse
recentemente reconhecida como competente fabricante de motocicletas, você
acha que valeria a pena investir no segmento de automóveis populares?
João Baptista Vilhena
Diretor do MVC
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