Onde Estão Os Talentos?
ONDE
ESTÃO OS TALENTOS?
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Hei
moço! O Sr. gostaria de comprar os cajus mais gostosos desta praia?
-
E
como você sabe que eles são os mais gostosos?
-
É
que eu moro ali naquele sítio e a gente tem uns três pés de caju em casa,
os vizinhos também têm em seus quintais, mas o pessoal daqui rouba somente
os cajus do meu quintal. É por isto que eu acho que os meus cajus são os
mais gostosos, senão o pessoal não roubava. O Sr. pode experimentar um se
quiser, se gostar o Sr compra dois saquinhos. O que o Sr. acha da minha
proposta?
Este
diálogo aconteceu de verdade em uma praia do litoral sul de São Paulo, em uma
manhã de verão. Eu estava sentado confortavelmente na areia da praia, quando
vi um menino moreno aparentando uns dez anos de idade empurrando um carrinho de
pedreiro todo enferrujado com o pneu murcho. Dentro do carrinho carregava alguns
saquinhos de plástico com punhados de cajus. Aceitei a proposta e provei um.
Confesso que a aparência das frutas era feia, mas o gosto era espetacular e
acabei comprando dois sacos.
O
Willian, este era o nome dele, vinha sorridente, olhando para o mar, para as
pessoas jogando futebol, para a asa-delta voando no céu. A cada aglomerado
familiar, ele parava e iniciava seu atualíssimo processo de vendas, afinal de
contas, ele tinha uma boa abordagem, fazia perguntas planejadas e coerentes,
tinha respostas para as dúvidas dos clientes, portanto conhecia o produto,
tinha uma boa oferta e tinha todo o programa de vendas na ponta da língua, além
de que era simpático, alegre, etc. Enfim, o Willian tinha o perfil do vendedor
que todo gerente de vendas gostaria de ter em sua equipe!
Mas
ele faz parte do enorme contingente de crianças que não terão oportunidade de
desenvolver suas habilidades naturais, pois sendo um filho de pedreiro
desempregado, morando em uma tapera, no fim do mundo, sem condições de educação,
saúde, sem nada... Enfim mais um brasileiro do popular grupo SF ou dos
"Sem Futuro".
Com
certeza o país perderá um potencial profissional da área comercial ou até,
quem sabe, um profissional da área de marketing ou da publicidade. Imagino a
quantidade de talentos que o país perde por não ter um estratégico modelo de
desenvolvimento de talentos como, analogamente, toda empresa inteligente tem.
Estatisticamente,
dos 68 milhões de jovens com idade entre 5 e 24 anos (IBGE-Censo 2000), cerca
de 4 milhões (6% da população segundo a curva de Gauss) são gênios em
alguma das 11 inteligências já catalogadas, conhecidas e provadas (conceito de
Howard Gardner e demais seguidores). Ou seja, 4 milhões de gênios estão
perdidos no meio desta multidão onde, com certeza, a maioria não foi
identificada pelos técnicos do setor educacional.
E
não o foram porque o pessoal da educação – sabendo ou não – não utiliza
esta ferramenta fantástica de identificação dos talentos.
Tenho
certeza que todos os executivos de nível médio para alto e demais pessoas
informadas conhecem o segundo camelô de maior sucesso no Brasil (o primeiro é
o Sr. Silvio Santos do SBT). Pois é David Mendonça, que ensina marketing para
"doutores" no assunto, em suas palestras pelo Brasil afora.
Um
caso de talento que a força de vontade e as durezas da vida promoveram ao
estrelato. Importante: David Mendonça não tem o segundo grau completo. Os
talentos ele sempre teve. Estavam latentes. Faltavam serem descobertos. Mas
ninguém descobriu e um brilhante profissional foi, por razões várias, morar
debaixo de uma ponte.
Um
dia, com um empréstimo de R$ 12,00 para comprar um remédio para a esposa, ele
ousou, e usou o dinheiro para comprar balas e doces que foram vendidos por R$
24,00. Comprou o remédio e reinvestiu o restante, pagou a dívida, e de lá
para cá não parou mais. Já foi entrevistado pelo David Letterman (Late Show
– CBS) e ficou por 21 minutos no ar, contra os 11 minutos do Mel Gibson no
mesmo programa.
