A pergunta que
dá título ao artigo deste mês tem sido freqüentemente ouvida em nossos
cursos de Distribuição e Logística.
Se observarmos
genericamente os movimentos ocorridos dentro da cadeia logística de diversos
fabricantes, temos a tentação inicial de afirmar que, do médio para o longo
prazo, os intermediários deverão ser eliminados e a venda deverá ser feita
diretamente do fabricante para seus consumidores. Várias seriam as razões
para apoiar este raciocínio:
1 - a possibilidade de desonerar a cadeia, reduzindo o número de intermediários
- o que causaria impacto para a redução dos preços;
2 - o surgimento de canais que facilitam o contato direto entre consumidores e
fabricantes - aumento da oferta de linhas telefônicas e adoção ampla da
Internet;
3 - o surgimento de operadores logísticos capazes de resolver o
"gargalo" do custo distributivo;
4 - a cada vez mais freqüente adoção, pelos fabricantes, de ferramentas de
CRM que lhes permite ter efetivo controle sobre o relacionamento com uma base
extensiva de clientes.
Na nossa opinião
os fatores acima elencados não contribuem para resolver um problema crucial:
a falta de vocação comercial de vários fabricantes.
Se fizermos uma
reflexão sobre a situação geral do mercado até pouco mais de cinco anos
atrás, vamos verificar que vender era algo razoavelmente simples, que não
exigia uma grande competência. Fruto de uma opção desenvolvimentista que
privilegiava a proteção da indústria à "ameaça" representada
por um mercado aberto à livre concorrência, podemos afirmar que, até meados
dos anos 90, as empresas não precisavam fazer grandes esforços para vender.
Afinal, mantinha-se a oferta artificialmente baixa, criando-se barreiras
fiscais para a entrada de produtos concorrentes ou substitutos. O resultado
disso é que muitas de nossas empresas não desenvolveram vocação para a
venda.
Porém, a
abertura comercial trouxe novos concorrentes e a necessidade de as empresas
ampliarem suas competências tecnológicas e mercadológicas.
De fato,
tecnologicamente, muitas empresas conseguiram elevar os níveis de seus
processos e produtos, alcançando maior produtividade e competitividade.
Contudo, com relação a competências de mercado, nem tantas puderam alçar
novos vôos.
Como vender, nos
dias atuais, é cada vez mais difícil, não basta adquirir novos softwares e
hardwares e acreditar que a venda ocorrerá naturalmente. É preciso mais do
que isso, é preciso todo um conjunto que envolve pessoas qualificadas
e engajadas, sistemas físicos, sistemas gerenciais e, acima de tudo, uma
filosofia empresarial que possibilite o desenvolvimento dessa competência e
que saiba encontrar o ponto ótimo entre os desejos e necessidades dos
consumidores e da empresa.
Contudo, esse não
é um desafio fácil de ser superado. Em muitos casos, a empresa deve
conscientizar-se da falta de vocação/competência comercial e permitir que
outro agente execute esse papel. E é nesse gap que os atacadistas
devem atuar.
Em um país com
nossas dimensões, é preciso ajustar sua oferta para cada região, para cada
(sub)cultura. Os fabricantes mantiveram-se longe demais dos consumidores, não
os conheceram. O intermediário, por sua vez, tem essa competência e, além
disso, pode influenciar fortemente a decisão de compra a partir do momento em
que determina a composição do mix de produtos que estará disponível
ao consumidor final.
A função do
atacadista será como a de um broker, ou seja, uma organização que atua como
elo entre fabricante e revendedor, não chegando a ter a posse física do
produto, mas funcionando como uma espécie de "consultor" de vendas,
indicando as regiões mais adequadas para os fabricantes destinarem seus
produtos e indicando os produtos mais adequados para o revendedor local.
João Baptista Vilhena
Diretor do MVC
-