Os modismos gerenciais e o tempo
Os modismos gerenciais e o tempo
- Você nem imagina, FH!
Participei de um curso sensacional! Vou mudar!
- E desta vez é prá valer, Teco?
- É sério. Aprendi técnicas revolucionárias para me organizar e administrar
meu tempo!
- Então me conta como funcionam essas novidades.
- Bem, primeiro fizemos uma vivência para nos conscientizarmos que, por mais
que a gente queira se livrar do relógio e dos horários, eles fazem parte do
nosso dia-a-dia. Acho que aprendi a conviver com horários quando necessário.
- Que bom. A propósito, o poeta Paulo Mendes Campos já tinha dito há tempos
que "perdemos a inocência quando aprendemos a olhar as horas do relógio.
O tempo do adulto é um imposto cobrado pela inteligência do mundo, um freio de
que fomos libertos na infância..." E também Aldous Huxley, em seu ensaio Time
and the Machine, escreveu que "o tempo é nosso tirano. Somos
cronicamente atentos ao movimento do ponteiro dos minutos e até mesmo ao do
ponteiro das horas. Somos obrigados a isso".
- É mesmo? Bem, depois no exercício sobre paradigmas, vimos que não basta
definir nossos objetivos para que eles aconteçam, é preciso estabelecer que
passos devem ser dados para alcançá-los.
- Que interessante. Você está
seguindo os conselhos de Gandhi, que disse certa vez "cuide dos meios, que
o fim cuidará de si mesmo". Aliás, bons gerentes de projeto usam há
muito tempo uma ferramenta chamada estrutura analítica, que subdivide o projeto
em seus componentes básicos a fim de torná-los administráveis.
- É...? Ah, sim, usamos também
uma técnica nova, chamada 5W1H, em que cada tarefa deve ser especificada com as
perguntas o quê, quando, como, onde etc.
- Mas por que o nome 5W1H,
Teco?
- Ora, está em inglês! Who
(quem), how (como) ...
- Ah, saquei essa técnica
nova. É parecida com um versinho que Rudyard Kipling, que morreu em 1936,
escreveu no final do século passado:
I kept six honest serving man;
They taught me all I knew.
Their names were WHAT, and WHY,
and WHEN,
and HOW, and WHERE, and WHO.
- Ué, isso não é técnica
japonesa, FH?
- Pertinho, Teco. Afinal
Kipling nasceu na Índia...
- Mas tudo que eu falo você
diz que já existia? Afinal, você não tem dúvidas?
- É claro que sim, Teco.
Voltaire já dizia que "a dúvida não é um estado agradável, mas a
certeza é um estado ridículo". E eu tenho muitas e muitas dúvidas.
Apenas tento verificar se o que estão me apresentando como novidade já não
foi de fato dito, explorado, pensado e escrito anteriormente por outros. Muitas
vezes até de uma forma melhor...
- É, confesso que minha única
decepção foi me dar conta que, depois de priorizar minhas atividades, descobri
que nem tudo que eu quero fazer vou conseguir, pois não há tempo para realizar
tudo. É frustrante ter que deixar coisas por fazer, não é?
- É, também acho. Mas Teco,
isso não é só nosso nem só dos dias de hoje. Voltaire sentiu a mesma coisa
em 1747 ao falar através do personagem Zadig:
"Nada é mais longo do que
o tempo, pois ele é a medida da eternidade;
Nada é mais curto do que o
tempo, pois ele é insuficiente para os nossos projetos".
- É mesmo. Ele já sabia disso
em 1747...
- Teco, pode parecer que estou
cortando o seu barato, mas não é bem assim. Estou querendo dizer que suas
descobertas são ótimas e estão ajudando no seu dia-a-dia. Apenas não são tão
novas como foram apresentadas no curso, e que a leitura da boa literatura, a
nova e a de sempre, pode ser tão ou mais rica em conhecimentos quanto certas técnicas
gerenciais vendidas como milagreiras que proliferam hoje em dia, cada qual
apresentando suas verdades e soluções únicas e definitivas. Cada uma com seu
modismo e terminologia próprias: reengenharia, downsizing, qualidade,
zapps e vupts!
- Quer dizer que é sempre bom
verificar se não há outras formas e fontes além daquelas que nos apresentam
como a novidade do momento?
- É isso, Teco. Vimos que não
há tanta novidade assim. Pelo menos, em muitos cursos, livros e autores sobre
temas ligados à gerência dos dias de hoje...
Este pequeno diálogo imaginário
pode na verdade já ter ocorrido!
O treinamento é fundamental
para a capacitação de pessoal em toda e qualquer empresa, e por isso deve ser
incentivado.
Mas muitos apresentadores se
vestem de sábios ou de profetas para apresentar como novidade coisas que já
foram ditas e escritas há muito tempo. E muita gente pensa estar diante de um
grande guru quando participa de alguns desses cursos e palestras, principalmente
na área gerencial, quando os palestrantes se apresentam como autores de muitas
das idéias expostas.
Cuidado, é preciso não
esquecer de fazer como Montaigne que, nos seus Ensaios, escritos no século XVI,
afirmou "Não menos que saber, duvidar me apraz" sem deixar de citar,
claro, o autor da frase: Dante.
E ter em mente que não é
preciso ser erudito ou intelectual para ter acesso aos conhecimentos e descobrir
o prazer de aprender. Dentro das nossas próprias medidas, precisamos e podemos
nos educar um pouco mais a cada dia - essa é uma tarefa individual - e
acrescentar valores e recursos à nossa bagagem pessoal para desfrutar melhor do
mundo, alargar nossa visão e ter mais a oferecer como profissionais e como
pessoas.
Fernando Henrique da Silveira Neto
www.institutomvc.com.br
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