Onde
estaria o David se nosso sistema educacional tivesse identificado este potencial
e o tivesse desenvolvido desde os primórdios do ensino básico, com um curso de
ensino médio completo, uma faculdade séria e formadora e uma oportunidade de
trabalho que o desenvolvesse ao máximo? Talvez tivéssemos um eficaz Presidente
de uma mega-empresa.
Nesta
semana vi uma matéria na TV onde três catadores de lixo reciclável de Belo
Horizonte estão realizando um filme. É isto mesmo. Estão escrevendo,
produzindo e realizando um filme sobre as dificuldades da vida dos catadores de
lixo de BH. Na matéria deu para notar que se tratavam de pessoas muito
articuladas e persistentes. Na entrevista ficou evidente a diferença de fazer o
que tem de ser feito, por exemplo, catar lixo e fazer o que se gosta de fazer,
mas dentro da habilidade intrínseca de cada um. Os olhos dos três brilhavam
quando falavam do filme, do script, das cenas, etc.
Segundo
o conceito de múltiplas inteligências, todo mundo é um pouco "gênio"
em pelo menos uma inteligência específica mas, por outro lado, este mesmo
"gênio" poderá ser uma "anta" em outra área.
Este
conceito explica porque encontramos engenheiros altamente capazes na habilidade
de cálculos (inteligência lógica - matemática) e que, por sua vez, não têm
nenhuma capacidade de escrever um relatório (inteligência lingüística literária)
e pior, às vezes nenhuma capacidade em lidar com gente (inteligência
emocional).
O
que as autoridades políticas e tecnocratas da área da educação do nosso país
estão fazendo com nossos talentos natos? Afinal mesmo no sertão mais pobre ou
na favela, estatisticamente, existem talentos, que em sua maioria serão
desprezados e morrerão com suas capacidades em forma de latência.
Segundo
recentes estatísticas do IBGE - Censo Demográfico 2000 (www.ibge.gov.br)
e do INEP - Censo Escolar 2003 (www.inep.gov.br),
como também publicado em um estudo do Instituto Cidadania-2003 Projeto
Juventude - publicado no site do INEP:
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47,6% dos jovens entre 15 e 24 anos não estão matriculados em nenhuma escola.
-
83% dos jovens entre 15 e 17 anos estão matriculados, dos quais 52% estão no nível
fundamental e 46% no nível médio.
-
50% dos jovens entre 17 e 19 anos estão matriculados, dos quais 13% na
universidade, 56,8% no nível médio e 29,7% no nível do ensino fundamental.
Apesar
das autoridades governamentais insistirem em dizer que 100% das crianças estão
matriculadas nas escolas do ensino fundamental - o que é verdade - o mesmo não
se pode dizer sobre a continuidade destes estudos, pois os jovens se distanciam
cada vez mais dos bancos escolares no ensino médio e superior. Ao que parece o
governo está publicitando a quantidade de alunos que entram e não a
qualidade daqueles que saem das escolas brasileiras.
Dos
bravos heróis que terminam o ensino médio, ao fazerem as provas do ENEM (Exame
Nacional do Ensino Médio), ou mesmo fazendo seu primeiro vestibular pleiteando
uma vaga na faculdade, encontramos besteiras escabrosas escritas nas provas,
tais como:
-
Lavoisier
foi guilhotinado por ter inventado o oxigênio.
-
Os
egípcios antigos desenvolveram a arte funerária para que os mortos
pudessem viver melhor.
-
Péricles
foi o principal ditador da democracia grega.
-
O
petróleo apareceu há muitos séculos, numa época em que os peixes se
afogavam dentro d'água.
-
A
unidade de força é o Newton, que significa a força que se tem que
realizar em um metro da unidade de tempo, no sentido contrário.
Entendo
que estas frases foram publicadas na Internet e, portanto são passíveis de uma
"montagem" para torná-las mais hilárias mas, por outro lado, sabemos
que os jovens ao entrarem nas universidades mal conhecem aritmética e menos
ainda interpretação de texto.
Segundo
os resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de
1999, o Brasil ocupou pela segunda vez o desonroso último lugar entre 32 países
(publicado pelo INEP em 2003) onde somente 1,8% dos alunos (sem atraso) com
idade de 15 anos sabem ler e interpretar completamente um texto. Desculpem, mas
tenho de ver o copo vazio (nem meio vazio), afinal 98,2% dos alunos não têm
capacidade de ler e interpretar um texto devidamente.
Segundo
o Prof. Cláudio de Moura Castro (Relatório PISA-2003 – publicado no site do
INEP), este resultado é de âmbito nacional e inclui os alunos das melhores
escolas particulares do país bem como os das escolas públicas. Na opinião do
professor, o fato de uma família pagar uma escola de ensino fundamental e médio,
não quer dizer que seus filhos serão melhores preparados que nas escolas públicas.
Gestores
do setor da educação em nível superior da maioria das faculdades privadas
relatam que têm de baixar o nível nos vestibulares, caso contrário ninguém
conseguiria ser aprovado. Por conseqüência, acredito, têm de baixar o nível
do curso, caso contrário ninguém conseguiria o diploma. E assim por diante,
ano após ano, num círculo vicioso de incompetências, até chegar à conclusão
do curso.
Como
efeito encontramos profissionais devidamente graduados sem o mínimo
conhecimento necessário para entrar no mercado de trabalho. Talvez seja esta
uma das razões do porquê, e cada vez mais, das empresas estarem criando as
suas universidades corporativas. Provavelmente porquê tem de desenvolver
conhecimentos técnicos que as faculdades não conseguiram ministrar.
Por
outro lado, o ensino médio também reclama que tem de baixar o nível
justificando que os alunos oriundos do ensino fundamental chegam mal sabendo
escrever seus próprios nomes e poucos, muito poucos, sabem realizar funções
matemáticas que envolvam as quatro operações aritméticas.
Em
algum momento este jogo de empurra-empurra tem de terminar. Afinal, continuando
assim, colocaremos em perigo a segurança nacional, pois em um futuro próximo,
teremos de importar tecnologia e profissionais, uma vez que, cada vez mais é
escassa a quantidade de profissionais capaz de pesquisar e desenvolver inovações
e gerenciar operações.
Esta
conseqüência já pode ser notada e sentida nos dados sobre o número de novas
patentes por países em relação ao número de habitantes (Human Development
Report 2001 – UNDP. - United Nations Development Programme – http://hdr.undp.org/reports/global/2001/en/),
onde o Brasil apresentou um indicador de apenas 2 patentes por cada milhão
de habitantes, enquanto o Japão, Coréia e USA apresentaram 994, 779 e 289,
respectivamente, patentes por cada milhão de habitantes, ou seja, o Brasil está
muito longe da revolução tecnológica pela qual o mundo está passando.
E
onde está a solução para este tremendo gap?
0)
– O Brasil tem de tomar uma decisão estratégica e eleger a educação como
sendo a mais importante saída para a maioria dos nossos problemas atuais, pois
desde a profissionalização até a violência urbana têm suas raízes na educação.
1)
– Entender e direcionar a escola fundamental e média como
"empresas" formadoras de cidadãos, mas também de profissionais
capazes de dirigir empresas e projetos. Fazê-las criar e implementar planos
estratégicos onde a missão deveria ser formar gestores, diretores e
presidentes de empresas sejam elas quais forem, serviços, indústria, terceiro
setor, (micro, média ou grande empresa) etc, pois temos que profissionalizar a
gestão deste país e deixar o amadorismo para os concorrentes.
2)
– Baseado no princípio da participação dos fornecedores de matéria-prima
como co-responsáveis pelos programas de qualidade das empresas:
-
É
de fundamental importância que os pais participem das atividades
curriculares das escolas de ensino fundamental e médio, atuando
efetivamente na discussão do aproveitamento, conteúdos e disciplina.
-
É
de fundamental importância de que este país entenda que o
"cliente" não tem sempre razão e admitir que quando um aluno
passa dos limites, tem de ser punido severamente chegando ao extremo da
expulsão da escola.
-
Temos
de eliminar esta situação de que aluno, filho de pai rico, pode fazer o
que quiser; depredar o patrimônio, desacatar professores e demais funcionários.
Lugar de aluno indisciplinado é fora da escola que tem um programa sério
de educação.
3)
– Implementar um dos conceitos básico dos programas de qualidade: começar
certo desde o princípio, desde o projeto. Desta forma, implementar um ensino básico
de primeiríssima qualidade, onde o aluno ficaria o dia todo em processo de
educação seja ela técnica, cívica, moral ou esportiva.
4)
– Por meio da aplicação de conceitos modernos de recrutamento e seleção tão
conhecidos e utilizados no meio empresarial: desenvolver programas para o ensino
médio que procure, logo no início, identificar os talentos (múltiplas inteligências)
e direcioná-los no sentido do seu desenvolvimento profissional, de tal forma
que, para cada aluno, exista um plano individual de educação, treinamento e
desenvolvimento, tanto preparando para cursos profissionalizantes como para a
futura faculdade.
5)
– Um ensino superior onde seja possível a entrada de todos que se candidatem
a entrar neste ou naquele curso identificado no nível médio, mas que filtrasse
a saída somente daqueles que efetivamente adquiram o conhecimento fundamental e
concreto da área técnica escolhida.
6)
– Criar e definir o perfil de competências do professor ideal em cada nível,
classificar todos os profissionais na ativa em relação ao seu perfil
individual e, passo seguinte, implementar um completo e sério programa de
desenvolvimento dos professores. Tal e qual acontecem nas empresas orientadas ao
resultado, quando um colaborador não tem o perfil de competências para
desempenhar a função, ele tem de ser transferido ou até mesmo demitido.
No
ensino médio, das escolas públicas e privadas, os professores raramente são
treinados para a melhoria das suas atividades.
No
ensino superior, algumas faculdades, no sentido de economizar alguns
"centavos" chegam a contratar professores que nem têm curso superior
e, pelo simples fato de terem alguma experiência profissional, são
contratados. Nada contra a transferência de conhecimento adquirido através da
experiência, mas "experiência" que dizer "passado" e
precisamos de professores que desafiem o passado e levem aos alunos à
possibilidade e à necessidade de criar um futuro. Na graduação, o conteúdo
programático tem de estar na fronteira do conhecimento e, por esta razão,
temos de ter professores altamente atualizados.
Concluo
que nosso modelo de educação deveria considerar:
-
Uma
orientação mais profissional, sem ser meramente profissionalizante;
-
As
mudanças que estão acontecendo no mundo, tais como o futuro comércio
mundial com a China dominando a tecnologia da informação, promovendo, em
algum canto da formação, o ensino Mandarim que, sem nenhuma dúvida, em
dez anos vai dominar o mundo na esfera comercial;
-
Uma
orientação para a formação de cidadãos, como todas pensam que são e,
ao mesmo tempo, formar profissionais preparados para dirigir este país em
um mundo cada vez mais sem fronteiras e sem barreiras.
-
A
enorme necessidade que o país tem de técnicos de nível médio formados e
treinados para operar atividades corriqueiras do dia-a-dia, pois a maioria
dos mecânicos, pedreiros, consertadores de eletrodomésticos, garçons, e
demais profissões altamente importantes e necessárias, são realizadas por
pessoas que, em grande parte, perderam o emprego e tiveram de arrumar um
"bico" e lá ficaram, desenvolvendo um trabalho amador e de baixa
qualidade.
Afinal,
se o Brasil quer (e precisa) crescer pelo menos 5% ao ano, vamos precisar, cada
vez mais, de gente capaz para produzir e gerir este crescimento.
Que
venham as mudanças!
MATERIAL
RETIRADO DO POCKET MBA - COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL EM NEGOCIAÇÃO
MAURO
RIBEIRO
Consultor
Sênior Associado ao MVC
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